SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | TERÇA-FEIRA, 26 DE OUTUBRO DE 2021
Leandro Karnal

O desafio

O pensamento científico tenta enfrentar o que for "preconceito". Dentre muitos sentidos, a palavra indica um conceito surgido antes da experiência, algo que está na cabeça sem observação da realidade

Leandro Karnal
Publicado em 18/09/2021 às 20:46Atualizado em 18/09/2021 às 20:47
Leandro Karnal (Divulgação)

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O desafio

O pensamento científico tenta enfrentar o que for "preconceito". Dentre muitos sentidos, a palavra indica um conceito surgido antes da experiência, algo que está na cabeça sem observação da realidade

Leandro Karnal
Publicado em 18/09/2021 às 20:46Atualizado em 18/09/2021 às 20:47

Leandro Karnal (Divulgação)

Vou desafiar meus leitores e minhas leitoras. É um convite a uma posição mais científica na formulação de opiniões. Meu texto de hoje tem dois objetos: um é de memória de um centenário, outro é uma metodologia de pensamento.

Começo pela metodologia. O pensamento científico tenta enfrentar o que for "preconceito". Dentre muitos sentidos, a palavra indica um conceito surgido antes da experiência, algo que está na cabeça sem observação da realidade. O indivíduo é um evangélico fervoroso e, por causa da sua fé, evita ler um bom texto do papa Francisco, por exemplo. Obviamente, o mesmo ocorre com o católico convicto em relação a outros credos. Também Freud, Adam Smith ou Marx são precedidos de muitas informações de segunda mão. Sempre houve mais nietzschianos do que leitores de Nietzsche, mais freudianos do que examinadores dos textos do médico austríaco.

Existem, por fim, os que conhecem algo de uma referência, porém apenas tomaram contato com trechos, excertos, frases perdidas. Talvez Platão e a Bíblia sejam as vítimas mais frequentes desse mal. Como na parábola dos cegos que apalpam um elefante, uns imaginam que a forma do mamífero seja de uma espada por tocarem no marfim, outro afirma ser uma parede por tocar seu abdômen e um terceiro garante que é uma mangueira por ter encostado, exclusivamente, na tromba.

Passemos ao centenário e à união dos dois temas. A 19 de setembro de 1921, ou seja, há cem anos, nascia o recifense Paulo Reglus Neves Freire. Filho de uma classe média urbana (o pai era militar), enfrentou dificuldades, porém seguiu o curso de Direito e começou a lecionar português. Seu olhar agudo tocava em um grande problema do Brasil: a alfabetização de adultos. Os métodos tradicionais causavam desistência. Apenas para dar uma breve indicação do tamanho do desafio: em 1906, de cada mil habitantes do Estado de Pernambuco onde Paulo Freire viria a nascer, 193 eram alfabetizados e 807 analfabetos. Os números podiam ser ainda mais desanimadores (168 alfabetizados em mil na Paraíba) ou subir um pouco mais (247 alfabetizados por mil em São Paulo). Apenas no Distrito Federal, a área aproximada da então capital, Rio de Janeiro, a alfabetização ultrapassava 50% da população (519 em mil). Éramos um país rural e com poucos leitores. Deixamos de ser um país rural...

O quadro foi mudando lentamente ao longo do século 20, sem nunca ter conseguido eliminar a gravidade do analfabetismo total e do ainda não calculado analfabetismo funcional. Como construir uma sociedade produtiva e minimamente justa com analfabetismo, letramento imperfeito, dificuldades estruturais de leitura e de interpretação de texto? Abundam alunos defasados na relação idade/ano cursado, desistência e evasão escolar, sucateamento material da escola pública e a evidente falta de um projeto nacional consistente e contínuo sobre a educação. O quadro comovia o jovem Paulo Freire e a nós, cem anos depois.

A questão tinha tocado fundo em Anísio Teixeira (1900-1971), um dos mais influentes pensadores da educação pública brasileira. Um dos livros do baiano de Caetité apresenta como título quase um programa permanente: Educação Não É Privilégio.

Há muitos outros educadores. Paulo Freire é um deles. Ele concebeu um modelo de alfabetização novo. Partiu do universo dos alunos em um célebre experimento com cortadores de cana. Usando uma palavra em voga hoje, empoderou os alunos que deixaram de ser receptores passivos de uma escola informativa, baseada na memória e com autoridade do professor. Escreveu sobre suas experiências, inclusive sobre alguns fracassos que motivaram aperfeiçoamentos no método.

Paulo Freire tem muitos livros. Seu método chamou a atenção de intelectuais na Europa e nos EUA. O livro Pedagogia do Oprimido, obra básica para conhecer seu pensamento, é traduzido para quase todas as línguas. Sei da importância do livro, porém o meu preferido é Pedagogia da Esperança. É o intelectual brasileiro mais citado na área de educação nos grandes centros. Cerca de 40 instituições universitárias de peso deram a ele o título de Doutor Honoris Causa. Exemplos? Genebra, Bolonha e Barcelona. Foi professor-visitante em Harvard. Um brasileiro debatido e estudado no mundo todo. Não por acaso, é o patrono da educação brasileira.

Comecei falando do caráter pouco científico de julgar sem ler. Depois falei do centenário de Paulo Freire. Tenho encontrado defensores e detratores apaixonados da obra do recifense. Encontro bem menos leitores. Lanço o desafio cheio de esperança no centenário dele: antes de defender ou atacar Paulo Freire, leia dois livros dele ao menos. Pouco eu sei, porém, um começo. Depois de ler e examinar a obra, talvez alguns dados biográficos dele. Por fim, livremente, sendo você de esquerda ou de direita, emita sua sagrada opinião, agora com certo embasamento.

Educação é algo muito sério. Paulo Freire encarou o gravíssimo drama do analfabetismo. Hoje vivemos outro tipo de drama: pessoas que possuem a capacidade de ler e se recusam a fazê-lo. Freire dizia que a esperança é um ato revolucionário. Acredito nisso.

Leandro Karnal

Historiador e filósofo. Escreve duas vezes por semana no jornal Diário da Região

 
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