SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | DOMINGO, 14 DE AGOSTO DE 2022
CIDADES

Elas, eles e elxs: entenda como funciona o uso de pronomes neutros

Grupos buscam formas de levar a neutralidade para a língua portuguesa com o objetivo de aumentar a representatividade, mas esbarram em problemas de pronúncia

Arthur Pazin
Publicado em 18/09/2020 às 15:32Atualizado em 22/12/2021 às 08:58
Uso de pronomes neutros leva diversidade para a língua (Freepik/Banco de Imagens)

Uso de pronomes neutros leva diversidade para a língua (Freepik/Banco de Imagens)

"Boa noite a todos, todas e 'todEs'". É assim que o psicólogo rio-pretense e militante da causa LGBTQIA+, Alexandre Felipe de Oliveira, inicia suas lives e eventos, procurando sempre utilizar pronomes neutros (não-binários) da língua portuguesa, ou seja, aqueles que se distinguem do feminino e do masculino.

O objetivo, segundo ele, é enfrentar todas as formas de discriminação e segregação e combater a desigualdade. Para Alexandre, é preciso "desconstruir o sexismo" da língua. "Hoje em dia a contemporaneidade traz à tona questões de representatividade que vão contra você rotular", disse.

Como psicólogo, ele avalia que é importante este processo, uma vez que o olhar do outro tem papel fundamental para a construção da nossa identidade. "Com tudo que acontece a nossa volta, elaboramos e construímos nosso próprio eu. A língua, por exemplo, nos leva também a compor uma concepção do mundo. Por isso, quanto mais neutra, mais você agrega à diversidade", explicou Alexandre.

Nos últimos tempos, o uso de pronomes e adjetivos neutros vem ganhando força e voz entre usuários das redes sociais e também fora do universo online. Para Pâmela Berton Costa, doutoranda em Estudos Linguísticos na área de Estudos Feministas da Tradução da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Preto, não tem como falar de pronome neutro e linguagem não sexista sem pensar na questão das pessoas não-binárias (as que não se identificam nem com o gênero masculino, nem com o feminino), transexuais, intersexo, entre outros. 

A doutoranda disse que são vários os propósitos para se usar o pronome neutro. "Além de marcar o fato de que o homem não é a norma e que não necessariamente a identificação do gênero é a mesma do sexo biológico, outro objetivo é não assinalar de cara para uma pessoa que eu olho e acho que é uma mulher/homem e não necessariamente se identifica como", explicou Pâmela, que definiu a língua portuguesa como sexista pelo fato de o masculino estar marcado como normativo. Ela cita como exemplo a palavra "homem" usada para se referir à humanidade.

Para a doutoranda, o uso do pronome neutro ajuda a respeitar o fato de uma pessoa não se identificar com o gênero que está vendo, mesmo que apresente características biológicas dele. Outra questão ainda mais complexa, segundo Pâmela, é a das pessoas intersexuais, aquelas que nascem com características biológicas masculinas e femininas.

"Quando penso nessas pessoas, não faz sentido dizer que nasceu menino ou menina, porque elas não se encaixam neste binarismo. Como a língua vai recortar o binário?", refletiu a pesquisadora, que reforçou que, para lidar com isso, é importante levar em conta que gênero e sexo não são a mesma coisa, apesar do gênero ser naturalizado como se assim fosse. "É preciso entender que homem e mulher são construções que se baseiam no social e no histórico e não no biológico", disse.

Para a doutoranda, mesmo que o uso não esteja integralmente disseminado, a discussão é importante para que as pessoas entendam que ninguém está impondo a necessidade de existir um outro pronome. "Não adianta nada eu institucionalizar o 'ELXS' como pronome neutro se as pessoas não usarem. Isso parte das necessidades dos grupos de serem visíveis, fazerem presentes na língua. Não é uma discussão fácil. Envolve representatividade", explica.

