PROCESSOS CRIATIVOS

Reflexões sobre a pandemia marcam criações na quarentena

Apesar do isolamento social, a criação artística permanece ativa, mas, para os artistas, é inevitável não trazer à tona as reflexões provocadas pela pandemia da Covid-19


Registro de um dos ensaios do projeto 'Corpos em Quarentena', de Chris, The Red
Registro de um dos ensaios do projeto 'Corpos em Quarentena', de Chris, The Red - Chris, The Red/Divulgação

"Mantenha a distância / Celebre de longe a vida tão bela / Carente de álcool / Gela latente a abraço antes quente..." Os versos da canção "Espirro", lançada recentemente pelo cantor, músico e compositor Lenon Tagliaro, de Mirassol, é um dos reflexos de como a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) está influenciado as criações artísticas que surgem durante o período de quarentena.

Apesar do isolamento social, que afastou os artistas do contato direto com o público, a criatividade permanece ativa, sendo praticamente inevitável conceber uma obra que não esteja impregnada dos anseios, das angústias e das reflexões provocadas por esse momento tão delicado da trajetória humana.

"O momento impõe um olhar para dentro, uma pausa na rotina turbulenta para valorizarmos coisas que não fazíamos mais", diz o mirassolense. "A música ajuda a termos consciência de nós mesmos. E fazer música nesse momento é uma forma de amenizar o desespero diante do incerto, diante daquilo que nos incomoda", acrescenta.

Tagliaro passa boa parte de sua quarentena em seu home studio, em um processo de criação mais intimista, cujas parcerias se estabelecem à distância, de forma virtual. A interpretação de "Espirro", por exemplo, tem participação do cantor João Liossi. E é dele a letra de "Pólvora", outra canção que nasceu nesse período de reclusão social - além de Tagliaro, ela traz Leandro Valentim na viola caipira.

Toque de humor

Ao longo das três primeiras semanas de quarentena, o professor e escritor Deodato Eleutério, de Rio Preto, se dedicou a escrever contos e crônicas em que retratam, de forma bem humorada, os "sacrifícios" de quem se viu obrigado a permanecer em casa por causa da pandemia.

Eis que surgiram histórias como a de uma professora que estava cansada da vida em sala de aula, mas, agora, não vê a hora de voltar para a escola e a de um aposentado que é resgatado pelos filhos toda vez que foge para a praça perto de casa, para jogar dominó. Elas fazem parte do livro "QuarenTrema - Causos do Covid-19" disponível na plataforma de conteúdo sob demanda Clube de Autores e nos sites das principais livrarias do País.

"Recorri à escrita para colocar para fora as minhas inquietações. E elas, com certeza, são inquietações que envolve outras pessoas em quarentena", declara Eleutério, que é professor na escola estadual "Profª Nair Santos Cunha" e autor de livros de crônicas, poemas e histórias infantis. "O humor sempre foi uma marca dos meus escritos. Mas agora quero me arriscar no drama. Estou começando a dar vida ao meu primeiro romance", anuncia.

Artista que também tem o humor como marca, o paulistano Rafael Cortez concebeu, a partir das lives que realiza todo domingo, às 20h (Facebook e Instagram), o solo "Antivírus, o show", cuja temática é toda inspirada na quarentena. A proposta é reforçar a ideia de que a comédia pode e deve funcionar como um antídoto em um momento tão delicado como esse.

As experiências vividas por Cortez sempre exerceram influência em suas criações, seja na comédia, na música ou na literatura. "Criei conteúdos artísticos em todas as crises que passei. Para mim, toda crise traz algo de ruim, mas também de bom", diz ele, que explora apenas insights e reflexões divertidas sobre o tema, como a convivência em confinamento, a relação com as crianças e com a vizinhança, entre outros aspectos. "Não falo de doença, de aspectos cruéis como fome, crise, desemprego ou morte", sinaliza.

Para Cortez, o processo criativo de "Antivírus" marca sua reinvenção como artista da comédia. "Fazer comédia stand up sem o público é praticamente impossível. Para mim, não importa se o espaço é grande ou pequeno, tem que haver pessoas para a troca com o artista. Nunca fiz em rádio, podcast ou TV justamente por causa disso", declara.

Corpos isolados

Fotógrafo de São Paulo que se dedica, por meio do nu artístico, a exaltar a diversidade para além dos padrões físicos impostos pela sociedade, Chris, The Red reflete sobre o isolamento social através do projeto "Corpos em Quarentena". Trata-se de uma série de ensaios fotográficos feitos por ele à distância, a partir de uma conversa de vídeo pelo aplicativo Skype. Eles podem ser vistos em seu site oficial (thered.com.br).

Para ele, o ponto mais positivo do projeto é estabelecer conexões com pessoas que ainda não conhecia por conta da distância. "Há pessoas que sempre quiseram ser fotografadas por mim, mas que moram longe de São Paulo. Com esse projeto, estou tendo a oportunidade de criar novos vínculos, envolvendo até mesmo quem mora em outros países."

Em seus ensaios, o aparelho usado pelo fotógrafo para se comunicar com seu fotografado - o celular ou o notebook - acabando virando a moldura da imagem. "Não faço um print da tela. Uso a máquina fotográfica para registrar a imagem que vejo no aparelho. Se eu cortasse essa 'moldura', eu quebraria toda a narrativa. Isso porque a tecnologia tem uma relação direta com o registro da imagem", conta.

Além das fotos, Chris envia um breve questionário aos fotografados. A ideia é, futuramente, conceber um livro sobre a experiência vivida a partir do "Corpos em Quarentena".