Em entrevista a um canal no YouTube, o médico e provedor da Santa Casa de Rio Preto, Nadim Cury, defendeu o uso da ivermectina como prevenção à infecção por coronavírus - embora não haja comprovação científica de sua eficácia. Ele disse ter tomado o medicamento, cujo uso recomendado é para tratar verminoses, em conjunto com vitamina C. Nadim também admitiu ter dado o remédio para sua família, amigos e também para funcionários que quiseram. No vídeo do canal, ele diz que cada um tem sua opinião, e que na própria Santa Casa há médicos que não prescrevem a droga.
Segundo as sociedades de medicina pelo País, não existe nenhum estudo científico que comprove a eficácia da ivermectina para evitar a contaminação ou para tratar a doença. "Estudo comprovando eu não tenho. A partir de março de 2020, eu dei para minha filha, minha esposa, minha mãe e para a família inteira. Eu peguei Covid, minha mãe de 85 anos pegou fraco, minhas duas sobrinhas pegaram fraco, meu irmão que está sempre com minha mãe não pegou. Tenho amigos que me pediram receita e praticamente ninguém pegou. Dou todo mês para meus funcionários, três ou quatro pegaram leves. Maior prova que isso não tem. Eu ponho a mão no fogo", afirmou Nadim ao Diário, garantindo que não obriga os funcionários da Santa Casa nem do Monte Líbano, onde é presidente, a tomarem.
O médico afirmou que os benefícios compensariam os riscos de efeitos colaterais, que segundo ele seriam raros, e inerentes à qualquer medicação. Nadim indicou ainda a automedicação, falando que a ivermectina é barata e que não seria necessário consultar o médico de confiança, pois ele poderia ser contrário à utilização do fármaco. As contraidicações, segundo ele, são para os pacientes com problemas no fígado e no rim. A ivermectina pode provocar hepatite, em alguns casos.
A bula do fármaco esclarece que ela é contraindicada para que tem hipersensibilidade a qualquer componente da fórmula; por pacientes com meningite ou outras doenças do sistema nervoso central que possam afetar a barreira hematoencefálica, e também por crianças com menos de 15 quilos e menores que 5 anos. Também na bula é possível encontrar a dosagem indicada para cada doença contra a qual a ivermectina é indicada, conforme o peso do paciente.
A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) se pronunciou no início deste ano sobre a ivermectina e também sobre nitazonaxide, uma substância antiparasitária. "Não há dados conclusivos sobre a segurança e eficácia destes fármacos para o tratamento ou profilaxia da Covid-19. A recomendação da SBTP é contrária ao uso na prevenção ou tratamento da Covid-19", afirmou a organização.
A Associação Médica Brasileira (AMB) vai no mesmo sentido. "Atualmente, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entidade reguladora vinculada ao Ministério da Saúde do Brasil", afirmou em nota veiculada em janeiro.
Segundo Flávio Guimarães da Fonseca, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, existem estudos que apontam que o uso da ivermectina pode ser benéfico e outros que apontam que não existe evidência de eficácia da substância contra o coronavírus.
"O que se avalia na ciência é a credibilidade de onde os estudos vão sendo publicados. A maior parte dos estudos pró-ivermectina foi publicada em revistas pequenas, de baixo impacto científico, ou seja, são trabalhos que não tiveram credibilidade para a maior parte da comunidade científica ou para as revistas impactantes na área", explicou. "Enquanto os resultados que mostram a falta de eficácia dessa droga estão publicados na revista científica de maior credibilidade", acrescentou o virologista.
Ulysses Strogoff de Matos, infectologista do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, vinculado à USP, considerou que seria ótimo que algum estudo comprovasse que a ivermectina funciona. "Quem não quer que apareçam medicamentos de tratamento precoce?"
Segundo ele, um estudo que comprovou a eficácia do vermífugo foi feito in vitro, fazendo a substância interagir com o SARS-CoV-2. "Na vida real é diferente. Esses testes in vitro usaram doses milhares de vezes superior às que se usa na prática clínica", explicou o médico.
Para um estudo ser considerado confiável, ele tem que ser randomizado duplo cego, ou seja, quando a equipe que está aplicando o medicamento não sabe quem está recebendo o remédio e quem está com o placebo (substância controle, sem absolutamente nenhum efeito). Somente depois, ao comparar os resultados do remédio com os do placebo, é possível saber se o medicamento tem efeitos positivos. Esses são os mesmos estudos que são feitos para as vacinas, por exemplo.
"De cada cem pacientes com Covid, 15 vão ter doença grave, cinco doença crítica, se você pega 20 pessoas que tomaram água e não tiveram nada, fala que foi essa água que salvou. Tem que ter estudo com até mais de mil pessoas, o índice de mortalidade e gravidade é grande, tem que ter muita gente sendo testada por um tempo considerável em duplo cego randomizado", defendeu Matos.