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Diário da Região

07/06/2015 - 00h00min

Entrevista

Rick Bonadio: o artista que ele toca vira ouro

Entrevista

Editoria de arte Rick Bonadio
Rick Bonadio

Quando o paulistano Ricardo Bonadio, 45 anos, entrou no mundo da música, seu sonho era ser cantor de rap. Talvez seja dele o primeiro álbum de rap lançado no Brasil. Com mais de 20 anos de carreira, ele se tornou um cara bem sucedido na música, mas não como rapper, nem como cantor de qualquer outro gênero. Rick Bonadio cravou seu nome na história da música brasileira como produtor de boa parte dos artistas e dos discos que fizeram sucesso na virada do século 21. 

Não é a toa que seu estúdio e sua gravadora na atualidade tenham o nome de Midas, pois Bonadio já fez muito ouro atuando nos bastidores de artistas dos mais diferentes estilos, do rock cristão ao sertanejo universitário, do emocore ao axé music. A oportunidade de uma entrevista com o "midas da música" surgiu em abril, depois que sua gravadora fechou contrato com a banda rio-pretense SZU, criada há sete anos pelos jovens Rafael Nogueira, Arthur Angelotte e Matheus Martins. 

"Eles são incrivelmente bons. As composições são muito bonitas. Eles são incrivelmente talentosos", declarou Bonadio sobre sua mais recente contratação da Midas. Com a segurança que só quem tem credibilidade e respeito no mundo da música pode passar, Bonadio falou sobre sua relação com as gravadoras, as motivações que o levam a produzir um artista ou disco e o que pensa dos concursos de música que proliferam na televisão e dos novos formatos de consumo da música.

Aos que o classificam como um produtor musical muito comercial, ele é bem direto: "Isso são elogios para mim". A busca pelo sucesso faz parte da sua vida profissional desde a primeira vez em que ele, ainda garoto, entrou em um estúdio de música. "Eu nunca trabalhei para ficar escondido. Eu sempre trabalhei para fazer sucesso", define-se.

Mamonas Assassinas Foi Rick Bonadio quem sugeriu a Dinho e aos outros integrantes dos Mamonas Assassinas combinar letras bem humoradas com diferentes gêneros musicais: “Eu ajudei a construir o conceito dos Mamonas.” Banda, que teve um fim trágico em acidente aéreo, foi um dos maiores sucessos do produtor

Diário da Região - Como a música entrou na sua vida? Você já viveu a música como artista?

Rick Bonadio - Eu comecei muito cedo a tocar. Eu tinha um tio que morava em minha casa e que tinha banda. Eu tinha, tipo, uns sete, oito anos de idade. E eles ensaiavam na lavanderia, pois, na época, não tinha garagem em casa. Eu ficava vendo a banda deles tocar; na época, era rock clássico, do Led Zeppelin, do Deep Purple... e eu, vendo aquilo, tinha sempre vontade de tocar. Esse meu tio tocava guitarra e tocava piano bem pra caramba, e a gente tinha piano em casa. 

Então, quando ele saía do piano eu ficava ali tentando tocar. Depois, eu fui ficando um pouco mais velho e comecei a tocar bateria, e o baterista da banda do meu tio faltava muito. Aí eu comecei a tocar bateria na banda, ir aos ensaios. Digo não tocar efetivamente na banda, mas nos ensaios. Depois disso, eu fui estudar piano erudito. Eu queria ser músico, estudei muitos anos. E minha vida sempre foi na música. Teve uma época só que eu trabalhei numa loja de peças de automóveis com o meu pai; eu tinha 12 anos e ele me levou para trabalhar, mas, paralelamente, eu tinha sempre a música comigo. 

Eu sempre fui da música. Com 16 anos eu queria gravar um disco de hip hop, de rap. Eu era DJ na época e me juntei com outro amigo que também era e a gente fez um disco pela extinta gravadora RGE, que era um subselo da Som Livre. E a gente gravou um disco naquela época. Foi o primeiro disco de rap do Brasil; ninguém nem sabia o que era rap. E foi na gravação desse disco que eu tive um contato mais próximo com o estúdio; e foi aí que eu decidi que queria trabalhar nisso. 
 