Apesar de estudar o assunto, Pâmela não faz uso do pronome neutro devido a problemas na fala e na própria escrita, principalmente no que diz respeito a transições para softwares de leitura para deficientes auditivos e visuais. No entanto, recorre a recursos em que não precisa especificar o gênero, usando expressões como "a pessoa autora" ou "quem escreveu o livro". Outros recursos são "as pessoas", "elas e eles", "autoras e autores" (por ordem alfabética). "É preciso estar disposto a encontrar recursos e fazer uso consciente da língua", ressaltou a doutoranda, que acredita que o pronome neutro é mais fácil de ser utilizado em línguas que têm menor marcação do masculino e feminino, como o inglês. Utilização de algumas letras pode gerar dúvidas na hora de falar

Do ponto de vista linguístico, não há regra para usar os pronomes neutros no dia a dia. Luciani Ester Tenani, doutora em Linguística e docente do departamento de Estudos Linguísticos e Literários e do programa de pós-graduação em Estudos Linguísticos da Unesp de Rio Preto, explica que, sob a ótica da Linguística, as relações sociais são dinâmicas e o fenômeno de marcação de gênero neutro é uma expressão de relações sociais que estão em conflito, em tensão.

"A linguagem é uma das arenas em que se observa essa tensão sobre identidade e expressão de gênero/sexo", disse a professora. Ela lembrou que a escrita é uma representação verbo-visual da língua e nem sempre tem relação com o som diretamente.

Tenani explica que a letra "x", por exemplo, representa sons de outras letras: "s" (como em 'extra'), "z" (como em 'exame'), "ks" (como em 'tórax'), "ch" (como em 'xícara'). No entanto, nenhum desses sons caberia em "todxs", levando a refletir sobre quais opções utilizar para o pronome neutro neste caso na hora de oralizar a escrita.

"Há muitas opções, mas nenhuma boa, porque 'x' está no lugar de vogal em 'todxs', ou seja, não dá para falar a sílaba sem vogal. Por isso, a relação entre letra 'x' e o som a ela associado gera um problema na fala", disse a doutora, que acrescentou que, alternativamente, escreve-se "tod@s", embora haja também um problema no uso do símbolo de arroba ('@'), que indica "em" nos endereços de e-mail, funcionando, portanto, apenas na escrita.

Segundo Tenani, a opção "todes" é a única que pode ser falada. Entretanto, a gramática entra em jogo para complicar a situação. "Por exemplo, 'ponte', palavra que termina em 'e', é feminina, mas 'monte', que também termina em 'e', é masculina. O gênero gramatical não tem relação direta com sexo biológico ou expressão social de gênero".

Para resolver as dúvidas, a especialista sugere que o debate público é sempre o caminho mais saudável e explica que pensar a língua é um exercício importante, mas pouco frequente feito de uma perspectiva científica. "A escrita e a fala podem seguir caminhos diferentes justamente porque são modos de dizer e de serem construídas diversas identidades. A língua vive e se constitui de heterogeneidades e diversidades sociais", afirmou a docente. Alguns pronomes neutros utilizados

Ele(s)/ Ela(s) - El@(s), ElX(s), EL(s), ILU(s) (origem no pronome neutro latino 'illud'), ELU(s), ILE(s)

Todos(as) - TodXs, Tod@s, Tods

Dele(s)/ Dela(s) - DEL(s), DEL@(s), DELX(s), DELU(s), DILU(s) (origem no pronome neutro latino 'illud'), DILE(s)

Aquele(s)/ Aquela(s) - Aquel(s), Aquel@(s), Aquelx(s)

Seu/Sua (s) / Teu/Tua (s) - Su(s), Tu(s), Sue(s), Tue(s)

Nosso/Nossa (s) / Vosso/Vossa(s) - Nosse(s), Vosse(s) Glossário

*Cisgênero: Em estudos de gênero, a cisgeneridade é a condição da pessoa cuja identidade de gênero corresponde ao gênero que lhe foi atribuído no nascimento. Por exemplo, alguém que se identifica como mulher e foi designada como mulher ao nascer é uma mulher cisgênera.

Transgênero: Uma mulher trans é uma pessoa que foi atribuída ao sexo ou género masculino ao nascer que possui uma identidade de gênero feminina e um homem trans o contrário.

Diferença entre sexo e gênero: Gênero é uma gama de características pertencentes e diferenciadas entre a masculinidade, a neutralidade, a androginia e a feminilidade. Sexo refere-se às características sexuais e pode ser identificado à nascença por médicos com base nas genitálias, independentemente da futura identidade de gênero da pessoa.

 
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