CENTENÁRIO

Clarice Lispector, a mulher do 'coração selvagem'

A literatura brasileira celebra neste ano o centenário de Clarice Lispector, a escritora que mergulhou fundo nos recônditos da consciência humana


Centenário do nascimento de Clarice Lispector é celebrado em 2020
Centenário do nascimento de Clarice Lispector é celebrado em 2020 - Reprodução

Alvo de homenagens por conta do centenário de seu nascimento, que se dá neste ano, Clarice Lispector (1920-1977) desponta-se na literatura brasileira como uma escritora que mergulhou fundo nos recônditos da consciência humana, colocando a linguagem, o exercício incessante com as palavras, acima de qualquer convenção literária. Tanto que sua estreia, por meio do romance "Perto do Coração Selvagem", lançado em 1943, causou certo mal-estar entre os críticos por convidar leitores e leitoras a um olhar para dentro, rompendo com a literatura fortemente realista que predominava na época.

Estudioso da obra clariciana, Luiz Lopes, professor do programa de pós-graduação do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet), destaca que é muito interessante o primeiro livro da escritora trazer a palavra "selvagem" em seu título porque sua obra foi muito domesticada por leitores e críticos ao longo do tempo. "Clarice está em todos os lugares. Está no Facebook, no Instagram. Mas é somente quando o leitor abre um livro dela é que realmente estamos perto desse 'coração selvagem'. Sua obra é inquietante, selvagem, e essa inquietação ainda se faz presente. Clarice tem a potência de nos inquietar por muito tempo ainda."

Clarice Lispector - que nasceu no dia 10 de dezembro de 1920, em Chechelnyk, na Ucrânia, e desembarcou no Brasil dois anos depois - rompeu com a forma de representação da realidade na literatura de sua época, construindo uma narrativa que explorava dos personagens protagonistas não apenas as ações externas, mas também as internas (pensamentos, percepções, afetos, sensações, revelações), como observa Arnaldo Franco Junior, professor do programa de pós-graduação do Ibilce/Unesp, em Rio Preto.

"A literatura de Clarice Lispector nunca atende docilmente às normas que pretendem definir como um gênero literário deve ser. Nesse sentido, Clarice fará contos que questionam os limites do gênero conto, romances que levam ao limite as possibilidades do gênero romance, crônicas que não atendem àquilo que define o que é ou deve ser uma crônica. Ela coloca os gêneros sob tensão, questionando-os", comenta Franco Junior.

Cronista, contista, romancista e jornalista. Clarice Lispector mantinha uma forte relação com a escrita, oferecendo aos leitores um vasto leque de opções para refletir sobre a existência humana e a realidade social. Para quem ainda não conhece sua obra, tanto Franco Junior como Lopes indicam como "porta de entrada" sua produção de contos e crônicas.

A mesma dica é dada pelo ator e diretor Linaldo Telles, de Rio Preto, que concebeu, ao lado de Homero Ferreira (Cia. Hecatombe), um espetáculo infantojuvenil inspirado na obra clariciana: "Vermelhinhos". "Meu primeiro contato com Clarice foi através de 'A Hora da Estrela' [seu último romance, lançado em 1977, pouco antes de sua morte]. Foi uma paixão instantânea, e rapidamente quis ler tudo o que podia dela. Tenho o livro que reúne as crônicas que ela escrevia para o 'Jornal do Brasil'. Pode ser um interessante começo para quem quer conhecer Clarice", diz Telles.

Segundo Telles, encenar algo de Clarice Lispector é uma tarefa que exige um outro corpo do ator, para além da técnica física e vocal. "No processo de 'Vermelhinhos' fazíamos muitos exercícios de respiração, pois a obra de Clarice convida para a introspecção, para o sensorial. Ela faz do leitor um coparticipante daquilo que compartilha, como se estivesse observando nosso próprio interior."

Escrita x Literatura

Na última entrevista concedida antes de sua morte, para a TV Cultura, ao falar sobre o seu processo de criação, Clarice Lispector diz que não se considerava uma escritora profissional, mas amadora, pois assim não perdia a liberdade para trabalhar a linguagem. "Clarice tinha compromisso com o próprio processo de criação, com a sua arte, e não com preceitos acadêmicos, preocupações com a crítica e categorias e classificações da literatura", sinaliza Lopes.

"Clarice desafiou as convenções literárias, mas esse desafio é mais um efeito daquilo que ela punha em primeiro lugar ao escrever: fazer da escrita uma aventura, um exercício de liberdade e de investigação das possibilidades que a linguagem oferece. Clarice fazia uma distinção entre escrever e fazer literatura, e afirmava que seu compromisso era com o escrever e não com a literatura no sentido de sistema organizado de obras, gêneros e normas", reforça Franco Junior.

A obra clariciana também é emblemática por retratar a mulher para além de uma visão historicamente patriarcal. No entanto, Lopes sinaliza que essa representação vai além de uma identidade fixa ou cristalizada do que significa ser mulher. "Sua obra questiona a própria ideia de gênero. É uma escrita preocupada com o feminino, mas sobretudo com uma ideia de alteridade, de deslocamento e tudo o que a arte faz pensar sobre esse feminino."

"Embora a escritora nunca se deixasse rotular, há uma dominante na sua obra que é o compromisso com o dar expressão a modos de ser, ver e sentir que são femininos, são comprometidos com a mulher, suas vivências e sua experiência social, existencial, histórica", completa Franco Junior.