Diário - O que você costuma avaliar num artista antes de se tornar o produtor dele?

Bonadio - Tem duas coisas. Existem os discos em que eu, como produtor, sou contratado para produzir. E também pouco me importa o estilo do artista, porque eu sou um profissional da música. Eu sempre encarei o meu trabalho com muito profissionalismo. Se a gravadora me contratava para produzir um disco de forró, axé, sertanejo, rock, samba ou o que fosse, eu produziria. Principalmente pela experiência que tenho de estúdio. Eu comecei com um estúdio muito pequeno; eu alugava o estúdio. Então, aparecia muita gente independente para ser produzida; e eu produzia qualquer tipo de música. 

Então, na verdade, eu levo em consideração para produzir um artista, se eu for contratado, nada. Se for contratado, eu vou fazer o melhor possível o meu trabalho. Agora, se eu quero investir em um artista, eu levo em consideração o meu gosto pessoal. Se eu gostar da música que o cara está fazendo, eu vou investir, independentemente de qualquer estilo. Eu não tenho nenhuma preferência de estilo.
 
Diário - Como é hoje sua relação com as gravadoras? Elas dão muita opinião no seu trabalho?

Bonadio - Eu aprendi muito com diretores artísticos de gravadoras. Eu trabalhei em gravadora e já fui presidente de duas gravadoras no Brasil. Então, a minha experiência em gravadoras e com gravadoras sempre foi muito legal. Tinha, sim, essa coisa de dar opinião, de discutir, de trocar ideias com as pessoas de gravadoras. Mas o tempo foi passando e hoje a gente vive uma realidade diferente: as gravadoras não são mais centros artísticos. Elas são mais centros de marketing ou comercial. 

Hoje, a gravadora me procura mais pra direcionar a coisa. Inverteu um pouco esse papel. Mas isso é em função do mercado, não acontece só comigo, acontece com todos os produtores do Brasil. Poucos são os casos em que o produtor é dirigido pela gravadora. Sempre tem alguém investindo no artista, seja um empresário ou um investidor mesmo, e eu sou procurado para investir artisticamente naquele cara, para desenvolver a carreira ou o disco dele. 

Rick Bonadio e a Banda SZU Com a banda rio-pretense SZU, recém contratada pela sua produtora, a Midas: eles são muito bons

Diário - Você deve ser muito procurado por artistas que vislumbram no seu trabalho uma chance de projeção. Você recebe muito material? Costuma ouvir tudo o que recebe?

Bonadio - Eu recebo muita coisa e ouço tudo o que recebo. Por dia, eu recebo uns 50, 60 materiais. É muita coisa. Mas hoje a internet facilitou muito o trabalho. Você clica num link e já está ouvindo a música do cara. Mas ainda tem artista que me entrega o CD, o pen drive e tal.
 
Diário - Sua gravadora acaba de fechar com uma banda rio-pretense, a SZU. O que te motivou na escolha dessa banda?

Bonadio - O repertório deles. Eles são incrivelmente bons. As composições são muito bonitas. Eles são incrivelmente talentosos. Precisa apenas dar uma lapidada na forma dos arranjos, na forma de gravar. Precisa ajustar um pouco na direção artística, mas, do ponto de vista de conteúdo, eles já estão prontos e são muito bons. 
 
Diário - Você produziu o Mamonas Assassinas, um grupo que conquistou sucesso imediato e teve uma carreira precoce devido a uma tragédia. Se eles estivessem vivos, como você acha que estariam hoje na cena musical?

Bonadio - Eu acho muito difícil responder isso, porque já faz 20 anos. Na cena musical, não sei se eles estariam, mas, com certeza, estariam no meio artístico, porque todos eles eram muito talentosos. O Dinho, por exemplo, poderia ser um grande apresentador de televisão. Ele era um grande comunicador. Não sei como eles estariam na cena musical. É muito difícil pensar isso.
 
