IMPACTO DA PANDEMIA

BC vê queda forte do PIB no primeiro semestre

Banco Central não descarta novo corte na taxa básica de juros, de 0,75 ponto porcentual


Técnicos alertam para o grau de incerteza sobre a retomada da atividade econômica e citam risco de 'ondas' de pandemia, com reflexos nas exportações
Técnicos alertam para o grau de incerteza sobre a retomada da atividade econômica e citam risco de 'ondas' de pandemia, com reflexos nas exportações - Arnaldo Alves/ANPr

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central avaliou nesta terça-feira, 12, por meio da ata de sua última reunião - quando os juros básicos da economia foram reduzidos para a mínima histórica de 3% ao ano - que as projeções apontam para uma "recessão global com poucos precedentes históricos".

No Brasil, acrescentou o BC, há evidência suficiente de que a economia sofrerá forte contração no segundo trimestre deste ano. "O cenário básico considerado pelo Copom passou a ser de uma queda forte do PIB na primeira metade deste ano, seguida de uma recuperação gradual a partir do terceiro trimestre deste ano", acrescentou.

Diante da contração da economia e seu impacto sobre a inflação - que pode ficar abaixo do piso do sistema de metas -, o BC informou que dois integrantes do Copom ponderaram que poderia ser oportuno, na semana passada, prover todo o estímulo necessário de imediato (realizar um corte agressivo na taxa básica de juros), em conjunto com a sinalização de manutenção da taxa básica pelos próximos meses.

O argumento desses diretores do BC é que isso reduziria os riscos de não cumprimento da meta para a inflação de 2021. "Entretanto, foi preponderante a avaliação de que, frente à conjuntura de elevada incerteza doméstica, o espaço remanescente para utilização da política monetária (novas reduções da Selic) é incerto e pode ser pequeno", acrescentou o Banco Central, na ata do Copom.

O Banco Central reiterou a intenção de promover novo corte da Selic (a taxa básica de juros) em junho, de até 0,75 ponto porcentual - o que levaria para 2,25% ao ano. Ao mesmo tempo, o BC ressaltou que os próximos passos da política monetária dependerão do andamento da pandemia do novo coronavírus.

"Para a próxima reunião, condicional ao cenário fiscal e à conjuntura econômica, o comitê considera um último ajuste, não maior do que o atual, para complementar o grau de estímulo necessário como reação às consequências econômicas da pandemia da Covid-19", registrou o BC na ata desta terça.

"No entanto, o Comitê reconhece que se elevou a variância do seu balanço de riscos e ressalta que novas informações sobre os efeitos da pandemia, assim como uma diminuição das incertezas no âmbito fiscal, serão essenciais para definir seus próximos passos", acrescentou a instituição.

Economistas têm alertado para o grau de incerteza em relação à retomada da atividade econômica e citam o risco de "ondas" de pandemia. Algumas cidades da China, país de origem da doença, e outras localidades voltaram a testar seus cidadãos devido ao ressurgimento de casos por transmissão local.

"Os membros também debateram sobre a velocidade da recuperação econômica. Refletiram que, a menos de avanços médicos no combate à pandemia, é plausível um cenário em que a retomada, além de mais gradual do que a considerada, seja caracterizada por idas e vindas", diz o comunicado.

Em meio a essa possibilidade de "idas e vindas", o cenário básico considerado pelo Copom passou a ser de uma queda forte do PIB na primeira metade deste ano, seguida de uma recuperação gradual a partir do terceiro trimestre deste ano.

Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

Por causa do tombo da economia, o Copom opinou que o impacto da pandemia do novo coronavírus sobre a economia brasileira será desinflacionário e diz que iniciou um processo de revisão para baixo nas expectativas de inflação "para níveis não compatíveis com as metas, em particular para o horizonte relevante da política monetária (até o fim de 2021)".

A meta de inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Para alcançá-la, o Banco Central eleva ou reduz a taxa básica de juros da economia (Selic). Para este ano, a meta central é de 4% e, para 2021, de 3,75%. Há, porém, uma banda pela qual a inflação pode oscilar 1,5 ponto percentual para cima, ou para baixo, sem que a meta seja formalmente descumprida.

O mercado financeiro prevê inflação de 1,76% para este ano, abaixo do piso de 2,5% do sistema de metas para este ano, e de 3,25% para 2021. Já o BC informou que estima um IPCA em torno de 2,4% para 2020 e 3,4% para 2021 (com a taxa de juros prevista pelo mercado e câmbio fixo em R$ 5,55 por dólar).

Qual o limite para a queda da Selic

Para a maioria dos membros, o Brasil já estaria próximo do nível em que reduções adicionais podem vir acompanhadas de instabilidade nos mercados. Segundo a ata da reunião, a maioria dos membros ponderou que o limite mínimo para a taxa básica seria "significativamente maior" em economias emergentes do que em países desenvolvidos, devido à presença de um prêmio de risco. Ou seja, a taxa poderia cair menos nos emergentes.

No Brasil, de acordo com o comunicado, a "relativa fragilidade fiscal" do País e "as incertezas quanto à sua trajetória fiscal prospectiva" tendem a elevar ainda mais esse prêmio de risco.

"Nesse contexto, já estaríamos próximos do nível onde reduções adicionais na taxa de juros poderiam ser acompanhadas de instabilidade nos mercados financeiros e nos preços de ativos", diz o comunicado.

Por outro lado, segundo a ata do Copom, um membro argumentou que, em princípio, "não há razão para a existência de tal limite mínimo operacional, já que os tradicionais canais da política monetária continuariam operantes, sem descontinuidades, embora, possivelmente, com um aumento do efeito de variações da taxa de juros básica sobre os preços de ativos financeiros".

"O comitê como um todo reconheceu a importância de gradualismo na condução da política monetária para avaliação da resposta dos preços de ativos financeiros", diz a ata.

O Banco Central também alertou que "possíveis alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas pode ameaçar o processo de queda dos juros estruturais". Esse alerta é reforçado, segundo a ata, pela interação da deterioração do cenário externo com frustrações em relação à continuidade das reformas.