Patrões trocam o pagamento de ônibus por viagens de aplicativo

FUGA PARA O CARRO

Patrões trocam o pagamento de ônibus por viagens de aplicativo

Receio de contaminação faz patrões trocarem o pagamento de ônibus por viagens de aplicativo para funcionários chegarem ao trabalho; veja como evitar transmissão nos carros


MUDANÇA 
A motorista por aplicativo Marta Baraldi Dezidério (foto) higieniza o carro a cada corrida. 
Receio de contágio pelo coronavírus 
levou muitos empregadores a substituir o vale transporte por carros de aluguel para os funcionários Pág. 3B
MUDANÇA A motorista por aplicativo Marta Baraldi Dezidério (foto) higieniza o carro a cada corrida. Receio de contágio pelo coronavírus levou muitos empregadores a substituir o vale transporte por carros de aluguel para os funcionários Pág. 3B - Guilherme Baffi 11/9/2020

Maria, que prefere não se identificar, voltou a trabalhar como diarista durante a pandemia e o medo da contaminação pelo coronavírus fez com que os seus patrões trocassem o pagamento mensal do vale-transporte de ônibus por viagens em aplicativos de carona. Ela é uma entre os inúmeros profissionais brasileiros que estão trocando as viagens de ônibus pelos carros de aplicativo para chegar ao trabalho. Essa fuga para os apps, no entanto, também exige cuidados tanto por parte dos motoristas como dos passageiros para evitar a contaminação.

Há três anos Marta Baraldi Dezidério, de 48 anos, resolveu apostar no carro para trabalhar. Ela é motorista de aplicativo e junto com o filho e o esposo tira a renda das viagens por Rio Preto. Em março, tudo mudou na rotina da família. Com o decreto estadual de isolamento social as viagens caíram e o medo de contaminação fez a família adotar novas medidas para controle da doença. "No começo da pandemia, chegava a cancelar corrida próxima do aeroporto. E, mesmo agora, se é para hospitais que só atendem pacientes com Covid, cancelo. A gente trabalha de máscara e se o passageiro não está com a proteção não levo", diz Marta.

Entretanto, mesmo com as medidas de precaução, como o uso contínuo do álcool em gel, janelas abertas e a máscara obrigatória, a família não conseguiu evitar de ser contaminada: os três precisaram se afastar do volante, em agosto. "Eu peguei Covid no começo de agosto. Tive febre, muito cansaço, mas não precisei ficar internado. Meu pai e minha mãe também pegaram. Ele chegou a ficar internado, mas já está bem. Acredito que fui contaminado por um passageiro, mas não dá para saber", afirma o filho de Marta, Fernando Baraldi Dezidério, 31 anos.

Segundo a infectologista e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Eliana Bicudo, mesmo no carro, onde as pessoas imaginam ter menos chances de infecção, por não ter aglomeração, é necessário adotar medidas para evitar contaminação. "Em relação ao motorista, ele pode criar uma divisória de acrílico entre ele e o passageiro. Essa barreira mecânica ajuda muito, como um caixa de lotérica, e isso não dificultaria tanto a comunicação dele. Já o passageiro sempre tem que se preocupar com a higiene do automóvel, fazer a limpeza da mão quando entrar, durante a viagem e após a saída. Não levar as mãos à boca e estar sempre de máscara. Se você tomar esses cuidados, vai evitar a contaminação."

Marta, que foi infectada em agosto, permanece afastada do volante. Isso porque ela solicitou para a empresa de aplicativo uma assistência financeira enquanto estivesse se recuperando. "Eu solicitei e recebi. Preciso ficar 28 dias afastada do trabalho, já estou recuperada, agora só aguardando o fim do prazo para voltar de forma segura", diz.

Apesar do aumento de demanda com a reabertura do comércio, o setor de aplicativos de carona também sentiu os impactos da pandemia. "No começo teve uma queda de quase 90% das corridas, parou mesmo, porque o pessoal não saía de casa. Agora já está retornando e voltando à normalidade. Eu continuei normal durante toda a pandemia, não parei, mas eu tinha que trabalhar quase o dobro de horas para ganhar o que ganhava antes", destaca Fernando.