Diário - Como foi seu trabalho com os Mamonas?

Bonadio - Eu ajudei a construir o conceito dos Mamonas. Eles eram uma banda de rock que se chamava Utopia. Era uma banda que fazia músicas inspiradas no rock dos anos 80. E aí eu ouvi uma demo do Dinho cantando umas músicas engraçadas; e eu sugeri a eles que juntassem as duas coisas: que fizessem músicas engraçadas com rock e outros estilos. Eu ajudei a desenvolver os arranjos porque, na época, eu tinha uma boa experiência com uma diversidade de gêneros. Eu fazia samba, forró, sertanejo... e você pode ver todos esses arranjos presentes no disco dos Mamonas. Coisa que eu faço até hoje, na verdade.
 
Diário - Há alguma banda ou artista da atualidade que você gostaria de ter produzido?

Bonadio - Eu gostaria de ter produzido o Eminem. O Eminem é genial para mim.
 
Diário - Gostaria de saber sua opinião sobre o streaming de música. Você consome música nesse formato?

Bonadio - Eu acho legal. Todo formato novo será sempre bem vindo, porque, agora, não importa mais o formato, o que importa é o conteúdo. Não importa se você ouve streaming, se você compra música por download no iTunes, isso não importa mais. O fundamental é que o artista e a gravadora tenham um bom conteúdo. Não faz o menor sentido você ficar discutindo a questão dos formatos. 
 
Diário - O que você acha dos críticos de música? Já perdeu o sono por causa da opinião de algum deles?

Bonadio - Nunca perdi o sono. Tem muitos críticos no Brasil que entendem e sabem o que estão falando, mas a grande maioria não sabe o que está falando e não tem vivência na música para poder opinar. E também tem uma coisa muito louca que está acontecendo hoje: todo brasileiro é um crítico musical. O cara entra no Youtube, vê a música que você produziu e já coloca a opinião dele. Na verdade, todo mundo quer ser crítico musical e técnico de futebol (risos). E, na verdade, ninguém é. Agora, estão querendo ser comentarista político também. A gente não entende disso. É melhor cada um ficar na sua.
 
Diário - Já que você começou sua carreira cantando rap, você curte esse tipo de som atualmente?

Bonadio - Ouço muito rap. O que mais ouço é rap. Eu gosto do Cone Crew, do Emicida, dos Racionais... Eu gosto de tanta gente nova. Eu gosto muito dos artistas do rap brasileiro.
 
Diário - Você já foi jurado de concursos de música na televisão e, hoje, esses programas são muito criticados pelas escolhas dos seus jurados. O que você pensa sobre isso?

Bonadio - O que existe é o seguinte: esses programas são feitos muito mais para dar audiência do que para serem coerentes com o universo da música. Eles colocam no júri os artistas que vão chamar público, que têm fãs, que falam bem, que têm o dom da comunicação. Nem sempre um produtor é um cara que se comunica bem. Poucos conseguem fazer isso. O que acaba acontecendo é que o público fica insatisfeito porque gostaria de ter uma opinião mais técnica e mais sincera. 

O artista não pode ser sincero. Se ele achar uma merda, ele não vai poder destruir o cara na televisão. Se ele achar incrível, também não pode enaltecer tanto porque, no final das contas, o cara é concorrente dele. Eu acho até antiético um artista julgar outro artista. O artista tem sempre um diretor artístico, um produtor ou um empresário que cuida da carreira dele a vida inteira. 

Então, como ele vai julgar um outro artista se ele nunca foi o cara que mandou, ele nunca foi o cara que decidiu? Ele pode dar uma opinião, o que basicamente esses jurados do "The Voice" e do "Superstar" fazem. Eles dão opinião. É uma coisa, assim, um pouco pesada, mas porque, voltando ao início da minha resposta, esses programas são feitos para dar audiência e não coerência musical. Se a pessoa não está gostando, é só não assistir.
 
Diário - Você já foi muito taxado de produzir coisas muito comerciais. O que acha disso?

