Sem intérpretes, surdos têm dificuldade com aulas remotas em Rio PretoSem intérpretes, surdos têm dificuldade com aulas remotas em Rio Preto

ACESSIBILIDADE

Sem intérpretes, surdos têm dificuldade com aulas remotas em Rio Preto

Com suspensão dos contratos de intérpretes, alunos surdos ficam confusos para resolver as atividades passadas pelos professores de maneira remota


Rio Preto
Alunos surdos da rede municipal enfrentam dificuldades com suspensão dos contratos de intérpretes de Libras durante a pandemia
Alunos surdos da rede municipal enfrentam dificuldades com suspensão dos contratos de intérpretes de Libras durante a pandemia - Colaboração/Leitor

Desde o início da pandemia do coronavírus, a Prefeitura de Rio Preto suspendeu os contratos com os intérpretes de Língua Brasileira dos Sinais (Libras), responsáveis pela orientação aos onze alunos surdos matriculados nas escolas da Secretaria de Educação do município.

Com a retomada das atividades de maneira remota, em abril, os alunos ouvintes passaram a receber atividades e ter acesso às aulas online, seguindo, assim, o ano letivo. No entanto, a ausência de profissionais que fazem a mediação entre o surdo e a escola tem deixado os alunos surdos à deriva.

Quando soube que seus colegas do 8º ano do Ensino Fundamental II do Ensino de Jovens e Adultos (EJA), que acontece na Escola Municipal Ademir Dib, já estavam de volta às aulas pelo computador ou celular, o estudante Pedro Márcio Gonçalves da Silva, 32 anos, foi até a escola para saber quando ele poderia voltar a estudar.

Na ocasião, Pedro afirma que foi informado de que as atividades seriam enviadas de forma adaptada, o que, segundo ele, não aconteceu até agora, deixando o estudante sem entender a situação. "Eu quero me formar, preciso me formar, quero chegar logo no 9º ano para terminar, tenho esse direito à Educação como qualquer outra pessoa, não acho justo um ouvinte poder estudar e eu não", afirmou o rapaz, em entrevista ao Diário, com auxílio de um intérprete de Libras. Pedro compreende a situação provocada pela pandemia do coronavírus, mas não concorda com a falta de acessibilidade e cenário desigual perante o acesso à Educação.

A Secretaria de Educação afirma que os alunos estão sendo atendidos por uma profissional especializada e que as aulas produzidas pela pasta estão sendo transmitidas pela TV Câmara com intérpretes de Libras. No entanto, a operadora de caixa Clécia Cristina Teixeira está enfrentando problema com o aprendizado do filho, Gabriel Felipe, 11 anos, aluno do 5º ano da rede municipal. O garoto possui um implante coclear e ouve parcialmente, sendo, portanto, acompanhado por um profissional de Libras na escola. Desde que seu intérprete foi afastado, a mãe diz que Gabriel ficou sem acompanhamento.

"Um mês e meio após a suspensão, a professora me ligou falando que estava mandando os livros para o retorno de maneira remota, mas como que eu vou interpretar um texto para o meu filho se não domino totalmente Libras? Eu não tenho como acompanhar", contou a mãe do aluno, que conseguiu recentemente o intérprete após repetir de ano e encarar uma série de dificuldades para conseguir ter acesso às aulas.

"Teve ano que ele ficou desenhando o tempo inteiro na aula. Tinha uma profissional de Libras uma vez por semana", acrescentou Clécia, que constatou o mesmo problema com outras mães de alunos surdos. Em conversa com a professora sobre a situação, ela conta que foi lhe entregue, então, um CD sobre a Arca de Noé em libras para que o filho fizesse pesquisa na internet. "Não foi uma solução eficiente para mim. Eu vejo no grupo a professora mandando atividades para os alunos ouvintes e para mim vem link do YouTube com história da Branca de Neve, Chapéuzinho Vermelho. O que isso vai ajudar para um aluno do 5º ano se ele já assiste essas histórias na TV fora de aula?", questionou Clécia, acrescentando que sabe que a professora também não tem culpa pela falta de acessibilidade.

"É muito difícil a falta de acessibilidade, não só nas escolas, mas em todo lugar. No comércio, nos bancos, é sempre complicado. Meu filho não fez nenhuma dessas atividades escolares. Eu nem sei como fazer", ressaltou a rio-pretense, que acha indispensável a atuação do profissional de Libras neste momento.

Sem previsão de retorno

A reportagem localizou dois intérpretes que atuam na Secretaria Municipal de Educação e não quiseram se identificar. Os profissionais contam que, desde o início da pandemia, vêm sendo procurados pelos familiares de alunos surdos, uma vez que eles têm este contato para além da sala de aula, auxiliando no dia a dia de cada um dos acompanhados.

Os intérpretes relataram que tiveram os contratos cancelados pela Gerência de Educação Especial no contexto de pandemia e que, com a retomada das aulas de maneira remota, não receberam, ainda, previsão de retorno, o que tem prejudicado os alunos da rede.

"Eles nos procuram sem entender, porque veem que estão todos os colegas ouvintes desenvolvendo atividades e eles não recebem nenhuma orientação", contou um dos profissionais, que atua também na rede estadual de ensino, onde eles seguem trabalhando normalmente por um canal de comunicação exclusivo aos alunos.

Alguns dos alunos que os procuraram alegaram que chegaram a receber materiais, mas que na própria família não têm ninguém que possa ler ou auxiliá-los, restando-lhes entrar em contato com os profissionais. "A gente acaba ajudando porque está junto a eles na aula, mas é injusto trabalhar sem receber, então não podemos acompanhá-los nas atividades diárias", explicou um intérprete.

"Quando teve a retomada das aula,s falaram pra gente que estavam esperando uma posição oficial, mas até agora nada de contar com nossos serviços. Eles explicam que é porque não tem aluno presencial na escola, ou seja, só quando retomar de vez", acrescentou o outro intérprete.

"Em um mundo em que a acessibilidade está cada vez mais expandindo, em um País em que temos legislação que garante este direito, cadê a inclusão e valorização da área?", questionou um dos profissionais.

Questionada, a Secretaria Municipal de Educação confirmou a suspensão dos contratos dos profissionais intérpretes de Libras por conta da ausência de aulas presenciais e informou que os onze alunos surdos da Rede Municipal de Ensino estão sendo atendidos por uma profissional especializada e que as aulas produzidas pela pasta estão sendo transmitidas pela TV Câmara com intérpretes de Libras.