Com a reabertura comercial, o receio de contaminação das pessoas no transporte coletivo devido a aglomerações fez com que crescesse a procura pelos aplicativos - como no caso de Maria, em que os patrões optaram pelo carro para que ela fosse trabalhar. Especialistas, no entanto, temem que o incentivo ao carro provoque mais congestionamentos nas cidades e até acidentes de trânsito, o que provocaria maior procura de leitos nos hospitais que já sofrem para atender todos os pacientes de Covid-19. "Quanto mais motoristas de veículos privados temos nas ruas, mais congestionamento. Maior tempo de viagem, maior exposição a potenciais acidentes de trânsito. E muitas vezes eles não estão só circulando com passageiro, às vezes estão à procura de passageiros", diz a gerente de mobilidade urbana da WRI Brasil, Cristina Albuquerque.

Uma pesquisa feita em abril pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em parceria com Moovit com 33 mil usuários do transporte público em cidades latinoamericanas apontou que 3% dos entrevistados no Rio e em São Paulo pretendem evitar o transporte público, mesmo que as restrições impostas pelo vírus sejam suspensas.

Para o professor do departamento de Administração Geral e Aplicada da Universidade Federal do Paraná, Cassius Tadeu Scarpin, essa migração é momentânea, pontual e limitada. "Tem dois tipos de pessoas que estão usando o aplicativo nesse momento: as obrigadas a irem ao trabalho e as que têm condições financeiras para pagar e as que já usavam os aplicativos. As pessoas estão usando momentaneamente por dois motivos: primeiro pela redução dos horários de ônibus que aconteceu em boa parte das cidades. Segundo por uma condição psicológica. Ou a pessoa ou a família tem medo, ou a empresa orienta por opção de segurança", afirmou o professor.

Cristina ressalta também um possível impacto nas tarifas de ônibus do transporte coletivo, caso a migração continue ocorrendo nos próximos meses. "Normalmente, quem faz as viagens por aplicativo são pessoas que têm maior poder aquisitivo ou que moram perto do seus destinos, e que vale mais a pena pelo baixo valor do aplicativo comparado ao ônibus. Quem mora mais longe depende do transporte coletivo vai acabar pagando mais, porque a tarifa vai acabar sendo mais cara se menos gente andar" destacou.

  • Uma pesquisa feita pela Faculdade de Biomedicina da Unicamp, em 2017, mostrou que a parte com maior contaminação no automóvel é o volante. Segundo as pesquisadoras, responsáveis pelo estudo, isso está atrelado à
    higiene das mãos do motorista;
  • A pesquisa foi feita com 76 partes internas de carros e constatou contaminação em todos os itens, que tinham até 10 mil fungos e bactérias que causam desde rinites e micoses até infecções de urina, pulmonares, disenteria e convulsões, principalmente em bebês e crianças, o que reforça a importância da higienização do automóvel para evitar o contágio pela Covid-19;
  • Isso porque segundo um outro estudo realizado por cientistas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, o novo coronavírus pode sobreviver até três dias em algumas superfícies;
  • De acordo com a pesquisa, o vírus resiste por cerca de 72 horas no plástico (três dias), componente que está presente em várias superfícies dentro do ambiente de um veículo;
  • No aço inoxidável, a durabilidade é de 72 horas (três dias). Em uma caixa de papelão mantida no porta-malas, por exemplo, a sobrevida do novo coronavírus é de 24 horas. Isso reforça a importância da higienização do veículo após as viagens.

Fonte: Unicamp; Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos

Rio Preto

  • Em fevereiro, existiam cadastrados na Secretaria de Trânsito de Rio Preto:
  • 869 motoristas de aplicativo como MEI
  • 445 motoristas de aplicativo como autônomos
  • Contudo, existe uma estimativa da categoria de que, antes da pandemia, seriam pelo menos, 2 mil motoristas de Rio Preto. Com o desemprego, esse número de condutores aumentou, sendo que o número exato é incerto visto que nem todos estão cadastrados.