Em 2021, Clarice Lispector será tema da escola de samba carioca Tradição, marcando sua volta à elite do carnaval do Rio de Janeiro. Para o professor do Ibilce/Unesp, a homenagem é importante na popularização tanto de sua obra como da literatura brasileira em geral. "Os brasileiros precisam ler não só Clarice Lispector, mas os escritores, poetas, dramaturgos e artistas do Brasil. Há muita riqueza e diversidade na arte brasileira, e os brasileiros se enriqueceriam se a conhecessem mais", pontua. "No caso dela, a obra contribui para que a gente aprenda a respeitar as diferenças, aprenda que são as dúvidas e não as certezas que nos fazem crescer e amadurecer, que não há verdades absolutas em nenhum aspecto da vida, e que a liberdade é um valor maior do que qualquer outro, trazendo sempre consigo a responsabilidade por nossas ações e escolhas", opina Franco Junior. 

Reprodução

Os professores Luiz Lopes e Arnaldo Franco Junior dão algumas dicas de leitura para quem quer mergulhar na obra de Clarice Lispector

Arnaldo Franco Junior

  • Contos - 'Laços de Família' (1960) e 'A legião estrangeira' (1964)
  • Romance - 'Perto do coração selvagem' (1944), 'A paixão segundo G. H.' (1964), 'A hora da estrela' (1977)
  • Crônica - 'A descoberta do mundo' (1984)
  • Obras inclassificáveis - 'Água viva' (1973)

"Para o leitor que nunca leu Clarice Lispector, eu, como professor, sugeriria que começasse pelos contos ou pelas crônicas. Mas acho que o que importa é que o leitor se aventure na leitura, que pode ter um efeito surpreendente sobre ele. E esse efeito qualquer obra da escritora pode criar se o leitor se abrir àquilo que o texto propõe e pede."

Luiz Lopes

  • Crônicas - 'A descoberta do mundo (1984)', em especial a crônica 'Pertencer'
  • Contos - 'Laços de damília' (1960), em especial o conto 'Amor'
  • Romance - 'A hora da estrela' (1977)

"São três portas interessantes para entrar no universo de Clarice Lispector. Vamos atravessar o século 21 lendo e relendo a sua obra, descobrindo coisas novas a cada leitra."

 

 

 

Quando Clarice Lispector surgiu nos meios literários brasileiros, em 1943, com a publicação de "Perto do coração selvagem", causou certo mal-estar entre os intelectuais da época. Foi lida duramente por Álvaro Lins e Sérgio Milliet, críticos consagrados, e foi reticentemente bem resenhada por um Antônio Cândido que, então, despontava. Clarice foi inicialmente recebida, no âmbito da produção literária, com certa desconfiança, atribuindo a seus textos uma alta dose de hermetismo e alienação das problemáticas sociais do País que abraçara como seu. Essa acusação só se relativiza em 1977, com a publicação de "A hora da estrela", romance ingenuamente lido como flerte da escritora com a literatura social, mas que, se perscrutado atentamente, mantém os mesmos valores defendidos pelas escritora ao longo de sua extensa carreira literária.

O fato é que por trás desse pretenso hermetismo e alienação de Clarice, esconde-se, na verdade, uma preocupação com problemáticas vistas pela esquerda tradicional como de menor importância: a questão do ser-mulher-no-mundo, a questão do corpo e da sexualidade, a temática da morte e da vida, a temática da liberdade como valor essencialmente humano, estabelecendo, desse modo, uma relação com um existencialismo mais intuitivo do que teórico.

Para isso, Clarice vale-se, desde o início de sua carreira de uma valorização da linguagem e da submissão do tema à linguagem, exigindo do seu leitor um exercício de depreender os valores mobilizados em seus romances, contos e crônicas. É na consciência da linguagem, da sua capacidade de apreensão da realidade e da precariedade dessa mesma linguagem em vestir a realidade que Clarice constrói personagens conscientes de que a adesão total a quaisquer esquemas ideológicos, representa a morte da liberdade e a incapacidade de ser plenamente.

Como não há como não aderir, ainda que criticamente a esses esquemas, as personagens de Lispector se apresentam como sujeitos que participam fingidamente de uma realidade que se abraçada em sua totalidade levaria a destruição de si. Bons exemplo dessa participação fingida pode ser vista em Joana, personagem do primeiro romance de Clarice, ou mesmo em Lóri, de "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres" (1969), que aceita o convite de Ulisses para o aprendizado amoroso, revelando-se no final, mais sabedora do amor do que o intelectualismo de Ulisses permitia observar.

O fato é que o conjunto da produção de Clarice Lispector se presta ao que Silviamno Santiago vai chamar de tradição desafortunada, marcada, num primeiro momento. Esse "ponto fora curva" literário renderá inúmeros trabalhos dos quais destaco. "A via crucis do corpo" (1973) que representa, assim como o romance de 1969, uma virada da autora no que diz respeito ao processo de constituição da linguagem literária e do papel do autor na mobilização desses elementos. Questionada sobre a temática abertamente sexual da coletânea de contos, Clarice se justifica, afirmando que há hora para tudo, e que aquele momento era "a hora do lixo".

Clarice Lispector assume, então, uma posição crítica em relação ao ato de escrever, o que pode ser configurado já na introdução do "Fundo de gaveta" da primeira edição de "A legião estrangeira" (1964): "Por que publicar o que não presta? Porque o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de modo carinhoso do inacabado, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão".

André Gomes Ogùnkeyè é doutor em Teoria Literária e pós-doutorando na Universidade Estadual da Paraíba