Zona rural vira alvo de quadrilhas de assaltantes na região de Rio Preto

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Zona rural vira alvo de quadrilhas de assaltantes na região de Rio Preto

Veja como agem os bandos armados que invadem sítios e fazendas e levam cabeças de gado e máquinas agrícolas. De março a agosto deste ano, polícia registrou 136 crimes do tipo na região


Máquinas furtadas por quadrilha e apreendidas em Colina: criminosos usam caminhão prancha para levar os veículos
Máquinas furtadas por quadrilha e apreendidas em Colina: criminosos usam caminhão prancha para levar os veículos - Divulgação

Quadrilhas armadas furtam ou roubam gado e máquinas agrícolas. Quando necessário, até tiro trocam com policiais. Parece faroeste, mas o bangue-bangue ocorre na zona rural da região de Rio Preto. Os bandos planejam os crimes com antecedência e chegam a fazer ações ousadas para fugir com os produtos ou animais e revender no mercado clandestino.

Conforme levantamento do 52º Batalhão da Policia Militar, responsável pelo patrulhamento da microrregião de Rio Preto, de março a agosto deste ano foram 128 furtos de gados em 30 cidades. Neste mesmo período, foram outros oito furtos de máquinas.

Segundo os agricultores ouvidos pelo Diário, os furtos aumentaram 50%, de janeiro a agosto de 2020, em comparação ao mesmo período no ano passado.

O diretor da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) de Rio Preto, Celso Bento, afirma que dentro das quadrilhas todos têm função definidas: o olheiro para escolher os alvos; o logístico que arruma o transporte do gado ou máquina agrícola furtados; o despachante, que arruma falsa documentação de posse; e o negociador, responsável por arrumar clientes, em geral agricultores e frigoríficos de outros Estados.

Para tentar escapar do crime de receptação qualificada, os criminosos forjam a posse do produto do furto por meio de notas fiscais frias e até remarcação do gado. Há também suspeita da conivência de pequenos frigoríficos que aceitam abater os animais, fazendo vistas grossas da procedência, segundo a Deic.

Em diálogo obtido pelo Polícia Civil, um dos líderes de uma quadrilha dá uma dura em outro integrante, porque foram furtadas mais cabeças de gado do que o planejado.

"Era para pegar só 40 bois. A nota fiscal que tenho é 40 cabeças. Não era para pegar 47 cabeças. Vai ferrar tudo", reclama o criminoso.

Segundo o delegado coordenador da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Rio Preto, Ricardo Afonso Rodrigues, o maior motivador para esta onda de crimes no campo é o aumento do preço da arroba do boi, de R$ 150 para R$ 240.

"O que estamos percebendo é que eles vão mudar o foco. Vão optar mais por roubar caminhões carregados de bois, porque é mais fácil do que ir até a fazenda, furtar o gado espalhado no pasto e colocar no caminhão", explica o delegado. Um caminhão com 20 cabeças de gado pode custar até R$ 100 mil, segundo dados do mercado.

Para evitar serem pegos por meio do GPS de máquinas agrícolas, os criminosos nunca levam embora os veículos de uma só vez. Por precaução, deixam os equipamentos escondidos por dias em matas. É o tempo para as baterias dos rastreadores descarregarem.

"Quando os criminosos têm a certeza que ninguém foi atrás do trator, eles chegam com caminhão prancha, para fazer o transporte", explica o delegado.

Xerifes versus bandidos

A luta de combate às quadrilhas de furto de gado tem resultado em prisões. Em maio deste ano, a Deic de Rio Preto prendeu três homens suspeitos de furtar gado em propriedades rurais na região de Guapiaçu. Os homens foram detidos quando se preparavam para atacar uma fazenda de Uchoa. O líder do bando foi detido dois meses depois em Rio Preto.

Segundo o delegado do caso, Paulo Buchala Júnior, os criminosos em sua maioria tinham experiência com gado e possuíam estrutura própria de transporte dos bois.

"Para facilitar a venda do gado roubado, a quadrilha tinha até apetrechos para marcar os animais para dificultar a identificação", diz delegado.

Há duas semanas, policiais da DIG de Jales trocaram tiros com uma quadrilha de furto de gado, à noite em Palestina. Os criminosos foram pegos quando transportavam 30 cabeças de boi, diz o delegado da DIG de Jales, Sebastião Biasi.

"A quadrilha conseguiu fugir, mas uma pessoa foi presa, porque foi atingido por um tiro. Com ele localizamos um documento de cadastro rural, da região de Quatá. Viajamos até lá, onde encontramos em um sítio 400 cabeças de gado, e 90 eram furtadas. Nós autuamos o sitiante por receptação qualificada", explica o delegado.