Fonte: Secretaria de Trânsito de Rio Preto

Orientações para fazer uma viagem segura de carro

Máscara: o uso de máscara passou a ser obrigatório tanto para o passageiro quanto para o motorista durante as viagens por transporte de aplicativo ou táxi. As empresas recomendam, que caso o condutor ou passageiro não estejam com a proteção, o fato pode ser reportado à plataforma. Em alguns casos, os aplicativos até pedem para o motorista antes de começar a atuar na plataforma fazer uma foto mostrando usar a máscara;

Mantenha distância: o passageiro deve sempre sentar no banco de trás, e o motorista do automóvel pode ajudar a orientá-lo sobre a melhor localização. Sentar no banco da frente não é mais permitido e as viagens podem ocorrer com até três pessoas;

Janelas abertas: mesmo com as altas temperaturas da região de Rio Preto, o recomendado é deixar as janelas abertas para permitir que o ar circule. Por isso, motoristas e passageiros devem sempre deixar as frestas nas janelas do carro e evitar andar com elas fechadas e o ar-condicionado ligado;

Higienização: é recomendado que após a viagem o passageiro limpe os objetos em que tocou durante o percurso, como o celular, e faça a limpeza das mãos com água e sabão ou álcool em gel. Para os motoristas é recomendado sempre levar no carro um frasco de álcool 70% para limpeza ao decorrer do dia de trabalho;

Pagamento no cartão: empresas de aplicativos de carona recomendam que os passageiros realizem o pagamento no cartão para evitar o contato com o dinheiro de mão em mão. Algumas empresas do setor até estão fornecendo um cartão digital com informações básicas sobre o passageiro e a viagem. Com isso, basta mostrar a tela do smartphone ao condutor, sem contato.

Futuro do setor pós-pandemia

A indústria automobilística já começa a pensar em carros mais seguros em termos sanitários. Assim como no setor aéreo, algumas empresas já pensam em aplicar tecidos antivirais nos bancos dos automóveis. Veja algumas das medidas já pensadas para os carros do futuro:

  • Ar-condicionado: aparelhos devem ser aperfeiçoados para serem capazes de filtrar micro-organismos.
  • Bancos: para modelos em uso há capas com tecido antivirais que estarão no mercado em breve. Para novos carros, o tecido já será usado na produção dos novos automóveis.
  • Barreira: até o fim da pandemia, alguns motoristas poderão usar um separador que evita o contato direto entre passageiro e motorista para uso principalmente em veículos de compartilhamento.
  • Carro limpo: automóveis devem levar mais tempo para agregar novas tecnologias, mas já há produtos disponíveis no mercado de reposição.

Fonte: Uber, 99, reportagem.

 

A história de quem é motorista de aplicativo muitas vezes esbarra no desemprego. Marta e Fernando, mãe e filho, são um exemplo disso. Com o marido desempregado, há três anos Marta decidiu ser motorista para ajudar nas despesas da casa. "Comecei em setembro de 2017. Eu não trabalhava fora, mas meu marido, na época, perdeu o emprego e não conseguiu se recolocar no mercado do trabalho. Foi aí que decidi ser motorista com ele e deu certo", contou.

Poucos meses depois, o filho Fernando também resolveu começar a trabalhar no ramo, após ser dispensando do trabalho. "Antes trabalhava numa loja de móveis usados. Assim que saí, resolvi começar na área", disse.

Em Rio Preto, estima-se que pelo menos duas mil pessoas atuem como motoristas de aplicativos. O número pode estar ainda maior, já que as empresas têm recebido mais cadastros.

Na opinião do professor da UFPR, Cassius Tadeu Scarpin, a chegada dos aplicativos ao Brasil foi positiva também para que as empresas de transporte coletivo investissem mais no setor. "Vejo como uma oferta de um produto com uma grande qualidade e força de estímulo para que o transporte coletivo seja reinventado. As pessoas que têm condições, acabam escolhendo o transporte por aplicativo. Para trechos curtos, tem uma vantagem maior." (RC)