Com trama do século 19, série 'Anne With An E' conquista fãsCom trama do século 19, série 'Anne With An E' conquista fãs

SÉRIE

Com trama do século 19, série 'Anne With An E' conquista fãs

Com três temporadas e sem final oficial, 'Anne With An E' foi cancelada e deixou os fãs frustrados. Petição na internet pede a volta da amada produção canadense


Gabriella Fonseca é fã 
de carteirinha da série
Gabriella Fonseca é fã de carteirinha da série - Johnny Torres 18/6/2020

Com apenas três temporadas, a série "Anne With An E" conquistou rapidamente o público e acumulou milhares fãs ao redor do mundo, inclusive em Rio Preto. A trama, que acompanha a jovem órfã em Green Gables, é baseada em uma série de livros escrita por Lucy Maud Montgomery, em 1908. Apesar de escrita no século 19, a história da órfã corajosa, romântica e determinada Anne Shirley é atualíssima e fala sobre relações humanas, adoção e protagonismo feminino.

Apesar de cancelada pela Netflix, a história, para a alegria e contento dos fãs, tem final surpreendente nos livros. Com seus cabelos ruivos, Anne viveu muitas aventuras até a vida adulta. Diferente da série, que encerrou a história da menina encantadora no momento em que entra na Queen's College, por meio dos livros é possível companhar a trajetória da protagonista até a fase adulta, inclusive quando ela realiza seu grande sonho: ser professora.

Entre drama, muita poesia e um belo cenário, a série conquistou os fãs pelo coração e pela razão. Muitos, após o cancelamento, ficaram decepcionados com o encerramento da narrativa e movimentaram as redes sociais com a #SaveAnneWithAnnE para reivindicar por uma quarta temporada. Na última semana, uma nova petição, que já pode ser considerada a maior da história das séries, pede pela sua continuidade. A petição reuniu mais de 700 mil assinaturas e gerou milhares comentários no Twitter.

A nutricionista Gabriella Fonseca, 22 anos, é uma destas pessoas. Até hoje, ela comenta em todas as publicações da Netflix e pede para que eles continuem a história. "Quando terminei a série, eu senti um vazio imenso. Faz meses que acabei e ainda sinto que nenhuma outra série me completa como esta. Queria continuação, pois eu gostaria de apreciar o crescimento de cada um dos personagens, os futuros romances. Na minha opinião, tem muitos personagens que não tiveram um final. Alguns assuntos estão incompletos."

Fã de carteirinha, a nutricionista conta que a produção a encantou pela doçura e pureza. "Os personagens e as paisagens me cativaram de uma forma diferente de todas as outras séries que vi, prendendo toda a minha atenção. O que mais me surpreendeu é como essa série me trouxe o que realmente importa, sem precisar apelar para cenas de violência, traição, drogas e sexo."

A personagem Anne mostra que as meninas podem fazer o que quiserem, que a beleza está por toda parte e que a amizade vence os preconceitos. "Ela mostrou o quanto a simplicidade tem poder. E ela, uma garota totalmente diferente das outras crianças, chegou sendo muito julgada por todos por ser diferente. E não precisou mudar seu jeito ou sua personalidade para conquistar a todos. Uma criança falante e sonhadora, que via a beleza das coisas mais simples. E ela me ensinou que a felicidade e o amor são coisas simples. No simples, encontramos o que há de mais belo. Foi encantador o quanto ela revolucionou a todos da cidade, tratando do feminismo de uma forma tão justa e tão leve", afirma Gabriella Fonseca.

A auxiliar de escola infantil Débora Rosseto de Paula, de 26 anos, também foi conquistada por Anne. "Primeiro de tudo, o que mais me encantou na série foi o cenário e os figurinos. Depois me apaixonei pela Anne, pela atuação perfeita da atriz e claro toda a história da personagem." Para a rio-pretense, a Netflix tem que voltar atrás na decisão e fazer uma continuação. "A Anne sempre quis conquistar o mundo e ser lembrada por suas histórias, nada mais justo do que mostrar isso pra nós.

Comportamento

O psicólogo Alexandre Felipe de Oliveira afirma que a série chama a atenção porque há uma identificação do telespectador com a personagem principal, Anne com "E", que vê o mundo e elabora a sua vida (com fantasias, sonhos e perspectivas) através da superação constante, a fim de ressignificar suas dores, rejeições e traumas, tão presentes na vida de cada um de nós.

Para o especialista em comportamento, a série, que foi produzida pela Netflix, pela produtora canadense CBC Television, tem uma história bem contemporânea e progressista. "A série aborda temas que sempre foram tabus e que atualmente estão em destaque na sociedade, como bullyng, feminismo, diversidade, racismo, preconceito, liberdade de expressão; entre outros; levando ao exercício da reflexão e da autoanálise sobre as crenças pessoais."

Um outro ponto importante que a série nos mostra, segundo Oliveira, é quando traz à tona a importância dos primeiros anos de vida de uma criança como algo fundamental para a construção da sua identidade enquanto sujeito e de como traumas ocorridos na infância podem influenciar na vida dos adolescentes e adultos. "Como no caso de Anne, que tem o medo, a necessidade de aceitação e as lembranças perturbadoras como reflexos do seu histórico existencial."

O cancelamento da 4° temporada da série, segundo Oliveira, causa um desconforto no seu público pois rompe a estrutura de vínculo criada no decorrer de cada episódio, em que foi provocado e compartilhado vários tipos de emoções e experiências significantes, o que faz com que se tenha dificuldade em lidar com o fim dessa trajetória.