Biasi conseguiu no começo do ano prender 15 integrantes de uma quadrilha que teria cometido 30 furtos e roubos de máquinas agrícolas da região de Jales. Boa parte do bando vinha do estado de Minas Gerais, mas contava participação de criminosos da região de Rio Preto.

Divulgação/Polícia Ambiental

Lideranças agropecuriastias da região relatam a ocorrência de pelo menos dois furtos por semana na região

Hierarquia

  • Olheiro: pessoa que escolhe as propriedades rurais para serem atacadas
  • Logístico: membro encarregado de arrumar caminhões de transporte de gado ou caminhão prancha (para colocar máquinas)
  • Turma de ataque: Integrantes responsáveis em executar o furto de gado ou máquinas agrícolas
  • Despachante: Membro com a função de abrir empresas fantasmas ou arrumar notas frias para legalizar o gado ou máquinas furtados
  • Marcadores: Integrante com a função de esconder a marca do gado furtado
  • Açougueiros: Pessoa com a função de matar o gado e oferecer a carne para frigoríficos pequenos
  • Negociadores: Quem vai até açougues e frigoríficos vender a carne ou vende as máquinas agrícolas para produtores rurais em outros Estados

Passo a passo

Escolha do alvo

  • Para escolher os alvos, um dos criminosos visita oficinas especializadas em implementos agrícolas, com a desculpa de que precisa fazer orçamento. Por meio de bate-papo, ele levanta com os funcionários informações preliminares sobre os agricultores da cidade

Levantamento de campo

  • Um criminoso finge ser empresário interessado em arrendar terras e visita as propriedades para levantar a localização das máquinas agrícolas, do gado e saber a quantidade de funcionários e os possíveis meios de defesa da vítima

Ataque

  • O bando chega à noite, leva o maquinário ou gado e os colocam imediatamente em um caminhão
  • No caso de um trator, por exemplo, eles deixam escondido em matas, por receio de que sejam localizados por meio do GPS. Eles só voltam ao local uma semana depois, tempo que consideram seguro para a bateria do localizador via satélite ficar esgotada e evitar o risco de serem flagrados

Notas frias

  • Os criminosos criam uma nota fiscal falsa ou emitida por empresa de fachada para legalizar o produto do furto e oferecer para um novo cliente

Para reduzir a ação das quadrilhas do campo, a Polícia Militar tem feito mapeamento das propriedades rurais e aumentado o patrulhamento com apoio da Polícia Ambiental e do 9ª Batalhão de Ações Especiais (Baep).

Coordenador deste patrulhamento em 30 cidades da abrangência do 52º Batalhão de Mirassol, o major Ubirajara Pisani afirma que esta articulação tem dado resultado. Na última semana, receberam mais três viaturas para percorrer fazenda e sítios da região.

"Na quinta-feira, a Polícia Ambiental recuperou um trator furtado em Ipiguá, que estava escondido em matagal. Na quinta-feira, eles também ajudaram a recuperar 11 cabeças de gado que foram furtadas em Palestina, que estavam escondidas em Cedral", diz o oficial.

Pisani recomenda aos agricultores investirem mais em câmeras de monitoramento, reforçar cercas e fechar porteiras para evitar os ataques. (MAS)

Principal alvo das quadrilhas de furto de gado, os pecuaristas estão investindo em tecnologia e criaram suas próprias redes de proteção contra os bandidos. Dona de 700 cabeças de bois, Milena Junqueira, 45 anos, espalhou câmeras e fez até seguro de vida dos funcionários de sua fazenda em Riolândia, para se proteger dos criminosos.

"Eu fiz seguro de vida dos meus empregados, porque vai que acontece alguma coisa com eles. Coloquei câmeras de monitoramento que filmam desde a entrada da fazenda até o local onde o gado fica. É a única forma que a gente tem para se proteger", afirma a pecuarista.

Outra estratégia criada por Milena, combinada com outros produtores, foi a instalação de sirenes de alarmes. O som chega a 4 quilômetros de distância, chega até os vizinhos, como um sinal de que deve ser chamada a Polícia Militar.

Já o pecuarista Osmair Donizette Guareschi, 61 anos, resolveu fazer seguro do gado contra furto ou roubo, para ser ressarcido caso seja atacado.

"A melhor coisa do mundo é fazer seguro, porque me dá tranquilidade. Porque não temos mais as patrulhas agrícolas de antigamente. A polícia não dá conta mais", diz o produtor rural. (MAS)