Hospital de Base de Rio Preto retoma transplantes de órgãos

SOPRO DE ESPERANÇA

Hospital de Base de Rio Preto retoma transplantes de órgãos

Após paralisação durante o pico da pandemia de coronavírus, Hospital de Base retoma transplantes. Marcelo foi o primeiro paciente a passar por procedimento para receber pulmões novos


Marcelo, de 21 anos, foi o primeiro paciente a receber um transplante de pulmão depois que o serviço foi retomado no Hospital de Base
Marcelo, de 21 anos, foi o primeiro paciente a receber um transplante de pulmão depois que o serviço foi retomado no Hospital de Base - Arquivo Pessoal

José Afonso e Maria, ambos moradores de Recursolândia, no Tocantins, não pensaram duas vezes antes de se mudar para Rio Preto, onde estava a única chance do filho Marcelo, de 21 anos, viver: aqui ele poderia passar por um transplante de pulmão. Com fibrose pulmonar causada por infecção por fungos, o jovem foi o primeiro a passar por um procedimento do tipo desde que o serviço do Hospital de Base foi retomado - em julho, no pico da pandemia, os transplantes foram interrompidos, mas a equipe resolveu reativar. Uma paciente precisou ser priorizada na fila por causa da gravidade de seu quadro, mas infelizmente faleceu antes que surgisse um órgão viável. Depois, apareceram os órgãos para Marcelo, que foi operado em 3 de setembro e agora está se recuperando na unidade de terapia intensiva (UTI).

Não só os transplantes de pulmão foram impactados pela pandemia, mas os de todos os órgãos e tecidos - tanto para segurança do paciente que os receberia quanto porque o HB estava com seus leitos lotados de pacientes com Covid-19, principalmente em julho e nas primeiras semanas de agosto.

Recursolândia fica a 1.637 quilômetros de Rio Preto. O lavrador José Afonso Ribeiro Soares, de 56 anos, a dona de casa Maria Zoraide Pereira Lima, de 54 anos, e Marcelo Lima Soares chegaram a Rio Preto em agosto de 2019. Afonso conta que quando a equipe ligou falando que o filho receberia os pulmões a família sentiu um misto de emoções. "Sentiu pavor e alegria, já sentiu que ia dar tudo certo", relata, citando Deus e a equipe médica. "Ele está super bem. Ele vivia com oxigênio, ficava com oxigênio para dormir, qualquer coisinha já cansava. Quando ele se recuperar, tem planos de fazer faculdade, é muito invocado com agronomia", afirma o pai. "Estou muito feliz e esperançoso. Era tudo que a gente precisava, a gente foi em busca desse pulmão e chegou o dia de receber, me sinto muito feliz", comemora.

Segundo Henrique Nietmann, cirurgião torácico e um dos responsáveis pelo serviço, doador e receptor são testados para Covid-19 e a equipe pede uma tomografia torácica do doador. "A gente teve várias ofertas de órgãos e não pôde absorvê-las, não sabia ao certo se o paciente seria submetido a um risco muito grande", diz, sobre o período de paralisação.

Alexandra Regina Siscar Barufi, cardiologista do serviço de transplante de coração infantil do Hospital da Criança e Maternidade (HCM), diz que o serviço nunca foi paralisado. No final de semana ocorreu uma cirurgia e uma menina de seis meses está internada em UTI - ela tem miocardiopatia dilatada e está à espera de um órgão.

Complicações

Os pacientes transplantados estão mais sujeitos a complicações por coronavírus. Um dos motivos para isso são os imunossupressores, medicamentos que tomam para evitar que o organismo rejeite o órgão, que deixam o sistema imunológico mais fragilizado. Conforme Mário Abbud Filho, responsável pelo serviço de transplante de rim, a mortalidade desses pacientes, se infectados pelo coronavírus, é maior.

