Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
CRÔNICAS DO MARIVAL

Clássico 'Estrada da Vida' nasceu em Rio Preto

Foi em uma viagem iniciada em Rio Preto que surgiu a inspiração para criação de ‘Estrada da Vida’

por Marival Correa
Publicado em 27/03/2022 às 09:04Atualizado em 27/03/2022 às 09:12
BR-153 em Rio Preto: viagem feita por Milionário e José Rico há 46 anos a partir da rodovia inspirou ‘Estrada da Vida’ (Guilherme Baffi 24/3/2022)
Galeria
BR-153 em Rio Preto: viagem feita por Milionário e José Rico há 46 anos a partir da rodovia inspirou ‘Estrada da Vida’ (Guilherme Baffi 24/3/2022)
Ouvir matéria

Era uma vez um cara cabeludo, óculos escuros, muitos anéis, pulseiras e cordões de ouro; indefectíveis costeletas e cavanhaque. Ele chega a uma revenda de automóveis na região central de Rio Preto acompanhado do parceiro de todas as horas, este um pouco mais econômico no volume dos cabelos, mas principalmente afinado na voz e nas batalhas da vida.

Ambos procuram por um vendedor conhecido – chamado pelo mais cabeludo de “Zum” (tática infalível para não errar o nome de ninguém) e logo miram o objeto do desejo: um VW Brasília na cor verde. Potência possível para a época – carburação dupla, quatro marchas e velocidade máxima de 132 km/h, era tudo o que precisavam para encarar a maior aventura, até então, que estavam prestes a viver.

Pagam pelo carro em cima da nota, à vista, graças ao cachê que tinham acabado de receber pela apresentação no showmício de um candidato a prefeito, na cidade de Olímpia. De Rio Preto, partem para a jornada que mudaria o destino dos dois. E, por tabela, escreveriam um capítulo à parte na história da música brasileira.

Sim, é claro, não poderiam ser outros se não Milionário e José Rico. Ambos partiriam daqui, a bordo daquela Brasília verde, no ano de 1976, para revolucionar o universo sertanejo com “Estrada da Vida”, tal e qual Tião Carreiro tinha feito quando, na virada de 1959 para 1960, lançou ao lado de Pardinho o seu clássico “Pagode em Brasília”.

Coincidência, ou não, em ambos os feitos, cada um ao seu estilo único e inconfundível, a capital federal é o ponto de entrelaçamento destas duas histórias. A de Milionário e José Rico ficaria marcado em definitivo a partir daquela viagem iniciada em Rio Preto, embarcados na tal “Brasiliona” esverdeada.

Não, a composição não saiu assim de cara, ainda por essas bandas. A composição de um clássico, não raro, é fruto do acaso. E o acaso brilhou quando a dupla partiu daqui, há 46 anos, com a missão de cumprir uma extensa agenda de shows entre os estados de Goiás e de Minas Gerais.

Era um momento crucial da carreira dos dois, como o próprio Zé Rico revelou em entrevista exclusiva que ele concedeu ao Diário da Região em junho de 2013. “Foi especial porque, de certa forma, foi o começo de tudo. Sem dúvida, um momento muito importante pra nós”, revelou o “Zum”, que morreria em 3 de março de 2015. Importante porque, como ele próprio explicou, embora já tivessem gravado três discos – o primeiro deles em 1973 – com algum sucesso, ainda faltava o salto definitivo para a fama.

E ela (a fama) veio exatamente a partir dali. O caminho pela BR-153, naquela época chamada por aqui de Rio Preto-Brasília foi o ponto-chave para aflorar a inspiração do artista. “Comecei a observar aqueles retões da estrada, o horizonte lá distante, as subidas e descidas, sabe? (diz, imitando com as mãos o movimento do carro no asfalto). Aí comecei a cantar baixinho: ‘Nessa longa estrada da vida...’. Quando chegamos na cidade de Mineiros, estado de Goiás, comecei a trabalhar mais na letra de modo que na viagem de volta, entre Mineiros e Uberlândia, já em Minas Gerais, a canção estava pronta”, contou Zé Rico naquela mesma entrevista.

Obra concluída, sucesso e consagração absolutos. “Estrada da Vida” explodiu nas rádios e intitulou o disco que a dupla lançaria pouco depois daquela viagem histórica, no ano de 1977. É acompanhada de outros sucessos como “Solidão” e “Migalhas de Amor”. Ainda em 1977 sairia um outro disco, este também especial por trazer o título pelo qual Milionário e José Rico ficariam também conhecidos: “As gargantas de ouro do Brasil”.

Entrevista inesquecível

Aquela entrevista que a dupla concedeu ao Diário, em junho de 1913, foi marcante. Milionário e José Rico estavam em Rio Preto para um show no Palestra e, no hotel, conversaram com a reportagem por um tempo muito maior que o inicialmente combinado. Relembraram a aventura a bordo da Brasília, a dura batalha até o sucesso, falaram com muito respeito do novo estilo musical que estava chegando com tudo, o sertanejo universitário, e Zé Rico finalizou com uma frase que resume tudo: “Só há dois tipos de música, a boa e a ruim”.

Duas vozes, 35 milhões de discos

Milionário e José Rico (Reprodução)
Galeria
Milionário e José Rico (Reprodução)

Quando, naquela entrevista ao Diário em junho de 2013, José Rico diz que o ano de 1976 foi o começo de tudo, não é exagero. Após alguns compactos e três LPs que passaram despercebidos, bem no início dos anos 1970, a dupla gravou o primeiro LP pela Continental/Chantecler em 1973. Este LP vendeu pouco a princípio (apenas 700 cópias), e a Chantecler relutou em continuar com a dupla. A vendagem até subiu para cerca de 7 mil cópias alguns meses após, mas os dois chegaram a pensar em desistir, já que música ainda não garantia o sustento.

A persistência fez a diferença e a luz do sucesso foi brilhando aos poucos. O marco definitivo foi justamente o ano de 1977, com o estrondoso sucesso da canção rancheira "Estrada da Vida", de autoria de José Rico, faixa-título do LP Volume 5, que proporcionou a venda de mais de dois milhões de cópias e originou o roteiro do filme baseado na própria vida da dupla. Dirigido por Nelson Pereira dos Santos, foi lançado em 1981.

Em pouco mais de quatro décadas de carreira, a dupla vendeu cerca de 35 milhões de exemplares de seus 29 discos gravados. Além disso, lançaram dois DVDs e dois filmes: “Na Estrada da Vida”, de 1980, e “Sonhei Com Você”, de 1988.

Hoje, Milionário, com 82 anos, segue em sua estrada da vida, só que mais recluso em sua chácara em Mogi-Mirim. José Rico, que completaria 76 anos agora em junho, morreu no dia 3 de março de 2015, vítima de um infarto. Já as vozes dos dois, estas seguirão o caminho que passa pelas nossas memórias, em uma viagem como aquela, a bordo de uma Brasilia verde.