Bonadio - Isso é elogio para mim. Quanto mais comerciais as coisas que eu produzir e quanto mais elas fizerem sucesso, melhor pra mim. Acho bom, muito bom. Isso nunca me incomodou. Eu trabalho realmente dessa forma. A pessoa que me criticar dizendo isso eu vou dizer que está certo, eu faço coisas comerciais mesmo. Eu não gosto das coisas alternativas. Eu prefiro as que vendem. Eu sou sincero para falar isso. Quando eu comecei o meu trabalho, eu precisava viver de música. 

Eu precisava que as coisas dessem certo, fizessem sucesso para que eu tivesse dinheiro para crescer o meu estúdio, comprar mais equipamentos, produzir outros artistas. Eu nunca trabalhei para ficar escondido. Eu sempre trabalhei para fazer sucesso. Então, não vejo nada de mal nisso, vejo com muita naturalidade. Se isso parece uma crítica, fica mais para a pessoa que falou, porque, pra mim, soa como uma constatação natural.

Sucessos do 'midas'

Atchim e espirro

  • Álbum: Atchim e Espirro - 1988 (RGE)
  • Disco de Ouro 100k

Banda Placa Luminosa

  • Álbum: Fica Comigo - 1988 (RGE)
  • Disco de Ouro 100k

Mamonas Assassinas

  • Álbum: Mamonas Assassinas - 1995 (EMI)
  • Disco de Diamante (2,5 milhões)

Baba Cósmica

  • Álbum: Gororoba - 1995 (Natasha)
  • Disco de Ouro 100k

Charlie Brown Jr.

  • Álbum: Transpiração Contínua Prolongada - 1997 (Virgin)
  • Disco Dupla de Platina 500k
  • Álbum: Preço Curto Prazo Longo - 1999 (Virgin)
  • Disco duplo de Platina 550k
  • Álbum: Tamo aí na Atividade - 2004 (EMI)
  • Disco de Platina 300k

O Surto

  • Álbum: O Surto - 1997 (Virgin)
  • Disco de Ouro 100k

Deborah Blando

  • Álbum: Unicamente - 1997
  • Disco de Ouro 100k

Moraes Moreira

  • Álbum: 50 Carnavais - 1997
  • Disco de Ouro 100k

Ultraje a rigor

  • Álbum: 18 Anos Sem Tirar - 1999 (Abril)
  • Disco de Ouro 100k

Los Hermanos

  • Álbum: Los Hermanos - 1999 (Abril)
  • Disco de Platina 250k

Pepê e Neném

  • Álbum: Pepê e Neném - 1999 (Virgin)
  • Disco de Ouro 100k

Art Popular

  • Álbum: Acústico MTV - 1999 (EMI)
  • Disco de Ouro 180k

Tihuana

  • Álbum: Ilegal - 2000 (Virgin)
  • Disco de Ouro 130k

CPM22

  • Álbum: CPM22 - 2001 (Arsenal)
  • Disco de Ouro 150k

Planta e raiz

  • Álbum: Este é o Rémedio - 2002 (Arsenal)
  • Disco de Ouro 40k

BR'OZ

  • Álbum: BR'oz - 2003 (Sony)
  • Disco de Plantina 250k

Rouge

  • Álbum: Blá, Blá, Blá - 2003 (Sony)
  • Disco de Platina 350k
  • Álbum: C'est la Vie - 2003 (Sony)
  • Disco de Platina 250k

IRA!

  • Álbum: Acústico MTV (Sony)
  • Disco de Platina 80k

NX Zero

  • Álbum: NX Zero - 2006
  • Disco de Platina
  • DVD: 62 mil horas - 2008
  • Disco de Ouro
  • DVD: Sete Chaves
  • Registro Multishow - 2010
  • Disco de Ouro

Fresno

  • Álbum: Redenção - 2008
  • Disco de Ouro

Titãs

  • Álbum: Sacos Plásticos - 2009
  • Grammy de melhor

 

 


 

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