Em Rio Preto, campanha traz cuidados com o coração na pandemia

SETEMBRO CORAÇÃO

Em Rio Preto, campanha traz cuidados com o coração na pandemia

Cardiopatia é o principal fator de complicações em pacientes com Covid


Carla mede a pressão 
arterial da tia, Marisa 
da Silva Ramos do Valle, de 
78 anos. A idosa é hipertensa e está se cuidando 
contra o coronavírus
Carla mede a pressão arterial da tia, Marisa da Silva Ramos do Valle, de 78 anos. A idosa é hipertensa e está se cuidando contra o coronavírus - Arquivo Pessoal

Setembro é o mês dedicado ao coração. Neste ano, o tema escolhido é a saúde do órgão em tempos de pandemia - tanto para pacientes que contraíram o coronavírus quanto para aqueles que não. Em Rio Preto, Braile Cardio, Hemat, Incor Rio Preto, Procardíaco e UMA idealizaram a campanha Setembro Coração, totalmente online neste ano - nas redes sociais, estão disponíveis vídeos e serão realizadas lives ao longo do mês.

Dentre as 487 vítimas fatais da Covid-19 em Rio Preto, por exemplo, a maioria tinha alguma doença de base, sendo a cardiopatia a mais recorrente. Em toda a região do Departamento Regional de Saúde (DRS), seis em cada dez vítima tinham problemas no coração.

Paulo Roberto Nogueira, cardiologista do Hospital de Base e do Incor, responsável pela UTI da Beneficência Portuguesa e professor da Famerp, pontua que o coronavírus possui três pilares que comprometem a função cardiológica. "Não o vírus em si, mas o processo inflamatório que ele causa."

O primeiro deles é que a inflamação provoca o enfraquecimento da musculatura cardíaca, chamada miocardite, provocando insuficiência cardíaca. O segundo é que o processo inflamatório pode resultar na formação de coágulos. "Que podem se formar em qualquer circulação. São causas de infarto, então tem pacientes com Covid que apresentam infarto do miocárdio. Esse processo trombótico pode gerar inúmeros processos, embolia pulmonar, trombose venosa e acidente vascular cerebral." O terceiro pilar apontado pelo médico é que o coronavírus gera inflamação do endotélio, a camada que fica mais perto do sangue que circula dos vasos - essa inflamação pode gerar comprometimentos, cardiológicos ou não.

Paulo Roberto afirma que os pacientes que já têm cardiopatias - como hipertensão, por exemplo - possuem mais risco de desenvolver complicações da Covid-19 e que, se este problema estiver controlado (o que é possível com acompanhamento regular), a possibilidade de recuperação sem intercorrências graves do coronavírus é maior.

Antônio Geronde, de 68 anos, é morador de Mirassol. Cardiopata (ele faz tratamento porque tem angina e taquicardia), contraiu coronavírus e ficou 11 dias internado na Beneficência Portuguesa. "Muita dor nas costas, muita fraqueza nas pernas, muita dor de cabeça, muita tontura. Quem não fica assustado com esse diagnóstico? Estava em isolamento (antes da infecção), só saía na cidade para pagar tributos e prestações e uma vez por mês para fazer compra."

José Henrique Pereto, comerciante, também faz acompanhamento, pois toma remédio para controlar a pressão. Ele também teve coronavírus. "Foi um diagnóstico que assustou bastante. Não tive nenhuma intercorrência do coração, só emagreci."

A recomendação para quem possui fatores de risco é evitar sair de casa - a não ser para ir ao médico. É o que tem feito Marisa da Silva Ramos do Valle, de 78 anos, de Álvares Florence. Ela não descuida dos medicamentos necessários e conta com apoio dos filhos para as compras, mas fica triste com o isolamento. "Sou hipertensa, pré-diabética, então estou me cuidando bastante, ficando em casa. Se preciso sair, sempre saio com máscara, álcool em gel e lavando bastante as mãos. A gente está tentando passar essa fase tão difícil. Estamos sofrendo bastante."

A pandemia trouxe ainda outro agravante. No Brasil, houve um aumento no número de óbitos em domicílio por doenças cardiovasculares, incluindo acidente vascular cerebral (AVC), infarto e doenças cardiovasculares inespecíficas, segundo informações do Portal da Transparência, atualizado pela Arpen-Brasil (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Brasil) em parceria com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

Por medo da contaminação pelo coronavírus, muita gente deixou de procurar o médico, mesmo sentindo que algo estava errado. Valéria Braile, cardiologista da Braile Cárdio, reforça a importância de sempre procurar atendimento - uma das opções é, antes de ir pessoalmente, recorrer à telemedicina, se possível. "As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no nosso meio, 46 mortes por hora no Brasil, portanto nenhum tratamento deve ser descontinuado. A maioria das doenças como diabetes, hipertensão e colesterol são silenciosas, o sintoma pode ser infarto ou AVC, por isso consultas e exames são necessários. Muitas pessoas têm morrido em suas residências", pontua.

O cardiologista Paulo Roberto ressalta que os hospitais criaram fluxos distintos para pacientes com suspeita de coronavírus e para os outros com outros problemas, ou seja, em caso de desconforto, o correto é buscar ajuda para evitar complicações, pois foi desenvolvida uma estrutura para minimizar o risco de contaminação.

Reprodução

A Secretaria de Saúde de Rio Preto confirmou nesta terça-feira, 8, mais 38 casos de coronavírus na cidade e um óbito. Assim, chega a 18.541 o número de ocorrências positivas e 487 mortes.

