Poucos leitos e muito preconceito são obstáculos no combate ao crack em Rio Preto

DEPENDÊNCIA

Poucos leitos e muito preconceito são obstáculos no combate ao crack em Rio Preto

Estima-se que 90% dos moradores de rua façam uso da droga na cidade


Rio Preto
Usuários de entorpecentes em mocó na avenida Alberto Olivieri, o Linhão, em Rio Preto
Usuários de entorpecentes em mocó na avenida Alberto Olivieri, o Linhão, em Rio Preto - Guiherme Baffi 11/9/2020

"Desculpa por tudo, eu não aguento mais, é mais forte do que eu. Não aguento mais esse vício". Essa frase é de uma técnica de enfermagem de 36 anos, usuária de crack. A mensagem foi enviada para o companheiro por meio de um aplicativo horas antes de ela ser encontrada sem vida. Meire de Jesus dos Santos morreu às 21h30 de uma sexta-feira, dia 14 de agosto de 2020. Ela foi encontrada na cama, dentro da casa onde morava no bairro Vitória Régia, em Rio Preto. O caso foi registrado como morte suspeita.

Dependente da droga há pelo menos dois anos, ela tentava se livrar do vício que adquiriu quando morava em Cajobi. A família acredita que ela tenha sido influenciada por um antigo namorado. Apesar de trabalhar na área da saúde e de conhecer de perto os perigos que o uso da droga pode provocar, Meire não teve forças para se livrar do vício. "Ela tentava. Eu estava ajudando, mas ela não conseguia mesmo com a minha ajuda", desabafa o mecânico José Cláudio Pereira Nunes, 40, com quem Meire manteve um relacionamento amoroso por um ano.

A família a descreve como uma pessoa extrovertida e cativante. "Ela fazia amigos por onde passava. Até hoje, as pessoas não acreditam que ela era usuária", conta a irmã, Meiga dos Santos, 38 anos. Esse comportamento sociável, no entanto, camuflava o quadro depressivo que se agravava a cada vez que passava o efeito entorpecente. "Depois de usar, ela se sentia muito culpada e envergonhada. Pedia desculpas e dizia que ia tentar parar. A gente devia ter ido atrás de uma clínica. Mas eu não conseguia, isso é o que mais me dói", lamenta Meiga, que mora em Monte Verde Paulista, onde a irmã foi enterrada.

O caso de Meire evidencia um problema social antigo e difícil de ser resolvido: a epidemia de crack, que não se concentra apenas em grandes cidades com maior fluxo de pessoas. Em mapeamento realizado pelo Observatório do Crack, da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), 31 cidades da região declararam ter problemas decorrentes de consumo do entorpecente. Rio Preto não faz parte do mapeamento, pois não respondeu ao chamamento.

A constatação do relatório é que o combate ao crack é um desafio que deve ser enfrentado pela gestão dos municípios, destaca Mariana Boff Barreto, consultora e pesquisadora da CNM. "É um problema social que demanda ações integradas e de intersetorialização, envolvendo as três esferas de governo e os diversos segmentos públicos", afirma.

Abandonar o vício é um desafio até para quem está disposto a pedir ajuda. Em Rio Preto, são diversos locais que oferecem tratamento. Quem depende da rede pública, no entanto, acaba esbarrando na falta de leitos devido à sobrecarga dos serviços.

A estrutura é só uma das questões que dificultam a diminuição do número de usuários, alegam especialistas. O preconceito e a falta de informação também são obstáculos. "A sociedade tende a ver a dependência de crack como uma falha moral, como falta de força de vontade e de caráter. Não tem nada disso, é uma doença e pode pegar qualquer um", afirma o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, professor do Departamento de Psiquiatria da Unifesp.

Além da rede pública, centros terapêuticos mantidos por instituições religiosas, clínicas particulares e hospitais filantrópicos oferecem tratamento para dependentes da droga. Rio Preto possui seis comunidades terapêuticas licenciadas para o acolhimento voluntário, com caráter residencial.

Na cidade, a rede pública atende os usuários nos Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e Outras Drogas (CAPs AD). No ano passado, 1.003 pacientes foram atendidos, uma média de 83 por mês. Entre janeiro a agosto deste ano, foram 545, quase 68 por mês, em média. "Em ambas as unidades nós atendemos não só o usuário, como também a família. Mesmo que o usuário ainda não tenha decidido aceitar o tratamento, a família pode recorrer ao CAPs AD para ser orientada, acompanhada e apoiada com relação a dependência do seu ente", explica Daniela Pavan Terada, gerente do Departamento de Saúde Mental. O Caps AD possui 12 leitos de hospitalidade noturna, que oferece serviço ambulatorial. O atendimento, no entanto, foi suspenso temporariamente com o remanejamento dos profissionais de saúde para atuar na linha de frente contra a pandemia.

A Saúde informa que consegue atender a todos que procuram pelo serviço. Isso só é possível, porém, porque o número de usuários que buscam por ajuda representa uma pequena fatia do universo de dependentes. Estima-se que 90% dos moradores de rua façam uso da droga - neste ano, a cidade mapeou 887 pessoas em situação de rua. "Se todos nos procurassem, com certeza teríamos dificuldades", considera Daniela.

Tratamento

Durante o atendimento, o paciente passa por uma triagem. Os profissionais realizam uma avaliação multidisciplinar em que são estabelecidos os tipos de terapia, qual a frequência e quais intervenções serão necessárias. Após esse processo, o usuário pode conseguir vaga em um dos dois centros terapêuticos credenciados no Programa Recomeço, mantido pelo governo do Estado e que oferece tratamento gratuito. São espaços com caráter residencial e que abrigam os pacientes por seis meses a nove meses.