A psicóloga Vanilda L. Souza Tanios, que coordena o projeto "Incontros", que são rodas de conversas que reúnem psicologia, arte, cultura, ciência e filosofia para promover o bem-estar físico e mental, afirma que "Anne With an E" é muito atual em sua narrativa e aborda temas sociais importantes. Para ela, assistir séries como está é importante porque o contato com a arte e

leva as pessoas a conhecerem mais o humano. "E conhecendo mais o humano, nos autoconhecemos. Assim, percorremos esta série que tão intensamente nos remete ao olhar para a família, gênero, raça, classe, preconceito, bullying, adoção, resiliência, infância, enfim, a sociedade."

A psicóloga afirma que Anne, mesmo depois de ficar órfã aos três meses, passar por vários orfanatos, ser entregue a famílias ainda criança para a exploração do trabalho infantil, ser exposta a maus tratos e abusos físico e psíquico, apresenta a paixão pelos livros como uma sobrevivência e enriquecimento da criatividade e inteligência. A conquista de uma família tão desejada por Anne também merece destaque na trama, que emociona ao abordar questões como aconchego, proteção e aprendizado que envolve a família e transmissão de valores e princípios. "Hoje, vivendo as mudanças decorrentes da pandemia mundial, a família também precisou se rever e administrar novos ritmos. Aí nos deparamos com Anne, com sede de amor, de convívio, de proteção, de troca. Sim, de troca, pois ela tem muito a oferecer com a riqueza adquirida nos livros, somada à sua sensibilidade, inteligência e sinceridade. Uma série para ser degustada em família."

Anne também apresenta a dor do enfrentamento ao bullying e à rejeição, ao mesmo tempo em que ensina que toda criança tem direito e precisa de adultos presentes, amorosos e inclusivos para direcioná-las. "Na série, as mães progressistas apresentam claramente a incoerência ao que propunham quando inicialmente discriminaram Anne e sua mãe, tal como as crianças, suas filhas estavam repetindo. Que sociedade desejamos?", questiona Vanilda.

Divulgação

Cada post da Netflix vira motivo para o movimento de fãs pedir a renovação do seriado para 4ª temporada. O ator e fotógrafo Eder Carvalho é um deles. " Gostaria que tivesse uma continuação nesta fase em que a Anne e sua turma estão na faculdade. Embora a Anne tenha enfrentado tantos problemas sérios em sua curta vida, agora, mais madura, enfrentaria as dificuldades da vida adulta. Então, seria interessante vê-la numa outra fase e mais 'empoderada' do que nunca. E também curioso para ver as mulheres ganhando mais espaço na sociedade no começo do século passado."

Além de se encantar pela história da órfã tão sonhadora, Eder Carvalho afirma que a personagem tem um olhar diferenciado sobre o mundo e toma decisões emocionais que o fez se identificar com ela. "Também fui rendido pela fotografia incrível e paisagens de encher os olhos. Além, claro, de um roteiro envolvente. Difícil encontrar uma série tão rica em vários elementos e ao mesmo tempo com cenas leves que servem para todas as idades. 'Anne with na E' possui todas essas características."

A personagem Anne mostra que as meninas podem fazer o que quiserem. Eder Carvalho afirma que ele, na condição de homem, ficou envergonhado ao saber que o livro, que baseou a série, foi escrito no começo do século passado e pouco se mudou em relação a equidade entre homens e mulheres. "A série me ensinou que, embora nos tempos atuais há uma constante luta pelos direitos das mulheres, essa luta necessita ainda mais compreensão de nós homens. Além de ensinar, me abasteceu de uma enorme vontade em colaborar na luta de nenhum direito a menos para as mulheres. Já para ter os olhos sensíveis da Anne, em enxergar beleza em tudo, é um treino diário que adquiri e já vejo uma mudança positiva em mim."

Daniel Garcia Rodrigues, escritor e professor, doutor em teoria da literatura, conta que a princípio relutou para assistir a série por não gostar de produções consideradas açucaradas. Após se render a recomendação de uma sobrinha, ele parou três vezes o terceiro capítulo por chorar muito. "A série é comovente ao contar a história de uma menina órfã, adotada por fazendeiros, que é extremamente criativa e tagarela. A produção conquista pela beleza das imagens e pela excelente atuação dos atores, principalmente Amybeth McNulty, que vive a Anne."

Segundo Rodrigues, a série tem uma clara influência da escritora inglesa Charlotte Brontë, autora de "Jane Eyre", que inclusive é uma obra muito citada por Anne na série. "Ela é uma mocinha revolucionária, de bem com a vida, que questiona todos os valores de uma comunidade conservadora e preconceituosa. O livro tem uma coisa feminista, interesse pela libertação da mulher, pelas questões de preconceito, racismo, posição dos negros numa sociedade extremamente branca, heteronormativa."

Para Rodrigues, "Anne With An E" é uma série bem feita. "Depois que consegui parar de chorar no terceiro capítulo, eu assisti até o final com prazer e alegria. É uma série que descansa a gente diante de tanta produção distópica sobre gente psicopata. A ficção cinematográfica e as séries contemporâneas valorizam a mente criminosa e, particularmente, estou cansada disto. Apesar de ser melosa e açucarada, a série é gostosa de ver ao mostrar um ser humano interessante e com um olhar encantador pelo mundo. Dá um conforto."