Como a pandemia e o isolamento afetaram a saúde mental de idosos

SUPERAÇÃO

Como a pandemia e o isolamento afetaram a saúde mental de idosos

Os idosos, principal grupo de risco para a Covid-19, também são um dos públicos que mais tiveram a saúde mental impactada pela crise gerada pelo coronavírus


O casal Sonia e Valdevino está em casa desde março. Para driblar as incertezas e a saudade da família, eles começaram a cultivar uma  horta e adotaram uma gata. Confira como a pandemia mexeu com a saúde emocional dos idosos
O casal Sonia e Valdevino está em casa desde março. Para driblar as incertezas e a saudade da família, eles começaram a cultivar uma horta e adotaram uma gata. Confira como a pandemia mexeu com a saúde emocional dos idosos - Guilherme Baffi 10/10/2020

A dupla de cantores caipiras João Mulato e Pardinho não sabia o que seria a crise da Covid-19, mas na música "Janela da Vida" cantava que "foi quando deixei mais que de repente / a estrada e sol quente, campinas floridas / lá fora estava o passado com a saudade brincando / E os anos fechando a janela da vida."

Palavras que traduzem bem o sentimento de quem, com o rosto enrugado, as mãos calejadas e as costas cansadas, nunca foi obrigado a ficar em casa para se proteger, nunca foi afastado dos netos por uma prova de amor. Fazer uma simples feira no domingo de manhã se tornou uma ameaça. Ansiedade, incerteza, angústia, tristeza, medo de que o coronavírus atinja a si ou a família. Na segunda reportagem da série sobre saúde mental em tempos da pandemia, os assuntos são os idosos, o grupo que mais precisou se resguardar durante a crise, já que são as pessoas de maior risco para a doença - eles representam a maior parte dos mortos. Mesmo nas famílias aonde a doença não chegou, houve impacto na estabilidade emocional: quem mora sozinho se sentiu ainda mais solitário; quem vive com a família convive também com o medo de que os jovens da casa tragam junto do trabalho o vírus. O abandono daqueles que não veem a família há muito tempo foi sentido de forma ainda mais avassaladora.

Desde março, o casal Sonia Regina Guimarães de Oliveira, 68 anos, e Valdevino José de Oliveira, de 71, está em casa. Ela deixou uma rotina de sair de casa todos os dias de madrugada para cozinhar para outros idosos, pois trabalhava em uma clínica de repouso, e ele deixou de fazer as viagens que fazia mensalmente, para se protegerem e evitar a contaminação pelo coronavírus. Para passar o tempo e lidar com os sentimentos conflitantes que a pandemia trouxe, montaram uma horta e a família até aumentou com a chegada da gata Amora.

Os almoços de família na casa de Sonia e Valdevino, em que a família toda se reunia todos os domingos, deixaram de existir. No lugar disso, as chamadas de vídeo pelo telefone e as passadas de carro em frente à casa, assim mesmo, de longe. As compras no mercado passaram a ser feitas pela filha Fabiane ou pela nora Raquel e o aplicativo para pedir os itens de casa se tornou uma opção. As primeiras visitas, inclusive no dia das mães, foram feitas de longe, com presentes deixados no portão. Agora, o pessoal até entra na casa de Sonia e Valdevino, mas só para ver se está tudo bem, e já vai embora.

Sonia, com saudades dos netos Rafael e Guilherme, conta que fez muitas coisas para passar o tempo. "Na primeira semana você arruma gaveta, guarda-roupa, aí vai chegando um momento que não tem mais nada. Fiz crochê, fiz costura, comprei uma máquina para passar o tempo, fizemos uma horta, com a mão no barro. Arrumamos um gatinho, coisa que nunca imaginei."

Ocorreram também as brigas entre o casal - foi muito tempo junto, e o estresse acabou aparecendo, principalmente por conta da teimosia de Valdevino, que insistia que queria sair de casa. Nessas horas, a mulher apelava para os filhos para impedir. Sonia conta que teve também insônia e precisou tomar remédio para conseguir dormir. "Não dormia nem de dia nem de noite. Agora parece que aquele desespero passou, porque você vai aprendendo a conviver. Eu li oito livros em dois meses, a religião me ajudou muito", conta a ex-cozinheira - segundo ela, a crise da Covid serviu para ela refletir que já está cansada da rotina corrida, de levantar de madrugada, e que agora quer aproveitar um pouco mais a vida, cuidar mais de si com exercícios físicos e curtir os netos.

