Rio Preto tem 79.391 moradores na faixa etária acima de 60 anos

PANDEMIA E TERCEIRA IDADE

Rio Preto tem 79.391 moradores na faixa etária acima de 60 anos

Rio Preto chegou à marca de 79,3 mil idosos, segundo a Fundação Seade, e ultrapassou o número de crianças; para esse público, a pandemia impôs um confinamento ainda mais rigoroso


Osvaldo Valeretto, 74 anos, tenta manter-se ativo durante a pandemia
Osvaldo Valeretto, 74 anos, tenta manter-se ativo durante a pandemia - Johnny Torres 30/9/2020

A pandemia impôs um confinamento rigoroso aos idosos, grupo considerado como um dos mais vulneráveis e de maior risco ao coronavírus. Por isso, atividades destinadas ao público com idade acima de 60 anos continuam suspensas e sem prazo para retornar. Para quem tinha uma vida ativa antes do início das regras de isolamento social, o desafio é encontrar alternativas de como ressignificar a qualidade do tempo e manter a saúde mental sem se colocar em risco.

E não se trata de uma parcela pouco representativa da população. Segundo dados da Fundação Seade, o número de idosos em Rio Preto já ultrapassou o de crianças com idade de zero a 14 anos. A estimativa é de que, em 2020, a cidade tenha atingido a marca de 79.391 habitantes com mais de 60 anos. Número 8% maior do que o de crianças (73.178 habitantes). A previsão é de que em 2040 os idosos representem um quarto da população de Rio Preto.

Não é por menos que, há quase duas décadas, a Organização das Nações Unidades (ONU) instituiu o Dia Internacional do Idoso. Celebrada neste quinta-feira, 1º de outubro, a data foi criada com o objetivo de provocar as seguintes reflexões: de que é preciso pensar em políticas públicas que visem o aumento da qualidade de vida na terceira idade e de que a idade chega para todos.

3ª idade e pandemia

Assim como os eventos que dependem de aglomeração para serem realizados, o idoso será o último a ter sua rotina liberada, já que a orientação dos especialistas do Centro de Contingência do Coronavírus do Estado é de que esse grupo continue em isolamento e evite frequentar locais públicos e privados, mesmo na fase amarela do Plano São Paulo. Para se ter uma ideia, o Sesc Rio Preto retomou suas atividades esportivas em setembro. Na ocasião, a unidade passou a receber parte da população, mediante agendamento, com exceção dos idosos e de crianças de até 12 anos.

Cuidar da saúde e do bem-estar proporciona uma maior longevidade e qualidade de vida na velhice. Apesar de ser um senso comum, poucos se preocupam com a saúde mental diante do isolamento imposto aos mais velhos.

A pandemia serviu para evidenciar a sensação de solidão dos idosos, afirma Alexandre Kalache, epidemiologista especializado em gerontologia e presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR). "Existe quase que uma culpabilização dos idosos. Eles escutam coisas como 'sai da rua', 'você vai me prejudicar', 'vai ficar doente e gastar dinheiro'. O discurso todo é do preconceito, é o 'idadismo' que aflorou com a pandemia", aponta o pesquisador. Esse comportamento, contribui ainda mais para o isolamento e sentimento de ansiedade na terceira idade.

Kalache ressalta que, biologicamente, os idosos têm um risco maior diante da infecção, mas isso está ligado à pré-existência de doenças. "O risco está muito mais atrelado ao fato da comorbidade, à função de você já vir doente e não à idade", destaca.

Mas ainda há quem seja exceção. "O que eu sei é que a gente não pode ficar em casa se lamentando, temos que trocar a atividade que fazíamos lá fora por outra aqui dentro de casa", afirma o aposentado Osvaldo Valeretto, 74 anos.

Antes da pandemia, seu Osvaldo sempre foi muito ativo e independente. Frequentava uma média de cinco bailes por semana e também participava das atividades do grupo de longevidade do município e de outras associações. Depois de março, a rotina teve que mudar.

Agora, os exercícios e atividades diários são realizadas dentro de casa ou no bairro, de forma individual. No tempo ocioso, ele está aproveitando para se conhecer e para encontrar outras habilidades. Mesmo sem saber se vai ter algum uso no futuro, ele aproveitou uma cama que estava encostada, transformou em um banco e instalou no quintal de casa. "Isso é para não ficar parado", diz.

Membro do grupo de risco, seu Osvaldo sai de casa somente quando é necessário. Como gosta de se sentir independente, quando precisa ir ao mercado ou à farmácia adota todos os cuidados necessários. "Eu sei dos riscos, sou muito mais precavido do que muito jovem por aí. Eu defendo o distanciamento, mas não o isolamento", reforça.

