Queimadas deixam ar de Rio Preto 64% mais poluído

IMPACTO CINZENTO

Queimadas deixam ar de Rio Preto 64% mais poluído

Levantamento com os dados da Cetesb aponta que níveis de poluente fino, substância cancerígena, ficaram 64% acima do limite tolerável em Rio Preto nesta quinta em decorrência da grande quantidade de queimadas


Fumaça e focos de incêndio na região do antigo IPA: queimada começou na quarta e seguiu ainda nesta quinta
Fumaça e focos de incêndio na região do antigo IPA: queimada começou na quarta e seguiu ainda nesta quinta - Fotos: Johnny Torres 10/9/2020

As queimadas que deixaram os céus de Rio Preto com nuvens de fumaça e espalharam fuligem deixaram a qualidade do ar da cidade 64% pior do que recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS). Enquanto o padrão estabelecido como ideal é de uma média diária de até 25 microgramas de poluente fino (MP2,5) por metro cúbico de ar (µg/m3), a concentração média das 24 horas registrada às 7h desta quinta-feira, 10, chegou aos 41 µg/m3 de MP2,5. O poluente fino pode provocar problemas respiratórios, cardíacos e câncer, uma vez que consegue chegar até aos alvéolos e a corrente sanguínea.

As informações são da estação meteorológica da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), no bairro Eldorado, em Rio Preto. Pelo Sistema de Informações de Qualidade do Ar (Qualar), a qualidade do ar da cidade até as 7h de quarta-feira, dia 9, já estava acima do recomendado pela OMS com uma concentração de 38 µg/m3 de MP2,5 - a cidade já vinha registrando queimadas. Com um pico de 70 µg/m3 do poluente às 7h desta quinta-feira, essa média diária subiu para os 41 µg/m3, considerado como moderado.

Para a gerente da divisão de qualidade do ar da Cetesb, Maria Lúcia Guardani, é um nível de concentração de poluentes finos, 80% deles com menos de 1 µg/m3, ou seja, poluentes muito pequenos, que pode trazer problemas de saúde de imediato. "Algumas pessoas com problema de saúde podem apresentar sintomas, como idosos e crianças, mas a maioria da população nessa condição não deve sentir os efeitos", afirmou.

Segundo a análise da gerente, essa concentração de poluentes poderia ter sido muito maior, se não fosse as condições meteorológicas da cidade durante a noite e a madrugada desta quinta-feira, com ventos calmos e em direção contrária à cidade. "Às 6h tínhamos ventos fracos, em torno de um metro por segundo, com calmaria que não desperta tanto a poluição", explicou. "Vento com predominância contrária à queimada, com nuvens da queimadas em direção ao campo e não à cidade, por isso a grande parte da população ficou segura", afirmou.

Para Maria Lúcia, não é possível prever o quanto as fuligens oriundas dos incêndios que alastraram ao redor de Rio Preto podem interferir na qualidade de ar nos próximos dias. "Não dá para analisar a condição da qualidade do ar se não analisar a questão meteorológica", disse. Segundo a análise, a única forma de baixar essa poluição é com chuvas, as quais por enquanto não estão previstas. 

Sem chuvas consideráveis desde 28 de junho, Rio Preto registrou na estação da Cetesb 37,3 graus de temperatura, às 15h. A umidade relativa do ar ficou em 19%, entre 15h e 16h - a OMS recomenda pelo menos 60% de partículas de água na atmosfera como ideal para a saúde. No aeroporto da cidade, o registro foi de 13% de umidade às 18h.

Previsão

O Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) prevê dias ensolarados em Rio Preto, com temperaturas entre 18 e 37 graus, até na quarta-feira, dia 16, com 5% de chances de chover. Na previsão estendida, a temperatura mínima deve subir para 22 graus e a máxima deve ficar entre 36 e 37 graus. A diferença é que, a partir de quinta-feira, dia 17, a previsão é de dias nublados.

Com apenas cinco viaturas para atender quase cem cidades da região, o Corpo de Bombeiros de Rio Preto precisou se mobilizar nesta quinta-feira, 10, para apagar um outro incêndio em uma área aberta na região leste de Rio Preto, próximo aos condomínios Parque da Liberdade.

