SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | TERÇA-FEIRA, 18 DE JANEIRO DE 2022
ARTIGO

Árvores e machado

Um lenhador avança com seu instrumento de corte. As árvores, horrorizadas, percebem que o cabo que pode matar uma ou várias é, estranhamente, feito de madeira. São matrizes do seu próprio fim. Fornecem o lenho que gesta sua morte. Árvore/Homem/Machado: tese, antítese e síntese que se repetem em toda vida

Leandro Karnal
Publicado em 04/01/2022 às 23:16Atualizado em 05/01/2022 às 00:19
Leandro Karnal

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Árvores e machado

Um lenhador avança com seu instrumento de corte. As árvores, horrorizadas, percebem que o cabo que pode matar uma ou várias é, estranhamente, feito de madeira. São matrizes do seu próprio fim. Fornecem o lenho que gesta sua morte. Árvore/Homem/Machado: tese, antítese e síntese que se repetem em toda vida

Leandro Karnal
Publicado em 04/01/2022 às 23:16Atualizado em 05/01/2022 às 00:19

Leandro Karnal

Escrevo inspirado em Rubem Alves e, talvez, Malba Tahan. Árvores são convites à reflexão. Sempre crescem em direção à luz, erguem-se sobre densas raízes e são generosas de todas as formas. Seriam bons modelos?

Há mais: um lenhador avança com seu instrumento de corte. As árvores, horrorizadas, percebem que o cabo que pode matar uma ou várias é, estranhamente, feito de madeira. São matrizes do seu próprio fim. Fornecem o lenho que gesta sua morte. Árvore/Homem/Machado: tese, antítese e síntese que se repetem em toda vida.

Uma árvore cai com estrondo. O barulho é imenso e derruba também bromélias, liames e ninhos de pássaros. Um crime ecológico! Mistério: por que a queda de uma é tão forte ao romper o silêncio da manhã na mata e o crescimento de dezenas de milhares é silencioso? Por que a morte impacta tanto e a vida segue sem murmúrios nítidos? Qual a causa de o erro ser tão marcante e os acertos seguirem na toada monótona dos dias?

Eu li Malba Tahan na infância e juventude. Fico imaginando se ainda haverá quem se lembre das maravilhosas histórias matemáticas contadas por ele. Descobri Rubem Alves depois e acabei conhecendo-o pessoalmente. Ambos eram brilhantes neste enfoque que, aqui, esbocei de forma tosca. A natureza como fonte de sabedoria é rica em metáforas. Na verdade, antes dos dois brasileiros, o modelo parece ser Jesus no Evangelho e suas metáforas agropastoris. Exemplos? Os lírios do campo, o grão de mostarda, a tempestade, a ovelha perdida, o bom pastor. A natureza estava diante dos que ouviam a pregação e Jesus, bom professor, valorizava o que poderia ser reforço pedagógico imediato. Retrocedendo mais 900 anos, vemos o salmo 23 falando de Deus como Pastor, a noite assustadora no vale e os desafios de existir em um mundo cheio de problemas.

Cansado do mundo dos bichinhos e plantinhas? Talvez você possa sugerir uma atualização: "O Senhor é minha internet 5G, Ele nunca cairá. A graça de Deus é rápida como o cabo de fibra ótica! A oração é um SAC eficaz diretamente com o dono! E a mais forte prece: Deus é meu algoritmo!" Bem... o Antigo Testamento foi redigido no exílio da Babilônia e não no Vale do Silício.

Ainda não existe poesia nas máquinas. Porém é interessante imaginar que tudo esteja em uma metáfora meteorológica: a nuvem. Acima de nós, oniscientes e universais, Deus e a nuvem. Esperança?

Leandro Karnal, Historiador e filósofo. Escreve duas vezes por semana no jornal Diário da Região

 
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