O número de mortes registrado nesta terça é o menor desde o dia 10 de agosto, porém a situação da cidade ainda é crítica. Na segunda-feira, Rio Preto atingiu a média móvel de 8,29 óbitos por dia em sete dias, a maior desde o início da pandemia. Nesta terça, o índice caiu para 7,5. A média móvel de casos ficou em 212,2.

Conforme a Saúde, a maioria dos pacientes (51%) com sintomas leves de Covid-19 apresentou febre. A seguir, os sintomas mais relatados foram tosse, dor de garganta, falta de ar, dor de cabeça e coriza. A infecção foi assintomática em 1,1% dos pacientes. Grande parte deles apresentou distúrbios gustativos (40,7%) e olfativos (46,8%), ou seja, apresentaram mudanças na sensação de gostos e cheiros.

Andreia Negri Reis, gerente do Departamento de Vigilância Epidemiológica, voltou a falar em queda do número de casos. Mostrando um gráfico com curva descendente, apontou que em 1º de agosto eram notificados, em média, 290 casos de coronavírus por dia. Este número caiu para 144 em 6 de setembro.

Conforme a pasta, a média móvel de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), casos graves de Covid, caiu de 30 por dia em 6 de agosto para 15 por dia em 7 de setembro.

Região

Outras 24 cidades da região confirmaram óbitos por coronavírus. Em Catanduva, a 109ª vítima é uma idosa de 67 anos que estava internada na Santa Casa de Novo Horizonte. Em Bálsamo, foram mais três registros, chegando a 15, de idosos de 68, 77 e 93 anos. Todos tinham comorbidades. Ilha Solteira também teve mais três confirmações, contabilizando seis no total.

Valentim Gentil confirmou mais duas mortes, chegando a sete. Em José Bonifácio, a 16ª vítima é uma idosa de 90 anos. Nova Granada registrou a nona morte, de um homem de 57 anos, com comorbidades.

Olímpia chegou aos 46 registros, com a morte de um idoso de 74 anos. Em Ouroeste, a quarta foi confirmada em uma idosa de 71. Severínia teve a oitava confirmação, em um idoso de 82 anos.

O 33º óbito foi registrado em Fernandópolis. Neves Paulista, Riolândia, Rubineia e Ubarana confirmaram o segundo; Meridiano e Palmeira d'Oeste, o terceiro; Cedral, o sexto; Novo Horizonte, o sétimo; Américo de Campos, o oitavo; Mendonça, o décimo e Estrela d'Oeste, o 11º. Em Paranapuã, foram mais duas confirmações, chegando a três. Marapoama e Marinópolis registraram suas primeiras mortes.

(Colaboraram Ingrid Bicker e Millena Grigoleti)

Departamento Regional de Saúde (DRS) de Rio Preto até 8/9/2020 (inclui 102 cidades)

Ocupação de leitos na DRS

  • Enfermaria: 48,1%
  • UTI: 67,4%
  • 68 novas internações no dia 7/9

Ocupação de leitos no Estado

  • Enfermaria: 38,3%
  • UTI: 53,1%

Internações de pacientes de Rio Preto em 7/9

  • 349 pacientes
  • Enfermaria: 233
  • UTI: 116

Hospitais de Rio Preto

Hospital de Base (inclui pacientes da região)

  • Enfermaria (195 vagas): 115 pacientes (58,9% de ocupação)
  • UTI (145 vagas): 114 pacientes (78,6% da ocupação)

Hospital da Criança

  • Enfermaria (30 vagas): 2 pacientes
  • UTI (14 vagas): 1 paciente

Santa Casa

  • Enfermaria (59 vagas): 38 pacientes (64,4%)
  • UTI (45 vagas): 39 pacientes (86,6%)

Hospital de Jaci

  • UTI (dez vagas): 4 pacientes
  • Enfermaria (22 vagas): 5 pacientes

UPA Jaguaré

  • UTI (30 vagas): 1 paciente
  • Enfermaria (15 vagas): 13 pacientes

UPA Santo Antônio

  • UTI (8 vagas): 2

UBS Anchieta

  • Enfermaria (20 vagas): 9 pacientes

O índice ocupação das unidades de terapia intensiva (UTI) das 102 cidades do Departamento Regional de Saúde de Rio Preto voltou a cair e atingiu nesta segunda-feira, 8, os 67,4%. Foram registradas 68 novas hospitalizações - além de uma queda na quantidade de novas internações, a grande quantidade de mortes no feriado (25 cidades registraram óbitos) também fez com que o índice caísse.

Conforme a Secretaria de Saúde de Rio Preto, havia nesta segunda-feira, 7, 349 pacientes internados com síndrome respiratória aguda grave (SRAG), sendo que 208 deles tinham coronavírus confirmado. Desses, 115 estavam em enfermaria e 93 estavam em UTI. (MG)

Como o vírus afeta o coração

  • O coronavírus ataca diretamente o músculo cardíaco, o miocárdio, causando inflamação, conhecida como miocardite
  • O músculo é responsável pela contração do coração e, com a inflamação, o bombeamento do sangue é comprometido
  • As consequências são arritmias e insuficiência cardíaca
  • Em pacientes que já possuem problemas cardíacos, essa situação pode ser agravada, levando à morte
  • O processo inflamatório do coronavírus também pode favorecer a formação de coágulos, que podem provocar processos como infarto do miocárdio, trombose venosa e acidente vascular cerebral.
  • A doença também gera inflamação do endotélio, camada que fica próxima ao sangue que está circulando nos vasos, o que pode levar a um comprometimento cardíaco.
  • Em pacientes que tiveram ou não o coronavírus, toda essa situação pode gerar muito estresse, levando a um quadro conhecido como "síndrome do coração partido".