Qualidade do ar de Rio Preto está entre as piores do Estado, segundo a Cetesb

A COR DA POLUIÇÃO

Qualidade do ar de Rio Preto está entre as piores do Estado, segundo a Cetesb

Alta concentração de poluentes, principalmente devido às queimadas, deixou céu de Rio Preto com uma névoa alaranjada. Cetesb classificou qualidade do ar como "Muito Ruim" nesta segunda


Região da Represa Municipal: poluição do ar deixou Rio Preto com tons alaranjados neste domingo, 13
Região da Represa Municipal: poluição do ar deixou Rio Preto com tons alaranjados neste domingo, 13 - Guilherme Baffi 13/9/2020

A fumaça produzida pelos incêndios no antigo IPA e em outras áreas da região deixou a qualidade do ar de Rio Preto entre as piores do Estado. A média diária da concentração de poluentes finos (MP 2,5) às 11h desta segunda-feira, 14, bateu os 81 microgramas por metro cúbico de ar, enquanto o tolerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 24 horas é de até 25 microgramas.

No mesmo período, o boletim diário por poluente da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) mostrou que a concentração deixou a cidade com a pior classificação do Estado. Enquanto na ponta da praia de Santos, o índice de MP 2,5 foi de 33, em Rio Preto esse valor bateu os 127 - o limite é 200 - em situação de "muito ruim". Valor acima também do índice de 70 registrado na Ponte dos Remédios, na Marginal do Tietê, na Capital, e dos 85 registrados em Jundiaí.

O MP 2,5 pode causar câncer, arteriosclerose, inflamação de pulmão e agravamento de sintomas de asma, podendo até levar à morte.

As queimadas também produzem as partículas inaláveis, identificadas como MP10. Os aparelhos da estação da Cetesb de Rio Preto não registraram as concentrações, pois está com problema. Mas na estação de Catanduva, a concentração do poluente registrou picos de 279 microgramas por metro cúbico de ar, no período analisado pela reportagem. Com isso, na classificação estadual do poluente, Catanduva ficou como a pior do Estado, com índice de 141 e classificação também "muito ruim".

Essa condição, segundo a médica da estratégia da saúde da família e emergencista da Secretaria Municipal de Saúde Suelen Lemos Ramos Sousa Cacuzzo, é prejudicial à saúde, em especial em pessoas já pré-dispostas. "Existe um prejuízo na umidade do ar muito baixa (abaixo de 20%) somada aos fatos dos poluentes e queimadas, tudo pode agravar e causar uma piora nos pacientes suscetíveis a hiperatividade das vias áreas", disse. "Pacientes com asmas, seja uma asma intermitente (sazonal) ou aqueles pacientes asmáticos persistente, e com enfisemas podem ter o quadro agravado", completou.

Em pacientes com quadro de Covid-19, a médica afirma que aqueles que estão em fase de recuperação em casa também podem ser prejudicados pela poluição. "Temos muitos pacientes que, mesmo passando da fase inflamatória, acima dos 14 dias, sofre do que chamamos de síndrome pós-Covid. A lesão causada pelo vírus pode piorar quadros asmáticos e enfisematosos", explicou.

A gerente da Divisão de Qualidade do ar da Cetesb, Maria Lucia, afirma que sem chuva a tendência é manter essa condição de poluição suspensa, uma vez que os ventos, mesmo que não fortes, podem movimentar esses poluentes de um lado e de outro. Para a gerente, a população pode colaborar ao não atear fogo, evitar varrer calçadas para não levantar poeira, além de evitar sair de casa com veículos próprios. "Porque precisamos ir na padaria de carro se está três quarteirões de casa?", questionou.

Para Maria Lúcia, este é o momento mais delicado da estiagem e que requer toda atenção e cuidado. "Idosos e crianças têm que ficar em casa. Um jeito de evitar uma maior exposição. A população precisa ficar em alerta, não se exponha em horários críticos, como o período da tarde", orientou. "Vasilhas de água em casa, toalhas molhadas, cuidados com crianças e idosos. É isso que recomendamos", finalizou.

A temperatura máxima na cidade nesta segunda-feira, 14, ficou em 36 graus, segundo medição da Cetesb, com 20% de umidade relativa do ar.