A região conta com espaços abertos coberto por vegetação que nesta época do ano fica seca e suscetíveis a qualquer faísca. As colunas de fumaças eram avistadas de pontos distantes da cidade. O local também contou com a ajuda de parceiros e o incêndio foi controlado. Em nenhum dos casos há suspeitas do que provocou as chamas, que se alastram rapidamente. (FP)

MP10 - Material Particulado*

Partículas de material sólido ou líquido suspensas no ar, na forma de poeira, neblina, aerossol, fuligem, entre outros, com diâmetro aerodinâmico equivalente de corte de 10 micrômetros

  • Limite tolerado: média de 50 (µg/m³) em 24 horas

MP2,5 - Material Particulado Fino*

Partículas de material sólido ou líquido suspensas no ar, na forma de poeira, neblina, aerossol, fuligem, entre outros, com diâmetro aerodinâmico equivalente de corte de 2,5 micrômetros

  • Limite tolerado: média de 25 (µg/m³) em 24 horas

* Estudos indicam que os efeitos do material particulado sobre a saúde incluem: câncer respiratório, arteriosclerose, inflamação de pulmão, agravamento de sintomas de asma, aumento de internações hospitalares e podem levar à morte

NO2 - Dióxido de Nitrogênio

Altas concentrações podem levar ao aumento de internações hospitalares, decorrente de problemas respiratórios, problemas pulmonares e agravamento à resposta das pessoas sensíveis a alérgenos. No ambiente pode levar à formação de smog fotoquímico e a chuvas ácidas. Emitido na queima de combustíveis fósseis

  • Limite tolerado: média de 200 (µg/m³) em 24 horas

O3 - Ozônio

Emitido principalmente na queima de combustíveis fósseis, volatilização de combustíveis, criação de animais e na agricultura, o poluente agrava sintomas de asma, de deficiência respiratória, bem como de outras doenças pulmonares e cardiovasculares

  • Limite tolerado: média 100 (µg/m³) em 8 horas

Fontes: Sistema de Informações de Qualidade do Ar (Qualar) da Cetesb, Ministério do Meio Ambiente e Organização Mundial da Saúde (OMS)

Paisagem incendiada e desoladora. Esse é o retrato da área do antigo Instituto Penal Agrícola (IPA), que voltou a arder em chamas nesta quinta-feira, 10, e não parou de queimar até o fechamento deste texto, no maior incêndio dos últimos dez anos. Além dos Bombeiros, Defesa Civil, Polícia Ambiental e caminhões tanques, até uma aeronave da usina Cofco foi usada nesta quinta para lançar água sobre o fogo, que se alastrou para uma área particular em Mirassol. Pesquisadores da Unesp, responsáveis pela Estação Ecológica, também atingida pela tragédia, estima que o incêndio consumiu até nesta quinta cerca de 300 hectares de vegetação e área de preservação ambiental.

Dentro da Estação Ecológica, o fogo destruiu replantios de mudas nativas e áreas de preservação para pesquisa científica. Segundo o vice-diretor da Unesp, Fernando Noll, o fogo que começou nas margens da avenida Abelardo Menezes, que corta a área do IPA, se alastrou em áreas da Prefeitura, da Faculdade de Tecnologia de Rio Preto (Fatec), do Instituto Florestal, da Estação e da Floresta Estadual do Noroeste Paulista.

A região do IPA é onde estão espécies de grande porte, como tamanduá-bandeira, lobo-guará, onça-parda, diversidade de macacos, além de outras espécies de répteis, aves e uma diversidade de plantas e árvores nativas, algumas em extinção. "Se não morreram diretamente pelas chamas, estão sofrendo com a fumaça e podem morrer posteriormente", disse Noll. Um vídeo gravado pela Defesa Civil mostra os agentes resgatando uma serpente em meio às cinzas.

Outro problema apontado pelos pesquisadores é a perda de umidade para a cidade que o incêndio causa nessa reta final da estiagem. "Uma vez bem constituída, a área retem água que abastece a atmosfera. Quando você perde isso, você perde umidade", explicou o pesquisador da Unesp do departamento de zoologia e botânica, Luiz Branco. Para o vice-diretor, para proteger essa área de preservação é necessário mais colaboração da população e recursos públicos. "Se tivesse um sistema de vigilância e uma brigada eficiente no local, ajudaria e muito. Do jeito que está, até se organizar, o fogo já se alastrou", finalizou. (FP)