SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | DOMINGO, 16 DE JANEIRO DE 2022
POESIA

Marival Correa e a química da palavra em 'Dois Passos de Degrau'

Repórter do Diário da Região se lança como poeta com a publicação de seu primeiro livro digital pela plataforma Kindle

Harlen Felix
Publicado em 22/05/2021 às 00:30Atualizado em 05/06/2021 às 23:34
Marival Correa compartilha seus poemas em 'Dois Passos de Degrau' (Johnny Torres 21/5/2021)

Marival Correa compartilha seus poemas em 'Dois Passos de Degrau' (Johnny Torres 21/5/2021)

Para o jornalista Marival Correa - que integra a equipe do Diário da Região, em que assina, aos domingos, uma coluna de crônicas -, o poeta, assim como um cientista, tem a palavra como substância química, criando fórmulas para extrair dela as expressões do humano e sua permanente busca pelo seu melhor. "É testar a palavra ao limite, desvendando texturas e descobrindo gatilhos que despertam lembranças e inquietações naqueles que a leem. Inquietude, sim, pois a palavra poética tem esse poder e essa função de provocar, de inquietar", reflete ele, que acaba de compartilhar com leitores e leitoras algumas das criações de seu laboratório poético por meio do livro digital "Dois Passos de Degrau", à venda para a plataforma Kindle no site da Amazon .

Jornalista há mais de 29 anos, Correa traz um verniz literário na identidade de seus textos, reflexo da afinidade que tem com esse universo desde a infância na vizinha Urupês, sua cidade natal, onde, estimulado pelos constantes livros que ganhava das irmãs mais velhas e dos filmes que podia assistir da cabine de projeção do cinema mantido pelo pai, descobriu a palavra como ofício. No entanto, a persona literária do repórter de impresso - sempre comprometido em relatar fatos com precisão, objetividade e sem muitas adjetivações - se estabeleceu publicamente com o lançamento de "Crônicas de Marival", coluna pela qual ele publica, aos domingos, textos que revelam a química extraída da fusão entre jornalismo e literatura.

Foi a partir da coluna, que completará um ano em julho, que Correa teve contato com aquele que seria seu maior incentivador na publicação de suas poesias, o jornalista, professor e escritor catarinense Nelson Valente. "Quando estava produzindo a crônica sobre Branca Alves de Lima [criadora da cartilha 'Caminho Suave'], entrei em contato com ele porque vi, pela internet, um texto recente seu sobre a educadora [patronesse da educação brasileira]. Ele leu a crônica depois e me respondeu, e daí nasceu uma amizade. Compartilhei alguns de meus poemas e ele enxergou potencial, me apoiando a arregaçar as mangas e me lançar como poeta", conta.

Desvencilhando-se das amarras do texto jornalístico, Correa, o poeta, extrai da palavra as essências que podem dar a ela inúmeros sentidos, revelando a metáfora como janela para a subjetividade. "No meu livro, há palavras que ficam evidentes. 'Casa' é uma delas. É uma palavra que te oferece metáforas gigantescas. Não é só um espaço físico. É a alma, o coração, é a gente mesmo...", diz ele. "E 'casa' ganhou outros sentidos com a pandemia. Pode ser esse lugar de confinamento, de aprisionamento. A poesia, por meio da metáfora, abre um leque de infinitas possibilidades para o uso da palavra", completa.

O lançamento oficial de "Dois Passos de Degrau" será neste domingo, às 15h, em live no Instagram do jornalista e poeta ( @marivalsergiocorrea ). Na oportunidade, ele declamará três poemas do livro ao lado da filha, Tainá. 

Por enquanto, "Dois Passos de Degrau" tem versão apenas digital, mas Correa já prepara o lançamento de seu primeiro livro impresso, que celebrará o primeiro ano de sua coluna de crônicas no Diário da Região.

deguste

A alma é uma casa que anda

a alma é uma casa com telhado;

a alma é uma casa emparedada;

a alma é uma casa pré-fabricada

com criado-mudo, com cerca elétrica e com o porta-retrato de um sorriso congelado no tempo

a alma é uma casa com janelas à espera de um sol

a alma é uma casa à espera de uma lua

a alma é casa dependurada numa nuvem

é uma casa fechada por dentro, sem cheiro de bolinho de chuva, sem a chave perdida na rua.

a alma é uma casa que anda

a alma é um lar invisível de muitas outras almas

e a casa é o retrato que se tira quando estamos sozinhos

é aquele espelho quebrado, aquela fotografia que nem sabemos onde colocamos

é a luz que não acende, o chuveiro que pifa

a casa é a poeira dos móveis

é solidão encrustada na gordura da cozinha.

a casa é uma alma emparedada

é a cerca elétrica que nos prende e que nos isola

e enquanto ficamos debaixo de chuva, na rua

à procura da chave perdida

descobrimos que a casa é apenas aquilo que somos

sem planta ou projeto, sem uma varanda larga, sem risos ou testemunhas

a casa é apenas uma alma que anda

Poema do livro 'Dois Passos de Degrau', de Marival Correa

 
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