Ivani Aiub, de 79 anos, não ficou em isolamento o tempo todo, mas também teve a vida impactada pela pandemia. "Está muito estressante, a gente sente uma depressão", relata. Sem filhos, a promotora de vendas aposentada, mas ainda atuante, é bastante ligada aos sobrinhos e sente falta da convivência com amigos. "Continuo fazendo supermercado, feira. Dá essas angústias de ver os acontecimentos, isso deprime um pouco, você só escuta falar falar de coronavírus."

De acordo com a psicóloga Luana Pinheiro Marangoni, são vários os impactos da pandemia e das medidas para contê-la. "Com destaque para o medo, por exemplo, de ser infectado, transmitir a doença, vir a falecer ou mesmo perder pessoas queridas, bem como a frustração e a solidão que podem ser provocadas em decorrência da mudança da rotina e do distanciamento social."

A especialista pontua que o avanço do tempo leva a perdas físicas, sociais e cognitivas para os mais velhos, e a pandemia representa ainda mais perdas. "O que vai exigir intensa elaboração emocional do sujeito que envelhece, também porque as pessoas podem se sentir sozinhas ou mais ansiosas do que o normal. Para quem já sofre de um transtorno mental, como depressão, o confinamento pode facilitar o agravamento do quadro", elucida a psicóloga.

Segundo Luana, muitos negam a realidade e tentam resgatar o modo como conduziam a vida antes da crise de saúde, mas que algumas coisas podem sim ter vindo para ficar. "A mudança que ocorre pode ser um choque externo crucial que transforma partes de nossas vidas, que sirva para valorização das relações familiares e da vida, e que venhamos aprender ser presentes na vida das pessoas que amamos. Essa mensagem é importante para que os idosos se sintam mais seguros e acolhidos."

A psicóloga comportamental e coordenadora do setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Universidade Federal de São Paulo, Denise Pará Diniz, explica que a saúde mental dos idosos já tende a ser mais fragilizada, tendo sido agravada com a pandemia e as medidas mais restritivas de isolamento social. "A consequência negativa é que eles estão se sentindo mais sozinhos, fora os impactos na organização diária, pois foi totalmente modificada e estão em isolamento", destaca.

Denise ressalta que a brusca mudança, com os idosos impossibilitados de sair de casa, por conta do vírus, fez com que muitos se sentissem sozinhos. "Todos nós tivemos que se organizar, mas os idosos, que já passam por inúmeras adaptações, até encontrar uma rotina, tiveram que se adaptar novamente nessa nova realidade de ficar em casa".

Isolamento saudável

Segundo a geriatra da Comissão de Imunização da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Maisa Kairalla, a recomendação é que os idosos não sejam privados de tudo durante o isolamento, mantendo atividades saudáveis. "Categoricamente preconizamos que os idosos façam o isolamento. Só que isso tem que ser uma medida saudável, não para privar o idoso de tudo e abandonar. Então falamos muito de isolamento humanizado", fala.

1. Evite ficar concentrado única e exclusivamente nas notícias relacionadas ao coronavírus. Procure assistir a filmes e ler livros;

2. Mantenha-se ativo: prepare suas receitas na cozinha, arrisque novos pratos. Faça os exercícios dentro de casa, de acordo com suas possibilidades e limitações físicas. Evite ficar sentado ou deitado o dia todo;

3. Distanciamento e isolamento social não significam solidão. Por isso, faça contato com os amigos e familiares por meio de chamadas de vídeo;

4. Mantenha a espiritualidade atividade. ndependente de sua crença, a espiritualidade ontribui com o envelhecimento saudável. Por isso, ore, medite ou reze;

5. Cultive cautela, paciência e sabedoria. Uma ótima dica é se morar com netos ou filhos, fazer jogos em família, como dominó e dama. Esses jogos ajudam a "matar o tempo";

6. Essa vai para os netos e filhos: não infantilize o idoso, isso pode afetar sua autoestima. Deixe que eles expressem seus desejos e opiniões e mantenham a autonomia, definindo os horários para realizar as tarefas do dia a dia. Ofereça ajuda quando for necessário;

7. Pergunte e converse com os idosos, sobre suas histórias antigas e reveja junto delas fotos de momentos importantes, que tragam boas recordações. Isso ajuda a dar sentido positivo às suas experiências e reforça sua importância na vida de familiares e amigos.

