LIVE DO DIÁRIO

'A gente quer o colo da normalidade', diz Fabrício Carpinejar

Em live realizada pelo Diário da Região, escritor e poeta Fabrício Carpinejar destacou valores humanos que foram resgatados pela pandemia do novo coronavírus


Fabrício Carpinejar escreveu seu novo livro durante o período de distanciamento social
Fabrício Carpinejar escreveu seu novo livro durante o período de distanciamento social - Divulgação

As palavras do escritor e poeta Fabrício Carpinejar - que acaba de lançar o livro "Colo, por favor!" (Editora Planeta) - são um alento em um momento tão delicado como o vivido atualmente os brasileiros (e o mundo), que tiveram suas rotinas completamente alteradas pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19). E foi assim durante a live realizada com o escritor pelo Diário da Região na tarde de segunda-feira, 18, quando ele falou sobre a sua nova obra, concebida durante esse período de distanciamento social, e como a pandemia tem conectado as pessoas a hábitos e valores que já estavam esquecidos.

Para Carpinejar, o colo carrega consigo a simbologia de se ver o mundo de outro jeito, de outra perspectiva, sendo, sobretudo, "a raiz do afeto, a raiz da ternura". "A gente quer o colo da normalidade, o colo do sol, da praça, da rua, de andar confiante sem temer o que possa acontecer. É a devolução daquela estabilidade que a gente teve um dia", comentou o escritor e poeta durante entrevista concedida ao repórter Gabriel Vital.

Segundo ele, seu novo livro é uma tentativa de entender esse momento de pandemia, de isolamento social, e verificar como ficarão os sentimentos humanos após esse baque. "[O livro fala] Acho que é todo tipo de colo. A essência do colo. É abrigo, aconchego, alento. No colo, nos sentimos seguros; é deitar a cabeça e saber que alguém está nos vigiando, nos zelando, nos cuidando. Colo é confiar", disse. "E não estamos nos sentindo seguros. É uma fragilidade inesperada em todos os aspectos: mental, imaginário, físico, material... Nos tornamos formigas que podem ser esmagadas rapidamente", acrescentou.

Na opinião de Carpinejar, um dos aspectos evidenciados por esse momento de fragilidade é o quão a vida é algo coletivo e não individual. "A vida não depende só de nós, depende dos outros. A gente não tinha essa noção tão aguçada. A gente pensa que é a 'minha saúde', mas não é individual. A mentalidade da saúde coletiva precisa ser valorizada. O que você faz afeta o próximo, e o que você não faz também afeta. A saúde é um sinônimo de responsabilidade."

O escritor e poeta ainda chamou a atenção para o quanto as pessoas supervalorizam suas vulnerabilidades e superdimensionam seus problemas nessa pandemia. "Eu não estou vulnerável. O que estou vivendo não é uma sobrevivência. Sobrevive quem não tem emprego e não tem como colocar comida na mesa. Nossas condições abastadas não podem ser confundidas com quem não tem condições", sinaliza. "Não sair, não passear, não tomar sol, não ir ao shopping ou ao salão de beleza são caprichos, não privações. Há uma grande diferença entre um e outro. Se você não consegue abdicar de caprichos para não superlotar hospitais, não fortalecer uma epidemia, realmente você está fora da realidade. Absolutamente. Será que isso que está sendo solicitado a nós é um sacrifício? Que sacrifício é esse? É um sacrifício muito luxuoso, minha geladeira cheia, livros para ler, minha esposa comigo, dividindo o espaço com quem mais amo. É isso que a gente precisa saber diferenciar", enfatiza.

Medo x Esperança

Questionado sobre o medo, sentimento inevitável nesse momento, Carpinejar disse que "é bom e sadio ter medo", mas não se pode ter ser só medo. "A questão é ser dominado pelo medo. Precisamos dosar notícias realistas com boas e pequenas notícias do cotidiano. A gente precisa de um tempo para digerir o que está ouvindo. O medo não digere, ele absorve."

Em contraponto ao medo há a esperança, que, segundo o escritor e poeta, "é o medo bem informado, o medo treinado". "[Sobre esperança] A gente tem una ideia de ingenuidade, de pureza, de credulidade. A esperança sabe que está ruim, por isso ela continua. Ela sabe que está difícil, por isso ela redobra atenção. Não é negar a realidade, é a aceitação mais veemente da realidade", disse ele, citando como exemplo "aquela pessoa que supera o contexto pela necessidade". "Não vou me intimidar pelas dificuldades; elas me estimulam. Quanto mais difícil, mais eu posso aproveitar e render mais."

Para Carpinejar, um dos reflexos dessa pandemia no futuro é a construção de relacionamentos sem medo, mas com uma atenção especial à prevenção. "As pessoas vão procurar relações mais seguras, mais confiáveis. Vai voltar o namoro. Todo mundo casa rapidamente hoje. As pessoas vão querer namorar mais, sentir se a outra pessoa está realmente comprometida. O namoro é o tempo para evitar ciladas. Quem casa rápido é para esconder os defeitos, que aparecem depois do casamento. E é melhor terminar um namoro do que um casamento."

Emocionado, o escritor e poeta encerrou sua entrevista destacando que a pandemia converteu em saudade coisas cotidianas que irritavam as pessoas antes dela ocorrer. "Tudo que me irritava no meu pai e na minha mão são hoje o que mais sinto falta. Vejo o quanto era feliz sem saber. Nós somos desinformados de nossa própria felicidade. Eu ficava querendo me desvencilhar da mãe quando ela queria me dar a benção; hoje tudo o que mais quero é abaixar a cabeça gentilmente para minha mãe cumprir o sinal da cruz. Saudade de fazer meu pai rir, de cozinhar para eles, de servi-los e de até errar a comida. Somos avarentos em declarar nosso amor, nosso apreço, nosso pertencimento. Uma ilusão adolescente de que não precisamos de ninguém, sabemos nos virar sozinhos", disse ele, sem conter as lágrimas.

O livro "Colo, por favor!" já está à venda em formato digital nas principais redes de livraria. Também é possível encomendar o livro em formato físico, que será lançado na próxima semana.