RESIDÊNCIA ARTÍSTICA

Luciana Ramin, a 'mãe cabeluda'

Rio-pretense radicada em São Paulo, Luciana Ramin faz residência artística durante a quarentena, criando projeto audiovisual que reflete sobre o tempo e a maternidade


A rio-pretense Luciana Ramin e o filho, Ariel, em 'A mãe cabeluda'
A rio-pretense Luciana Ramin e o filho, Ariel, em 'A mãe cabeluda' - Divulgação

Rio-pretense radicada em São Paulo há mais de uma década, a atriz e artista multimídia Luciana Ramin oportunizou o período de distanciamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus para estabelecer uma residência artística na sede do Agrupamento Andar 7, que também é o local onde mora na região central da capital paulista com o pequeno Ariel, seu filho de 5 anos.

Confinada há quase dois meses com o dançarino e ator Tom Lima, que também é natural de Rio Preto, ela está fazendo uma série de experimentações artísticas, e um dos frutos dessa empreitada criativa é "A mãe cabeluda", projeto que recorre ao vídeo e à performance para refletir sobre o tempo.

"Eu e Tom Lima, que também é rio-pretense, optamos por passar esse período de isolamento juntos, na sede do Andar 7. Aliás, ela será desocupada após a pandemia da Covid-19. O prédio, que é da década de 1930, foi vendido e será demolido", conta Luciana, em entrevista por telefone ao Diário da Região.

"A mãe cabeluda" é protagonizado pela atriz e seu filho, tendo como cenário o apartamento onde moram e estão confinados desde que a pandemia começou. "Ele [Ariel] está confinado comigo, sem ir à escola, sem ter contato com os amiguinhos e até mesmo sem ver o pai [o artista multimídia Gabriel Diaz Regãnon, que fundou o Andar 7 com Luciana]", explica.

No teaser de "A mãe cabeluda" disponibilizado no Youtube, Luciana Ramin personifica uma mãe de longos cabelos, que chegam a tocar o chão quando ela está de pé. Essa mãe envolve seu filho em um processo solitário de espera. "Falo do tempo, desse tempo que está nos dominando, dessa espera pela normalidade. Mas também falo desse tempo que se esvai até o dia que o filho sai de seu colo. A maternidade é isso, é essa doação de amor incondicional ao filho, até ele se tornar um outro indivíduo, capaz para trilhar o seu caminho sozinho. 'A mãe cabeluda' fala desse tempo, de gestar, parir e por no mundo; o cabelo como metáfora do tempo, da pureza, daquele momento íntimo do criar, conceber", conta.

Ainda em processo de construção, "A mãe cabeluda" é uma das obras selecionadas no 1º Salão "Artes para adiar o fim do mundo", uma mostra online promovida pela Casa Visual Galeria, comandada pelo artista Vone Petson em Palmas, no Tocantins. O salão online é uma forma de oportunizar negócios aos artistas - Luciana, por exemplo, comercializa pôsteres de "A mãe cabeluda", impresso em papel fotográfico.

Efeitos da pandemia

A pandemia afetou projetos que a artista rio-pretense estava desenvolvendo em São Paulo. "Tinha algumas apresentações de 'Iracema' ['Iracema Via Iracema', solo apresentado no Festival Internacional de Teatro em 2018, que tem um ônibus como palco] e estava finalizando a peça 'Todo Sacrifício' para estrear. Inclusive iríamos participar de uma mostra sobre ditaduras na América Latina, que seria realizada em abril", enumera.

O distanciamento social também interferiu na realização da Perfídia, mostra de performances e novas mídias idealizada por ela e Regãnon e que já teve uma edição realizada em Rio Preto em 2017. "O evento sempre foi presencial, e, agora, precisamos pensar em outros formatos para driblar essa impossibilidade."

A artista rio-pretense conta que a pandemia mudou a paisagem urbana da região central de São Paulo, que se tornou silenciosa desde março. "O distanciamento social é seguido com rigor nessa região. Apenas os serviços essenciais estão funcionando. Não sabemos quais negócios fecharão depois desse período. Há muitos moradores de rua nessa região, e estamos ajudando como podemos", relata.