Clima nos últimos dias

Temperatura máxima

  • Sexta-feira, 11: 37,7 (maior temperatura do ano, pelos registros da Cetesb)
  • Sábado, 12: 37,3 graus
  • Domingo, 13: 35,8 graus
  • Segunda-feira, 14: 36 graus

Umidade relativa do ar (mais baixa)

  • Sexta-feira, 11: 17%
  • Sábado, 12: 18%
  • Domingo, 13: 21%
  • Segunda-feira, 14: 20%

Índice de MP 2,5 (em média)*

  • Sexta-feira, 11: 56 micrômetros por metro cúbico (moderada)
  • Sábado, 12: 85 micrômetros por metro cúbico (ruim)
  • Domingo, 13: 97 micrômetros por metro cúbico (ruim)
  • Segunda-feira, 14: 127 micrômetros por metro cúbico (muito ruim)
  • * Partículas de material sólido ou líquido suspensas no ar, na forma de poeira, neblina, aerossol, fuligem, entre outros, com diâmetro aerodinâmico equivalente de corte de 2,5 micrômetros. Estudos indicam que pode causar câncer, arteriosclerose, inflamação de pulmão e agravamento de sintomas de asma

Queimadas

Região

  • 2019 (ano inteiro): 3.452
  • 2020 (até 13/9): 3.565

Rio Preto

  • 2019 (ano inteiro): 777
  • 2020 (até 13/9): 892

Como evitar a ocorrência de queimadas

  • Jamais, ao trafegar em pistas, arremessar pontas de cigarros acesos ou fósforos nos canteiros das estradas, pois caso ocorra o incêndio, pode prejudicar a visibilidade dos motoristas
  • Não soltar balões
  • Evitar a queima de mato em pastagens e terrenos baldios e próximo a linhas de transmissão de energia e estradas de ferro
  • Não acender fogueiras, principalmente na beira de rios
  • Construir aceiros de forma adequada e com margem de segurança
  • Ao atravessar trilhas, não arremessar pontas de cigarros
  • Evitar manifestações religiosas com uso de velas em vegetação seca e rasteira
  • Manter terrenos baldios limpos e capinados

Fonte: Cetesb e Bombeiros

O Ministério Público de Rio Preto instaurou inquérito para investigar a responsabilidade de pelo menos cinco instituições ligadas ao incêndio da área do Instituto Penal Agrícola (IPA). O promotor de Justiça Sérgio Clementino será o responsável pela apuração. Como pontapé inicial, Clementino notificou o Corpo de Bombeiros, a Defesa Civil, a Cetesb, a Polícia Militar Ambiental e a Prefeitura para prestarem informações.

"Todos os envolvidos têm informações sobre o incêndio. Vamos colher informações para responsabilidades e providências", afirmou o promotor. Os envolvidos têm 15 dias úteis para enviar as respostas. Nesta segunda-feira, 14, a Polícia Ambiental concluiu o termo de vistoria dos mais de 650 hectares queimados na região do IPA, com resultado inconclusivo, segundo apurou a reportagem, sobre o que teria provocado as primeiras chamas.

O incêndio do IPA começou na quarta-feira, 9, nas margens da avenida Abelardo Menezes e atingiu áreas inteiras da Floresta Estadual do Noroeste Paulista e da Estação Ecológica da Unesp. Áreas de vegetação, replantio e preservação ambiental dos institutos Florestal e de Pesca também foram atingidas.

Nesta segunda-feira, 14, a Prefeitura informou que reuniu os integrantes do Comitê Gestor de Prevenção e Combate às Queimadas para fazer um balanço dos prejuízos. A Secretaria do Meio Ambiente de Rio Preto afirmou que 76 das 106 mil mudas plantadas em 13 áreas diferentes de replantio foram consumidas pelas chamas - o município tinha gasto cerca de R$ 1,8 milhão com o trabalho. "Teremos que recuperar essa perda nos próximos anos", comentou a secretária, Kátia Penteado.

De acordo com o balanço da Prefeitura, o fogo consumiu 93% de 168,9 hectares da Estação Ecológica e 73% dos 277 hectares da Floresta do Noroeste Paulista. O município afirmou que fez um plano de reação para recuperação da área e que uma das providências que devem ser tomadas é a criação de uma base fixa no local com efetivo e viaturas. (FP)