Livro apresenta a analítica 'quare', sobre gênero e sexualidade

COMO LER O HUMANO

Livro apresenta a analítica 'quare', sobre gênero e sexualidade

Luís Fernando de Morais, de Rio Preto, apresenta no livro 'Analítica Quare' um novo modelo de análise de gênero e sexualidade que abarca questões como raça e condição social


O poeta e pesquisador Luís Fernando de Morais, autor de 'Analítica quare: como ler o humano'
O poeta e pesquisador Luís Fernando de Morais, autor de 'Analítica quare: como ler o humano' - Luís Antônio de Souza/Divulgação

A analítica queer, também chamada de teoria queer, é uma vertente dos estudos relacionados ao gênero que considera a orientação e a identidade sexual das pessoas como uma "construção social", ou seja, não há papéis sexuais essencial ou biologicamente inscritos na natureza humana que sejam independentes das variáveis sociais presentes nas mais diversas culturas. No entanto, inúmeras dessas variáveis sociais não são abarcadas por essa analítica, sobretudo aquelas que estão relacionadas à raça e à classe social. E são justamente esses aspectos que são levados em consideração pela analítica quare, que tem como referencial o professor E. Patrick Johnson, reitor da Escola de Comunicação da Northwestern University (EUA), e seu ensaio "'Quare' studies, or (almost) everything I know about queer studies I learned from my grandmother" (Estudos "quare" ou [quase] tudo o que sei sobre estudos queer aprendi com minha avó).

Esse novo modelo de análise que permite ler o humano em suas diferentes conformações é apresentado pelo professor, tradutor, poeta e pesquisador da área literária Fernando Luís de Morais, de Rio Preto, no livro "Analítica quare: como ler o humano" (Editora Devires). A publicação é um desdobramento da dissertação de mestrado defendida pelo autor no Ibilce/Unesp em fevereiro de 2019. Nela, ele investiga as representações das identidades negras-gay na obra do poeta Thomas Grimes, que apresenta uma diversidade de temas para uma análise quare: as identidades raciais/étnicas e de orientação sexual; o orgulho da raça e do gênero; as consequências devastadoras da reprodução da violência; o drama da aids; o despertar do desejo, do amor e da afeição; e o sentimento de não-pertença.

Segundo Morais, Grimes propõe uma poesia subversiva que atua como agente de transformação social, dando, ao mesmo tempo, visibilidade aos negros gays e denunciando a estrutura despótica dos sistemas absolutos a serem rechaçados. "Ao penetrar esse universo poético de discursos de resistência capazes de promover desestabilizações, procurei evidenciar como o discurso literário pode ser compreendido como expediente político poderoso e energético, fomentador de um contínuo desafio contra a homofobia negra/branca e o racismo hétero/gay", explica o poeta e pesquisador, que publica seus poemas na revista "Bem-Estar", do Diário da Região.

Para ele, definir queer e quare é um "empreendimento árduo", pois, "tomados como categorias elásticas, são tão abertas, que a própria tentativa de definição converte-se em esforço quase contraproducente ou fracassado." No entanto, ele contextualiza: "O pensamento queer está quase exclusivamente voltado aos propósitos dos sujeitos hegemônicos [a saber homens cis, brancos, de classe média/alta], sempre levando em consideração uma conformação discursiva e identitária pretensamente universal. A analítica quare, por sua vez, empreende uma ajustagem de foco ao prover uma maneira de criticar noções estáveis de identidade e, ao mesmo tempo, situar o conhecimento de raça e de classe. Recorrendo a uma releitura de queer, quare ressalta os meios que possibilitam lésbicas, bissexuais, gays e transgêneros alcançar conhecimento sexual e racial, além de demandar uma conjunção da práxis acadêmica com a práxis política. A analítica quare pode ser empregada em diferentes contextos. Dentro dos limites de minha pesquisa, utilizo-a como uma exegese literária para ler/teorizar corpos negros dissidentes. Apesar dessa aplicação bastante particular, evidentemente não descarto as potencialidades múltiplas propiciadas por esse novo terreno do conhecimento."

Moraes explica que "Analítica quare" é um recorte de sua dissertação de mestrado. "No livro, meu foco foi mais específico e pontual, incidindo no sentido de explicar as potencialidades e negligências do queer, apresentar a analítica quare, operacionalizá-la, bem como disponibilizar minha tradução do ensaio de  E. Patrick Johnson", conta.

Heteronormatividade

O poeta e pesquisador ainda destaca que os discursos heteronormativos historicamente predominantes na sociedade – aqueles nos quais se evidenciam expectativas, exigências e imposições sociais acarretadas a partir da admissão da heterossexualidade como única forma natural e, por isto, autêntica de sexualidade – são tão incessantemente replicados, a ponto de imprimir à cis-heterossexualidade um status de compulsoriedade. "Esses discursos ilegítimos mas potentes atingem até mesmo a comunidade LGBTTQIA+. Além disso, há o bombardeamento dos discursos da branquidade – aqueles que tomam a brancura como condição ideal de ser humano, constrangendo sujeitos racializados a um recinto de subalternidade", pontua.

"É nesse sentido que os estudos quare, assim como a predisposição política da poética de Grimes, e minhas formulações teóricas incitam-nos à prática, à ação, à luta pelo desmantelamento de hierarquias e de estruturas institucionais opressivas e o implemento de um novo cenário mais democrático e humano. É esse horizonte antagônico descortinado que possibilita um vislumbre da beleza não apenas de existir, mas de ser, de ser respeitado, e, portanto, de ter seu lugar no mundo", enfatiza Morais.

Para Morais, a oportunidade de ter um livro publicado – "ainda mais quando aborda assuntos que me são caros e diretamente ligados às minhas vivências e experiências como sujeito genderizado e racializado" – é a expressão de uma conquista não só como pesquisador no campo científico, mas enquanto ser humano. "Como pesquisador da grande área das ciências humanas, sempre ponderei sobre o desenvolvimento de um trabalho que provocasse os indivíduos, levando-os a pensar, a refletir criticamente sobre suas ações, sobre a sociedade, sobre o momento histórico e, de forma geral, sobre o mundo. Julgo ser essa a grande missão das ciências humanas, infelizmente uma das áreas mais desprestigiadas e negligenciadas do ensino superior brasileiro."

Com capa assinada pelo artista Paul Richmond, "Analítica quare" se encontra em pré-venda no site da livraria Queer Livros (www.queerlivros.com.br) pelo valor promocional de R$ 35.