SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | TERÇA-FEIRA, 18 DE JANEIRO DE 2022
ARTIGO

A fome da caverna

Leandro Karnal
Publicado em 11/01/2022 às 20:31Atualizado em 11/01/2022 às 21:38
Leandro Karnal

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A fome da caverna

Leandro Karnal
Publicado em 11/01/2022 às 20:31Atualizado em 11/01/2022 às 21:38

Leandro Karnal

Há duas ocasiões ricas para observar nossa espécie: quando estamos completamente sozinhos e quando estamos em situações de alimentação em grupo.

Vou me deter no segundo momento. Tudo muda quando fazemos parte de uma tribo em busca de comida. Ali falam nossos instintos mais antigos, nosso cérebro reptiliano. Milhões de anos lutando contra o mundo hostil em busca de algo para saciar o vazio do estômago, enfrentando animais maiores, perdendo para quase todos: nossa tradição mais arraigada é o medo da fome.

Você já presenciou a cena: o casamento é elegante, os convidados estão bem-vestidos e parecem bem alimentados. É dada a largada da festa: começa a busca de lugares à mesa. Os olhos de todos acompanham a logística. "Por que começaram a servir do outro lado?" ou "aqueles lá não estão respeitando a fila" e ainda "será que teremos camarões, quando chegar a minha vez?". Muita angústia em rostos que parecem nunca ter passado pela terrível experiência da fome.

Quem já pegou um cruzeiro grande sabe que o ataque ao bufê é quase selvagem. A civilização se encerra ali diante da comida exposta. Surgem passageiros felizes com pratos colossais, equilíbrios inverossímeis e desafios à lógica das leis de Newton

Para garantir, testemunhei com frequência, depois de construir um pequeno Everest de alimentos sobre a circunferência do prato sempre insuficiente, o indivíduo já traz junto um sortimento de doces para garantir que os possa comer em paz. E, ainda assim, atulhado de tudo que serviria para alimentar uma pequena tropa, ainda repara que seu vizinho de mesa pegou muito filé e pouco purê, uma violação das regras implícitas do bufê.

Quando o resort à beira-mar usa o sistema all inclusive, ou seja, comida "a rodo", deveria reinar uma paz profunda na inquietude tribal da disputa alimentar.

Mesmo ali, ou talvez principalmente naquele lugar, a orgia das refeições desce ao nível paleolítico. Grita a fome, morre a polidez.

Expulsem a natureza pela porta, ela voltará fortalecida pela janela. É a nossa fome ancestral desde as cavernas.

E, para quem acha que sou um crítico do festim alheio, quero informar que minha primeira pergunta no lobby do hotel ao me registrar é: "A que horas começa o café da manhã?". Temos esperança de, um dia, civilizar o apetite infinito e vedar o buraco que a caverna abriu em nós?

Leandro Karnal, Historiador e filósofo. Escreve duas vezes por semana no jornal Diário da Região.

 
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