8. A tecnologia está aí para ser usada: incentive que os idosos envie mensagens de texto, áudio e vídeo e faça chamadas.

9. As boas e velhas cartas também são recursos possíveis. Dá para enviar desenhos dos netos, por exemplo.

10. Mesmo dentro de casa, procure encontrar um lugar onde o idoso possa tomar banho de sol.

11. Quem mora sozinho deve pedir ajuda quando necessário, sem medo de ser inoportuno ou "dar trabalho", pois nesse momento, principalmente, um deve ajudar o outro. Música, livros, filmes e outras atividades que possam ser feitas em casa ajudam a passar o tempo. Esteja atento aos idosos à sua volta e saiba se pode ajudar de alguma forma.

Fonte: Denise Pará Diniz, Luana Pinheiro Marangoni, Drauzio Varella, reportagem.

 

Antes da pandemia, a aposentada Leonice de Fátima Camargo, de 65 anos, gostava de encontrar os amigos no grupo da melhor idade de Rio Preto, mas tudo mudou: reuniões no grupo foram suspensas e até as visitas dos familiares tiveram que passar a ser de forma virtual. Morando sozinha, ela foi uma das idosas que mais sentiram o impacto do isolamento social nos últimos seis meses.

"É um tédio muito grande, eu faço palavras cruzadas, pego a Bíblia e leio um pouco. Ai eu enjoo de ler. Ainda vou para o meu quartinho de costura, arrumo o que tem que arrumar. Confesso que já teve dia de eu chorar muito", contou a aposentada de Rio Preto.

Por pertencer ao grupo de risco da Covid-19, Leonice e outros 28 milhões de brasileiros com mais de 60 anos - número que representa 13% da população do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) -, precisaram enfrentar um confinamento mais rigoroso do que os outros grupos sociais. O que provocou reflexos também na saúde mental dos idosos, que já são suscetíveis a desenvolverem doenças relacionadas ao comportamento mental.

Prova disso é que uma pesquisa feita pela Associação Americana de Psiquiatria Geriátrica indicou que 20% da população acima dos 55 anos têm algum tipo de problema de sua saúde mental. Os mais frequentes identificados foram comprometimento cognitivo severo e transtornos de humor, como ansiedade e depressão.

A coordenadora do setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Unifesp, Denise Pará Diniz, destaca que, em caso de idosos que já apresentavam quadro inicial de transtornos mentais, a tendência é de apresentarem durante o isolamento mais sintomas das doenças. "O confinamento acaba facilitando o agravamento do quadro de saúde desse idoso em relação a esses transtornos mentais", explica.

Contudo, aspectos físicos e comportamentais até por chamada de vídeo podem demonstrar se tudo está bem na vida dos avós ou pais isolados. "Ele pode apresentar queixas físicas, é importante a família observar a intensidade desses relatos. O pessimismo também é uma outra forma diferente de demonstrar. A falta de energia, desesperança, de falar "eu nunca mais vou sair de casa". Alterações no sono e no apetite, além de incômodos intestinais ou não querer conversar são sintomas", pontuou.

Para idosos que moram sozinho, como é o caso de Leonice, o recomendado é pedir ajuda quando necessário, sem medo de ser inoportuno ou "dar trabalho". Especialistas em saúde mental também recomendam manter-se ativo, ou seja, para quem está acostumado a fazer atividades físicas, mesmo não podendo sair, pode fazer dentro de casa.

"Deixe sempre ele falar, escute e o acolha. Porque nessa conversa você pode notar os impactos do isolamento na saúde mental deles através simplesmente da conversa. Os idosos precisam ter um espaço de escuta. Outra questão muito importante é não infantilizar o idoso, como falar "papaizinho", afirmou Denise.