Sempre ativo

É fundamental que o idoso mantenha o corpo e a mente em atividade, reforça o geriatra Lucas Motta Fernandes. O profissional destaca que fazer exercícios é importante para manter a força muscular, consequentemente, reduzindo muito o risco de quedas. "Além de manter-se ativo, com vigor, tem grande impacto positivo nas áreas neurológica e cardiovascular do corpo do idoso", ressalta o geriatra. Em tempos de pandemia, que as ações em grupo estão suspensas, o idoso pode recorrer à tecnologia. "Na internet é possível encontrar aulas específicas para esse grupo, com exercícios que podem ser feitos em casa", diz o profissional, que indica as aulas de ginástica funcional para idosos no Blog do Austa.

Solidão e solitude

Alexandre Kalache destaca a diferença entre os dois termos solidão e solitude. Ele reforça que a solidão é a sensação de vazio, enquanto a solitude é um período no qual você se vê isolado por imposição ou por escolha.

É durante a solitude, que os idosos que estão distantes de suas famílias possuem a oportunidade de refletir de forma introspectiva, reforça o especialista. "Esse é o momento de dar uma sacudida interna e, ao invés de sofrer, você pode aproveitar seu crescimento pessoal", destaca. "Pensar nisso é o que me dá um pouco de esperança para que a gente saia dessa uma sociedade mais coesa. Eu quero acreditar nisso", pontua.

"Eu digo isso para todo mundo. Não adianta ficar parado esperando o tempo passar. Temos que nos mexer e ter fé de que a pandemia vai acabar e vamos voltar a nossa vida", finaliza seu Osvaldo.

 

Está em fase de conclusão o Plano de Trabalho Intersecretarial que pretende incluir Rio Preto na rede global de Cidades Amiga das Pessoas Idosas, movimento da Organização Mundial de Saúde (OMS). A expectativa é de que o documento seja entregue à OMS ainda no mês de outubro.

De acordo com o geriatra e presidente do Conselho do Idoso de Rio Preto, Antonio Caldeira, o plano está sendo desenvolvido há dois anos, e nasceu por meio de uma parceria do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa e da Prefeitura, com incentivo da CPFL. O estudo está sendo organizado pelo Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR).

A metodologia do plano constituiu-se em um processo de escuta que entrevistou mais de 600 idosos de diferentes regiões da cidade, com apoio da Unilago. Com o selo, a Prefeitura terá o compromisso de criar planos de ações integradas que visem melhorar a qualidade de vida dos mais velhos. "Esse olhar não implica só a quantidade atual de idosos, mas também para o número de pessoas que vão envelhecer", destaca Caldeira. "É preciso refletir sobre a perspectiva da longevidade começando já com as crianças. Falar sobre essa conquista e fazê-las entender que um dia vão envelhecer também", finaliza. (FN)

2000

  • 0 a 14 anos: 81.921
  • 15 a 59 anos: 237.704
  • Acima de 60 anos: 38.080

Total: 357.705

2010

  • 0 a 14 anos: 73.707
  • 15 a 59 anos: 277.834
  • Acima de 60 anos: 56.275

Total: 407.816

2020

  • 0 a 14 anos: 73.178
  • 15 a 59 anos: 295.355
  • Acima de 60 anos: 79.391

Total: 447.924

2030

  • 0 a 14 anos: 67.218
  • 15 a 59 anos: 292.360
  • Acima de 60 anos: 106.660

Total: 466.238

2040

  • 0 a 14 anos: 57.538
  • 15 a 59 anos: 274.719
  • Acima de 60 anos: 132.107

Total: 464.364

2050

  • 0 a 14 anos: 51.135
  • 15 a 59 anos: 239.097
  • Acima de 60 anos: 157.397

Total: 447.629

Os investimentos necessários para atender o idoso

SAÚDE - Mais médicos voltados para a população mais velha e exames agendados prontamente. O idoso tem maiores chances de desenvolver diversos males de saúde, como hipertensão, diabetes e problemas vasculares, por isso precisa de muita atenção. Os convênios cobram valores altos e na maioria das vezes inacessíveis para firmar contratos com os mais velhos.

MOBILIDADE URBANA E TRANSPORTE PÚBLICO - Condutores de coletivos capacitados, ônibus adaptados e calçadas e ruas sem desníveis, buracos e percalços, ou seja, que não ofereçam risco de quedas.

ASSISTÊNCIA - Casas de assistência ao idoso que aceitem os mais debilitados - hoje, muitos lares recusam as pessoas que são dependentes, dificultando a vida de familiares que precisam trabalhar. Reforçar o atendimento a quem não tem familiares e vive em situação de vulnerabilidade.

CULTURA, EDUCAÇÃO E QUALIDADE DE VIDA - Acesso dos idosos a dispositivos culturais e ao desenvolvimento pessoal. Grupos e atividades esportivas voltados a essa população.

APOSENTADORIA - O salário mínimo para a terceira idade, que sofre o impacto da inflação de forma diferente que o resto das pessoas, está longe de ser o ideal. Os idosos deixam de se alimentar de forma adequada porque é mais caro comprar frutas, verduras, legumes e laticínios.

SEGURANÇA - Os idosos são vulneráveis a golpes aplicados por pessoas mal intencionadas. Como muitas vezes estão debilitados, ficam vulneráveis também a crimes violentos.