Os transplantes renais também estão sendo retomados, embora ainda não totalmente. Segundo o médico, durante o pico alguns pacientes que estavam na lista em Rio Preto e para os quais surgiu o órgão foram para São Paulo realizar o transplante, para minimizar o risco de contaminação. "O que a gente não podia fazer era arriscar." Em alguns casos, o procedimento foi adiado para outro momento.

O serviço de transplante de fígado também está sendo retomado, depois de um período com os profissionais aceitando órgãos apenas para os casos mais urgentes. "Temos trabalhado dentro da capacidade hospitalar, com atividade quase plena. Semana passada fizemos dois ou três. Estamos tomando os mesmos cuidados, a epidemia não passou," diz Renato Silva, responsável pelo serviço de transplante de fígado. Em alguns casos, o transplante ainda é recusado, como quando há muitos casos de coronavírus na UTI de onde vem o órgão.

Os transplantes de medula de urgência foram mantidos durante a pandemia. "Os casos crônicos ainda não foram retomados no serviço, estamos priorizando os urgentes", diz João Victor Piccolo Feliciano, responsável pelo serviço. A ideia é retomar por completo nas próximas seis semanas se a pandemia perder força. Foi preciso diminuir os leitos do setor. "Tivemos problema que alguns doadores apresentaram medo de ir para o Centro. O que a gente fez foi trocar medula óssea em centro cirúrgico por aférese", explica o médico - no método de coleta por aférese, o doador não precisa ficar internado.

Com relação às córneas, estão mantidos apenas os procedimentos de urgência e casos priorizados. "Os eletivos a gente ainda não está fazendo, mas está conversando com o pessoal de São Paulo, com a Anvisa, para ver se consegue retomar as atividades", afirma Thaís Shiota Tanaka Chela, responsável técnica do Banco de Olhos.

Tanto receptores quanto doadores estão passando por exames de coronavírus. As mudanças no transplante de cada órgão no Hospital de Base

  • Pulmão - A lista foi reativada e há pacientes em espera. Além dos testes regulares, preciso que exames de imagem do pulmão mostrem que não há indicação de infecção por coronavírus.
  • Córneas - Só estão sendo feitos os transplantes de urgência; os eletivos estão interrompidos.
  • Coração infantil - Há uma criança na fila de espera e os transplantes estão mantidos, com os exames.
  • Rim - O serviço está sendo retomado, com alguns cuidados.
  • Fígado - O serviço foi retomado, seguindo os protocolos.
  • Medula óssea - Foram mantidos os transplantes de urgência e foram postergados os que podiam aguardar mais um pouco. O HB recebeu pacientes de vários Estados, pois os serviços haviam sido interrompidos e os casos eram urgentes. A ideia é retomar o serviço por completo em seis semanas, se a pandemia arrefecer.

Número de transplantes

2019

De janeiro até junho

  • Córnea 26
  • Medula 76
  • Fígado 30
  • Coração 4
  • Rim 56
  • Pulmão 3

2020

De janeiro até junho

  • Córnea 22 (até março)
  • Medula 73
  • Fígado 32
  • Coração 1*
  • Rim 51
  • Pulmão 3

*O serviço de transplante de coração está interrompido para reestruturação, a pausa não tem relação com a pandemia.

Está se recuperando na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital da Criança e Maternidade (HCM) o rapaz de 17 anos que no último sábado, 12, passou por transplante de coração. O órgão veio de uma jovem de 27 anos, moradora de Novo Horizonte, que faleceu no Hospital Unimed São Domingos, em Catanduva, depois de sofrer um aneurisma cerebral.

De acordo com Alexandra Regina Siscar Barufi, cardiologista do serviço de transplante de coração infantil do HCM, o jovem está se recuperando, acordado, conversando e já respira sem ajuda de aparelhos. Esse foi o décimo transplante de coração realizado pelo HCM. Ele tinha miocardiopatia dilatada, doença que dilata o coração e prejudica o bombeamento de sangue. (MG)