Cômodos de uma casa servem de espaço de criação para dramaturgos de Rio Preto

DRAMATURGIA

Cômodos de uma casa servem de espaço de criação para dramaturgos de Rio Preto

Os cômodos de uma casa servem de cenário para dramaturgos de Rio Preto escreverem pequenas peças teatrais em projeto idealizado pelo Sesc para o ambiente online


Em 'Dramaturgias do Habitat', cada cômodo da casa traz uma pequena peça de teatro: textos estão disponíveis no site do Sesc
Em 'Dramaturgias do Habitat', cada cômodo da casa traz uma pequena peça de teatro: textos estão disponíveis no site do Sesc - Reprodução

Refúgio dos tempos de pandemia, a casa é, para muitos, o único cenário possível para estar seguro. E ela se tornou também o espaço de criação e o palco para muitos artistas, que, diante da impossibilidade de encontros físicos, estão tendo de se reinventar para continuar conectados com o público. A casa é o cenário de uma das ações da programação online do Sesc Rio Preto voltada ao teatro, que deixou de ser reverenciado neste mês como acontecia há quase 50 anos com o cancelamento do festival internacional (FIT).

Intitulado "Dramaturgias do Habitat", a iniciativa lança luz ao texto teatral, uma literatura que, de certa forma, é marginalizada nos hábitos de leitura de muitas pessoas. O Sesc convidou cinco artistas da cidade que se relacionam com a dramaturgia para compor pequenas peças de teatro a partir dos cômodos que compõem uma casa. Cada dramaturgo recebeu um cômodo e criou seu texto a partir dele, em um processo de criação que tinha a liberdade de não se prender ao momento de confinamento da atualidade. 

"A escolha da casa como ambiente para essas peças veio por causa da pandemia, pois é ela que traz hoje esse sentido de segurança, de refúgio. Mas o teatro é o lugar do inesperado, e ao conceber dramaturgias para os espaços de uma casa, esses autores estarão contribuindo para ressignificá-los. Nessa dramaturgia, o cômodo da casa é tão potente que acaba se tornando um personagem da narrativa", comenta Mateus Santos, programador do Sesc Rio Preto.

As peças estão sendo publicadas em série. Já é possível ler três delas na plataforma do "Dramaturgias do Habitat": "Cozinha Planejada", de Homero Ferreira, que, como o nome diz, contempla a cozinha; "Jogo de Cena", de Tiago Mariusso, relacionada ao corredor; e "[IN]cômodo", de Isaac Ruy, ambientada no quarto. Também serão publicados textos de Tauã Teixeira (banheiro) e Simone Sallas (sala).

Para Mariusso, a proposta do Sesc foi bastante provocadora, principalmente por ter de criar em um curto de espaço de tempo uma peça que se passa em um espaço da casa que não é palco de nada, apenas um lugar de passagem: o corredor. "Claro que foi um desafio gostoso, prazeroso, até porque não tinha a necessidade de estar relacionado à pandemia. Foi uma forma de podar dar um respiro nesse momento", conta ele, que recorreu à metalinguagem para criar um "jogo de cena" que reflete sobre a comunicação humana em um mundo altamente tecnológico. 

Para Ferreira, que escreveu para o ambiente da cozinha, a iniciativa do Sesc é positiva por valorizar o texto teatral, possibilitando que as pessoas se habituem com esse tipo de literatura. "Esse texto, enquanto está no papel, é uma peça de literatura, que se torna teatro quando vai ao palco. Mesmo as pessoas que vão ao teatro não estão habitadas a ler peças teatrais. É bom educar nesse sentido", diz ele.

Autor de várias peças teatrais, Ruy também destaca a valorização da dramaturgia na ação online do Sesc. "Os textos de teatro acabam restritos aos artistas que trabalham com teatro. Quem não é do teatro e lê, acaba tendo contato apenas com clássicos. O autor contemporâneo não chega a essas pessoas. Esse projeto do Sesc é uma possibilidade dessa literatura chegar a um outro público", opina ele, que concebeu uma peça a partir do quarto.

Já o texto escrito por Teixeira, que tem como cenário o espaço do banheiro, ganhará uma montagem em formato online, que será apresentada em agosto no FestFIM - Festival de Artes do Fim do Mundo. Questões sanitárias, meio ambiente e existência humana temperam uma ação que envolve 10 personagens, que refletem sobre aquilo que é essencial diante do mínimo após catástrofes que deixam a humanidade em situação de escassez.

O texto tem um papel importante na programação online do Sesc Rio Preto voltada ao teatro. É a partir dele que nascem diferentes tipos de atividades, que serão realizadas virtualmente.

Em "con.jun.tu.ras", artistas de diferentes coletivos da cidade estão envolvidos na leitura de um mesmo texto dramatúrgico: "Aquilo que meu olhar guardou para você", do Grupo Magiluth, de Pernambuco. Serão duas leituras distintas do mesmo texto.

Já em "Correspondências", que envolvem artistas da nova geração teatral rio-pretense, uma personagem e sua história serão criadas coletivamente a partir da troca virtual de correspondências. "A cada correspondência troca, novos elementos surgem em torno da composição dessa personagem, que será feita de camadas de diferentes pensamentos", explica o programador Mateus Santos.

Há ainda artistas que estão criando leituras performáticas a partir de textos da dramaturgia contemporânea. Todos o material online pode ser visto no site e nas redes sociais do Sesc.