A fé em Nossa Senhora e o frei 'construtor'

CRÔNICAS DO MARIVAL

A fé em Nossa Senhora e o frei 'construtor'

Trecho da canção "Paisagem da Janela" traduz a força que emana da Basílica Menor de Nossa Senhora, no coração da Boa Vista, em Rio Preto; um convite para reflexão neste momento delicado que atravessamos


Basílica
Basílica - Guilherme Baffi

O dia amanhece e nos perguntamos: estamos acordados? O dia amanhece e nos perguntamos: tudo isso passou? O dia amanhece e duvidamos de nossos sentidos: tudo estava aqui, agora tudo perdeu a sua ordem...

A pandemia que todos atravessamos une opostos que antes viviam em prateleiras distintas, independente do saldo bancário ou da total ausência deste. A insegurança do momento coloca todos indistintamente sobre uma corda bamba. Móvel feito um pêndulo, a corda se esgarça à medida que o tempo passa. Quanto mais ela suportará?

Nestes tempos estranhos e a despeito de nossas crenças individuais, inevitável não acordarmos e nos perguntarmos: o que estamos presenciando é real?

O confortável, o cômodo, o tranquilo, a rotina, nossos planos… Tudo foi colocado num liquidificador gigante. Deste caldo, o que resulta é o que temos ou teremos daqui pra frente. Nosso novo roteiro, naquilo que está anos-luz apartado do sentido do que possa ser considerado normal.

Amanhece neste domingo, 11 de outubro. Enquanto planejamos e arquitetamos nossos planos dominicais, ali na Boa Vista, onde o relevo se eleva - alta o bastante para ser vista e admirada ao longe - uma torre cercada de anjos silentes e vigilantes predomina na paisagem rio-pretense. Como imersa na obra-prima de Lô Borges e Fernando Brant (Paisagem da Janela), a visão da Basílica Menor de Nossa Senhora Aparecida é por certo um sinal de glória.

Momento perfeito para reflexão, que transcende a usual conotação de crença religiosa, como nos lembra o psicanalista, filósofo e sociólogo alemão Erich Fromm, para quem o amor é um ato de fé. "Quem tiver pouca fé, também terá pouco amor", sentencia o pensador.

Ato de fé como o que gerou a própria Basílica Menor. Fruto da promessa do então bispo de Rio Preto Dom Lafayette Libânio, aquele que aqui chegou de trem. Durante a Revolução de 32, ele fez a promessa que, se as forças de Getúlio Vargas não invadissem a cidade, lutaria para ter uma igreja em homenagem a Nossa Senhora Aparecida. Como não houve confronto, ele cumpriu a promessa. As obras começaram ainda na década de 1930 e foram finalizadas na década de 40. A primeira missa ocorreu em 1940, embora tenha sido consagrada como solene Santuário em 1943. Onze anos depois, em 1954, o Papa Pio XII elevou Santuário como categoria de Basílica Menor.

O frei construtor

Mas esta história de fé tem outro personagem não menos importante. Coube ao frei alemão Paulo Luig, em 1938, iniciar a construção do prédio santo no coração da Boa Vista. O franciscano era um religioso carismático e determinado, qualidades fundamentais para arrebanhar fiéis e conseguir apoio para a empreitada.

Quando assumiu a missão confiada a ele por Dom Lafayette, Luig trazia algumas experiências que também ajudaram-no a materializar o projeto. Antes de desembarcar por aqui, o frei havia sido um dos construtores do famoso convento e igreja Santo Antônio do Pari, no bairro de mesmo nome na capital e também guardião do histórico Santuário de Santo Antônio do Valongo, em Santos.


Foi dessa forma, com apoio da comunidade católica rio-pretense da época e com a experiência em projetos similares, que o religioso tornou um sonho possível. A "Igreja da Boa Vista" foi, aos poucos, ganhando vida e transformou a paróquia no que hoje é a Basílica Menor de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

Arquitetura imponente

Uma grande nave central, onde ficam os bancos até a chegada do altar, duas naves laterais com 13 altares, juntamente com o presbitério, o batistério e o átrio formam a Basílica. Quem entra pelo lado esquerdo da igreja depara com as minicapelas. A primeira é do calvário de Cristo. Em seguida, a de Nossa Senhora do Carmo, a de Santa Ifigênia, a de Santo Antônio e a de São José. Os altares vistos por quem entra pelo lado direito do templo são os de Santa Terezinha do Menino Jesus, São Benedito, São Sebastião, São Francisco e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. No altar central da Basílica está a imagem de Nossa Senhora, tendo ao lado a capela do Santíssimo.

A Basílica tem 22 metros de frente, 50 metros de fundo e 12 metros de altura (do assoalho ao teto). A torre, de 56 metros, com uma cruz de quase sete metros, torna-a uma das mais altas da cidade. O piso é de ladrilho hidráulico, formando um tapete até a chegada do altar. Entre a nave principal e as laterais, há uma sequência de colunas, pintadas de forma a dar a impressão de ser de mármore. As colunas, pinturas e esculturas da Basílica foram feitas pelo artista plástico Paulo Olivieri. A iconografia arremata os tetos da igreja, com ilustrações de passagens da vida de Cristo e de São Francisco de Assis. Os painéis foram pintados na década de 40, pela firma Links e Filhos, que reproduziu vários quadros famosos do Renascimento.

 

A fé se manifesta pelos mais diferentes motivos e faz surgir forças antes impensáveis. Assim foi em dezembro de 1962 a jornada de fé da família Tozato. Eddio e a esposa Aparecida chegaram a Rio Preto no ápice do desespero, em busca da salvação da única filha, Edina Aparecida Tozato, de 11 meses de idade. A criança havia engolido um caroço de milho que, uma vez aspirado pelas vias aéreas, bloqueou as ramificações dos pulmões.

O casal humilde, morador de uma fazenda de Suzanápolis, levou a menina primeiro para Pereira Barreto. Os médicos muito lutaram, mas não conseguiram retirar o objeto estranho. "Seu Eddio, infelizmente sua filha não tem salvação", disseram os doutores, conforme relatou reportagem do Diário. Então levaram Edininha, como era chamada, para Araçatuba. Seu Eddio e dona Aparecida, infelizmente, ouviram a mesma sentença de que "a menina não tinha mesmo salvação".

Agarrados ao último fio de esperança, chegaram à Santa Casa de Rio Preto e entregaram a criança, já em estado gravíssimo, aos cuidados dos médicos Leonard Grosser e Antonio Lima. Foi quando a mulher falou ao marido: "Se nossa filha se salvar, nós vamos de joelho daqui da Santa Casa até ao altar de Nossa Senhora Aparecida".

A garotinha, felizmente, foi salva e assim a promessa se cumpriu. Seu Eddio e dona Aparecida desceram de joelhos as escadarias da Santa Casa na tarde daquele 17 de dezembro e por três horas rumaram pelas ruas da Boa Vista até o altar de Nossa Senhora, na Basílica.

Estava cumprida a promessa. Os dois, pai e mãe, com os joelhos sangrando, mas com o coração inundado de amor e fé.