Fabiana Cozza está plena em seu canto no disco 'Dos Santos'

MÚSICA

Fabiana Cozza está plena em seu canto no disco 'Dos Santos'

Em seu oitavo disco, Fabiana Cozza reverencia o legado cultural das religiões de matrizes africanas com uma formação musical enxuta que dá espaço ao canto


Fabiana Cozza contempla a diversidade da religiosidade africana em 'Dos Santos'
Fabiana Cozza contempla a diversidade da religiosidade africana em 'Dos Santos' - José de Holanda/Divulgação

Uma das grandes intérpretes da música popular brasileira na atualidade, Fabiana Cozza se mostra plena em seu canto em "Dos Santos", seu mais recente disco, fruto da parceria com o músico e produtor Fi Maróstica. Nas 19 canções que dão vida ao álbum, ela reverencia o legado cultural das religiões de matrizes africanas, mas sem reduzir essa riqueza ao mero folclore. Pelo contrário, ela valoriza a oralidade inerente aos povos africanos ao optar por uma formação musical enxuta, que dá espaço ao canto, a poesia e, sobretudo, ao silêncio. 

"Há algum tempo tenho me deliciado com uma formação musical mais enxuta e com arranjos menos herméticos para que a voz possa passear mais livre, sem tantas convenções. Dessa forma, consigo verbalizar melhor a palavra poética mais livremente e ter tempo de respiração na canção, explorando os silêncios que permitem decantar ideias, pensamento. O silêncio amplia a nossa expressão, atiça a expressividade", comenta a cantora em entrevista ao Diário da Região

O novo disco de Fabiana, cujo título é seu sobrenome real, revela a preocupação da artista em dialogar, senão com a totalidade de manifestações afrorreligiosas, com uma parte dessa diversidade de segmentos. Isso se evidencia ao cantar orixás, nkisis, vodus, caboclos e a própria Nossa Senhora Aparecida. E é justamente esse aspecto diverso que carrega a riqueza de "Dos Santos". 

"'Dos Santos' é uma rede de tensões, de forças que movem a vida. O candomblé possui uma cosmogonia inspirada em forças naturais, plurais, que regem a vida em comunhão. A vida me parece feita de tecidos regidos por intensidades distintas, por relações que criamos com os nossos semelhantes, com o ambiente. Acho 'Dos Santos' um álbum convidativo àqueles que não professam religiões de matriz afro-brasileira, um chamado a apreciarem e despertarem interesse por essa cultura negra ancestral, profunda, que respeita os ensinamentos dos mais velhos. É também meu manifesto poético antirracista num tempo dominado por um projeto político fundamentalista que se espalha no Brasil [e no mundo]", reforça Fabiana. 

Segundo ela, seu novo disco é "o Brasil que me forja, minha 'pátria mãe gentil', o terreiro que adoro pisar porque é pulsão de vida, é diverso, é de paz, amoroso, dos tambores, das cores, dos amores, dos mitos e rezas, da conexão profunda e respeitosa com a natureza".

Sobre a musicalidade do álbum, pautada pela voz, pelos tambores e pelo contrabaixo, Fabiana destaca o trabalho desenvolvido com Maróstica, que assina como arranjado, diretor musical e baixista. "Ele [Fi Maróstica] foi imprescindível para chegarmos ao resultado final. Discutíamos tudo devagar, fizemos com tempo para sentir e descobrir as texturas, conversar sobre a natureza das canções, as letras, as ambientações às quais gostaríamos de apresentá-las. Desde o início decidimos fazer de uma estrutura 'mínima' uma potência", conta. "A proposta do álbum não é retratar um xirê [cerimônia do candomblé onde os orixás são celebrados]. Por isso, tivemos liberdade para celebrar alguns encantados da Umbanda e da Jurema Sagrada, bem como, orixás da cultura Jêje-Nagô e yorubá no candomblé", acrescenta. 

Nascida em São Paulo, Fabiana deixou o jornalismo na primeira década dos anos 2000 para se dedicar ao canto. Estrelou inúmeros espetáculos musicais no teatro e mergulhou fundo na cultura popular de norte a sul do Brasil. Já foi aclamada duas vezes no Prêmio da Música Brasileira, em 2012, como melhor intérprete de samba, e em 2018, com o álbum "Ay, Amor!". 

"Dos Santos" é o seu oitavo disco. E com ele Fabiana se posiciona mais uma vez de forma potente (e poética) como mulher, negra e artista.