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Diário da Região

13/12/2017 - 11h52min

BISPO EM XEQUE

Dom Tomé chora ao se explicar a padres

BISPO EM XEQUE

Guilherme Baffi Carros dos padres estacionados na Casa do Clero, local da reunião com o bispo dom Tomé
Carros dos padres estacionados na Casa do Clero, local da reunião com o bispo dom Tomé

Por duas vezes, o bispo de Rio Preto, dom Tomé Ferreira da Silva, chorou ontem ao dar explicações aos padres da Diocese sobre a sindicância instaurada pelo Vaticano contra ele. O bispo é suspeito de manter relacionamento amoroso com seu ex-motorista e entregar a ele vultosas quantias sacadas da conta bancária da Diocese. Dom Tomé também é acusado de perseguir padres e ser omisso quanto a denúncias contra sacerdotes.

A reunião com a maior parte dos 120 padres da Diocese foi a portas fechadas ontem pela manhã na Casa do Clero, entre Rio Preto e o distrito de Engenheiro Schmitt. Durante uma hora, dom Tomé rebateu todas as suspeitas que pesam contra ele. Voltou a atribuir as acusações a boatos. Nesse ponto, um dos padres questionou o bispo. “Se são tudo boatos como o senhor diz, porque não registra ocorrência na polícia?” Dom Tomé respondeu que uma possível investigação policial “envolveria muita gente”. “Não quero expor ninguém”, disse.

Ao se defender das acusações, dom Tomé encheu os olhos de lágrimas, segundo os presentes. No final do discurso, padre João Serafim, da igreja da Redentora, levantou e teceu argumentos em favor do bispo. “Conte comigo”, concluiu o sacerdote. A mesma frase foi repetida por cerca de um terço dos padres presentes.

Nesse momento, dom Tomé teria chorado de novo, dessa vez copiosamente, ainda conforme os padres. “Nunca vou me esquecer desse gesto que vocês tiveram comigo aqui hoje”, disse, com a voz embargada. Ao final, o bispo pediu sigilo absoluto sobre o encontro. Do lado de fora, o Diário acompanhava o entra-e-sai dos padres - a reportagem foi impedida de entrar no luxuoso imóvel, com piscina e campo de futebol.

Na saída do encontro, parte dos padres abordou a reportagem para criticar o jornal. “É o diabo da região”, disse um deles, que não quis se identificar. Mas outros criticaram a conduta do bispo. “Foi uma palhaçada, puro teatro. Não trouxe nada daquilo que já tínhamos lido no Diário”, disse outro, sob a condição do anonimato.

Após a reunião, dom Tomé ficou reunido por cerca de três horas com os padres Marcos Figueira, coordenador da Pastoral Presbiterial, e Márcio Tadeu Camargo, assessor de comunicação da Diocese. No fim, a dupla divulgou nota vaga em defesa do bispo. “As instituições, de um modo geral, estão sendo cada vez mais questionadas e, principalmente, as atitudes de seus líderes, como é o nosso caso. (...) Hoje nos reunimos para, frente aos rumores veiculados, não perder o foco de nossa missão: levar conforto aos necessitados.” O bispo, que permaneceu na Casa do Clero pelo menos até o início da tarde, não se manifestou publicamente sobre a reunião. 

 

‘Bispo deve ser afastado’

O bispo dom Tomé Ferreira da Silva deveria ser afastado do cargo enquanto durar a sindicância instaurada pelo Vaticano contra ele. Essa é a opinião de dois especialistas ouvidos pelo Diário. “Afastar o investigado do cargo é procedimento básico em qualquer instituição, para que o indivíduo não interfira na investigação, coagindo testemunhas, por exemplo”, diz o professor de ética da Unicamp Roberto Romano.

Para o cientista social José dos Reis Santos Filho, da Unesp de Araraquara, o afastamento “é conveniente”, inclusive para beneficiar o processo de apuração das denúncias. “Uma figura que está hierarquicamente numa posição de poder maior exerce influência que pode prejudicar a produção de provas”, afirma Reis, para quem “a Igreja pede transparência na política e aos políticos, mas não pratica isso. Ela (Igreja) usa dois pesos e duas medidas”, diz o cientista social.

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