Um deles é o Centro Terapêutico Filhos de Maria, que pertence à Associação Madre Tereza de Calcutá. Atualmente, o local possui capacidade para acolher até 25 pacientes. Desse número, a metade é formada por pessoas que fazem uso de crack, afirma o assistente social Miquéias Jardim Pereira. "O tratamento oferece uma rede de apoio no processo de recuperação das pessoas, resgatando a cidadania e a autonomia, e buscando encontrar novas possibilidades de reinserção social".

Nos casos em que a família pede ajuda, mas o usuário não aceita tratamento, os assistentes sociais buscam a sensibilização do paciente. "Tentamos demonstrar quais são os prejuízos, para que ela possa começar um tratamento de livre e espontânea vontade", esclarece Daniela.

Em alguns casos, além da dependência do crack, o paciente pode apresentar comorbidades. "São casos de pessoas que possuem transtorno bipolar ou depressão, por exemplo. Nessas situações, pode ser feita a internação involuntária ou compulsória, a qual a família solicita por meio da Defensoria Pública", explica Misleine Fagundes, administradora do hospital Bezerra de Menezes, local que também realiza internações voluntárias.

Hoje, a instituição filantrópica tem capacidade para 227 pacientes, divididos entre leitos SUS (160), leitos de observação no setor de emergência (18) e leitos para setor de convênio e atendimento particular (49). Do total de pacientes internados na instituição, 70% são usuários de algum tipo de substância. "Dessa fatia, metade é usuária de crack. E percebemos que o número de pacientes dependente desse tipo de droga aumentou nos últimos anos", diz Misleine.

Mais potente do que a cocaína, o crack provoca um aumento imediato do nível da pressão arterial do usuário. Ao fumar uma pedra, a pessoa começa a sentir o efeito em apenas um minuto, explica o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, professor da Unifesp. "A pessoa tem uma sensação de euforia muito intensa, ela passa a se sentir muito inteligente e com a autoestima elevada. Ou seja, são os efeitos contrários que a depressão causa", destaca o pesquisador, que trabalha há 30 anos com tratamento de dependentes.

O efeito é rápido e desaparece em cerca de 15 minutos e logo a pessoa tem necessidade de repetir o processo. Essa compulsão é o que faz do crack uma das drogas mais perigosas da atualidade.

Por isso, nem sempre a internação resulta no efeito esperado. Para Silveira, as políticas públicas brasileiras são atrasadas e muitos dos modelos de tratamento apresentam baixa eficácia. "A população em geral acha que o melhor tratamento é a internação, mas 90% voltam a usar a droga", afirma. Ele argumenta que durante a reclusão o usuário fica sem consumir só porque não consegue ter acesso à droga. "Mas quando volta para a vida, para os problemas e dificuldades, ocorre a recaída".

Silveira defende o modelo de tratamento ambulatorial, igual ao que é oferecido pelo CAPs AD. Mas não são todas as cidades que possuem essa estrutura. Além de Rio Preto, Catanduva e Votuporanga possuem unidades especializadas em álcool e drogas. "Ele é um modelo que associa psicoterapia com medicação, que aumenta a eficácia."

A gerente do Departamento de Saúde Mental de Rio Preto, Daniela Pavan Terada, reforça que são necessários cuidados contínuos no ambiente de vida real, quando o usuário precisa lidar com as adversidades e confrontar suas dificuldades nos diferentes cenários: trabalho, família, relacionamentos interpessoais, entre outros.

"A dependência é um problema bem complexo que envolve situações sociais e culturais. Dificilmente uma única área dá conta de resolver, e um suporte importante pode ser o de pares", destaca. Entre os exemplos são os grupos Narcóticos Anônimos e Amor Exigente . São programas que oferecem pontos de suporte estratégicos para quem quer mudar de vida, incluindo os familiares. "O que contempla as pessoas é a diversidade. Temos que ter uma união de vários seguimentos. A resposta não está só com a Saúde, a religião ou grupos da organização civil", finaliza. (FN)

Desintoxicação e abstinência

  • Início do tratamento feito sob supervisão médica. Usuário recebe medicação para diminuir o desconforme e minimizar as complicações. A desintoxicação estabiliza os usuários;

Reabilitação

  • Manutenção da abstinência é feita com trabalho terapêutico que inclui o paciente e a família. Em alguns casos são administradas medicações para diminuir a vontade de consumo;

Manutenção e prevenção de recaídas

  • Foco na manutenção da abstinência e mudança de estilo de vida para saber lidar com situações que possam ser gatilho para o uso da droga. Nessa fase é importante a participação em grupos de pares e ter um apadrinhamento.

Ambulatorial

  • Paciente vai ao centro especializado para consultas, terapias, atividades e medicação e volta para casa. Indicado a quem consegue ficar curtos períodos em abstinência sem necessidade de internação.

Internação

  • Pode ser hospitalar, em clínicas ou em comunidades terapêuticas. Paciente fica de 15 dias a 6 meses internado. Indicada para usuários com necessidade de intervenção mais efetiva.

Grupos de mútua ajuda

  • Paciente frequenta por conta própria reuniões de grupos como Narcóticos Anônimos. Indicado a quem consegue se manter em abstinência sozinho, sem necessidade de medicação.

Fonte: "O tratamento do Usuário de Crack", de Marcelo Ribeiro e Ronaldo Laranjeira