Unindo peças, contando histórias

CRÔNICAS DO MARIVAL

Unindo peças, contando histórias

Imóveis 'escondem' a arte de compor cenas em azulejos, inspiradas na natureza, no rural e no sagrado


Painel na rua General Glicério
Painel na rua General Glicério - Marival Correa 9/9/2020

Consta que elas possuem longos cabelos, entrelaçados com pérolas. Caminham sobre golfinhos ou cavalos-marinhos. Trazem à mão ora um tridente, ora uma coroa, ora um galho de coral. Não raro, deixam o palácio de ouro que habitam no fundo dos mares e emergem sedutoras - metade mulher, metade peixe. Assim é que as nereidas - servas de Poseidon, amigas dos marinheiros perdidos e aliadas de Jasão no mito do Velocino de Ouro - são descritas, mas engana-se quem pensa que elas povoam apenas as profundezas marítimas. Aqui, em Rio Preto, uma delas habita uma casa no Parque Industrial, protegida pelas altas grades brancas do portão frontal.

A 'nereida rio-pretense' é apenas um de muitos exemplos de uma arte secular que reproduz em painéis de azulejos os mais diferentes cenários, de ambientes rurais e bucólicos a passagens históricas e sacras, presente em imóveis particulares e, por essa razão, muitas vezes distante dos olhares alheios.

Apenas uma caminhada atenta por bairros mais antigos de Rio Preto é capaz de desvelar um pouco da técnica criada pelos mosaicistas, as mentes criativas responsáveis por eternizar em cerâmica as mais diferentes inspirações. O princípio dos mosaicos, frutos da chamada arte musiva, remonta aos sumérios na Mesopotâmia, por volta de 3.000 a.C. e se popularizaram ao longo dos tempos. E se em suas origens os mosaicos eram restritos a igrejas, sinagogas e templos, o tempo fez com que rompessem essa atmosfera mais circunspecta e se multiplicaram, em cores e temas. Na Vila Maceno encontramos, por exemplo, quase oculto na parede de um escritório, uma típica cena campestre - uma casinha de pau-a-pique aos pés da montanha, os boizinhos ruminando e mãe e filho retornando de mais um dia difícil na lida do campo.

Logo ao lado, também na rua General Glicério, outra atmosfera bucólica aprisionada no mosaico afixado na parede de frente para o jardim: um rio de água corrente em primeiro plano, emoldurado por pedras vistosas e, ao fundo, casas de madeira adornadas por uma fileira de pinheiros e a silhueta de picos montanhosos enevoados. Heras verdinhas como que brotando do painel azulejado dão um toque especial à obra.

Não muito distante dali, na avenida Nossa Senhora da Paz, a fachada despretensiosa de um imóvel comercial exibe, no canto baixo, outro painel de inspiração idílica: quatro barquinhos à vela singram as águas calmas de um mar azul, sobre o qual bailam gaivotas no contorno de uma colina delicadamente ingrime.

Bem diferente da "nossa" nereida do Parque Industrial. Ali, nada de paisagem idílica. Saem de cena os barquinhos e as gaivotas. Saltam elementos de um evento onírico. Duas divindades aquáticas, segundo definição da mitologia grega, emergem poderosas das águas. São carregadas em uma embarcação, feito um altar, por quatro homens. A que segue à frente traz o torso nu. Um tecido rosa suspenso por um anjo impede a exposição total de sua intimidade. Outros dois anjos vigiam do alto aquela inusitada teatralização, um devaneio cheio de sensualidade e mistério. O que representariam aquelas criaturas angelicais? Para onde seguiriam?

Túnel do tempo

Poder caminhar "desarmado", isto é, sem estar preso à pressa habitual ou ao celular, permite pequenas descobertas que equivalem a uma viagem ao passado. A uma Rio Preto de outros contornos e modo de vida. Assim é na Vila Maceno, bairro que remete à formação do centro urbano. Ali, há 120 anos, era instalado o "novo" cemitério da cidade. Foi ali que Theodoro Demonte tirou a histórica foto presente no "Album Illustrado da Comarca de Rio Preto 1927 -1929". O lugar, portanto, respira história.

Perto de onde foram encontrados alguns dos painéis que ilustram esta página, há outras curiosidades. Uma casa que exibe uma fonte de parede azulejada a exibir a boca de um leão - embora nada tenha a ver com arte musiva, reflete um tempo de casas de muros baixos e de jardins frontais adornados. Não muito longe, outro imóvel sem qualquer rebuscamento arquitetônico lembra das "vilas", em que várias casas enfileiradas compunham moradias coletivas. Tudo bem ali, em plena General, no caminho para o coração da cidade, onde um dia tudo começou.

Um mestre mosaicista

Necessário o registro de que alguns dos painéis encontrados no giro que inspirou a crônica deste domingo são do tanabiense Júlio Soares Bonfim. O mosaicista deixou um legado em obras expressas nos mais diferentes estilos: pintou vias sacras e quadros em azulejos para igrejas, presépios, fez painéis de carnaval, vestidos para as damas da época, além de pinturas em óleo sobre tela. Na arte do mosaico em azulejos, é dele o painel de Santa Helena, "padroeira dos abandonados, dos pintores e dos fabricantes de agulhas" e que dá nome ao hospital da Voluntários de São Paulo com Independência.

Julinho, como era chamado, morreu cedo, em 1970, com apenas 48 anos de idade, vítima de um câncer. Deixou espalhada sua arte, a arte de unir peças e contar histórias.

Foto de Toninho Cury/Acervo Fernando Marques

Quando se fala na arte mosaicista, impossível não mencionar o painel mais importante de Rio Preto, dada a sua relevância histórica. Trata-se do painel que ficava no cruzamento das ruas Voluntários de São Paulo e Tiradentes, bem de frente para a Catedral de São José, coração da cidade.

A obra de autoria do pintor cubista rio-pretense Antonio Vargas retratava a fundação de Rio Preto - exibia um homem erguendo um cruzeiro, marco absoluto do nascimento do município. Ela remete a 1851, quando João Bernardino de Seixas Ribeiro construiu uma casa de pau-a-pique, primeira moradia oficial destas terras. A pintura em azulejo foi afixada no mesmo local onde foi encontrado um esteio de aroeira da casa do fundador.

O painel ficava em imóvel particular e acabou demolido em meados dos anos 1980, tão logo começou a circular a notícia de que ele seria tombado como patrimônio histórico municipal. Com isso, a única referência física que resta do ato oficial da fundação é o marco zero de Rio Preto, erguido na rua Tiradentes, bem atrás da Catedral.