Uma (intensa) prova de amor ao próximo

LUTA PELA VIDA

Uma (intensa) prova de amor ao próximo

Rotina de profissionais intensivistas, aqueles que atuam nas unidades de terapia intensiva dos hospitais, já era corrida antes da pandemia. Depois, eles viram a correria aumentar e o medo se multiplicar, mas também crescer, e muito, o sentimento de felicidade ao ver um paciente ficar bem


Leitos de UTI do Hospital de Base, que agora tem 145 vagas de alta complexidade (somando SUS e convênio)
Leitos de UTI do Hospital de Base, que agora tem 145 vagas de alta complexidade (somando SUS e convênio) - Divulgação/HB

Tom Jobim cantava que na incerteza em que vivia seus dias ainda esperava o mais claro amanhã. Desde a notícia dos primeiros casos de coronavírus, com mais intensidade a partir do momento em que a pandemia chegou à região, é assim que vivem os profissionais intensivistas, aqueles que atuam nas unidades de terapia intensiva (UTI).

Se desdobrando para colocar de pé de novo pacientes que, muitas vezes, chegam aos seus cuidados sem nem conseguir respirar sozinhos, além de lidar, a distância, com familiares angustiados e descobrirem na tecnologia uma aliada na comunicação com quem anseia por notícias sobre quem está dentro das paredes do hospital, longe do toque. Enquanto isso, os médicos, enfermeiros, técnicos, fisioterapeutas, auxiliares de limpeza e tantos outros profissionais lidam com a incerteza e ficam longe de quem amam e lidam com a doença que atinge seus colegas e às vezes até eles mesmos. Para cuidar de quem nunca viram, são muitos sacrifícios, como ficar sem ver a própria família. Há também muito aprendizado e o desejo de que tudo isso passe rápido.

Milena Cristina da Silva Juliane, de 37 anos, é enfermeira intensivista do Austa. Ela atua em UTI há 12 anos e pontua que esse setor é sempre mais intenso. “Com a Covid , a rotina se intensificou um pouco mais pelo número de pacientes que internam, pelo número de leitos que tiveram que ser abertos a mais em todo o País.” Ela pontua que são pacientes que demoram para melhorar, mais graves, mais instáveis – às vezes, chegam já necessitando de intubação, outras chegam conscientes e orientados, mas perguntando e preocupados com quando vão para o respirador.

Luana Fernandes Machado, de 34 anos, médica intensivista do Hospital de Base, conta que nunca imaginou o quanto o ser humano é frágil, mas percebeu essa característica desde o início da pandemia. “A gente foi pego de surpresa por um vírus que tem judiado muito da gente.” Ela relata que a Covid-19 recebeu o apelido de “doença da paciência”.

“Chama a atenção porque é uma doença que demora para melhorar. Já tivemos muitos pacientes internados na UTI que ficaram aqui por 20, 30 dias. Ver esses pacientes se recuperarem dá muita alegria para a gente porque faz a gente pensar que vale a pena. É muito bom ver o paciente se recuperar, principalmente quando é um jovem que tem a vida toda pela frente. Faz a gente pensar que a batalha valeu”, diz a médica.

Para se chegar a esse resultado, o trabalho é exaustivo – física e psicologicamente. Uma das manobras mais utilizadas atualmente, que é colocar o paciente de bruços, por exemplo, para estimular a respiração e a recuperação do pulmão, exige uma ampla equipe: médico, fisioterapeuta, enfermeiro e cinco técnicos de enfermagem. No mínimo. Todo esse esforço é um dos motivos para as recuperações serem tão comemoradas.

“A gente fica lisonjeado e emocionado mesmo, porque o tanto que a gente se deu, que a gente trabalhou. Teve pacientes que a gente pronou (colocou de bruços) cinco vezes, carregamos no colo mesmo e ver esse paciente sair daqui bem, indo para casa, a satisfação da família”, afirma Alessandra Soler Bastos Hulsen, 31 anos, enfermeira intensivista do Hospital de Jaci, com seis anos de experiência em UTI. “É a melhor parte saber que seu trabalho está sendo valorizado por uma vida mesmo. É muito importante isso, até me emociono.”

Carlos Eduardo Braga, de 39 anos, é médico intensivista na Santa Casa de Rio Preto, e diz que não seria de seu feitio fugir do combate à doença. “Quando aconteceu e me pediram para ajudar e organizar aqui eu prontamente estava, a gente sabe que era algo novo, que tinha risco. Mas a gente tem ônus de não salvar todos.” Ele também comenta que raros são os pacientes que chegam e ficam poucas horas. A maioria permanece no setor por semanas.

Segundo Luana, quando o paciente morre fica a dúvida: será que foi feito todo o possível? Um dos motivos para isso é que a doença é nova e muitas descobertas ainda podem acontecer – como já ocorreram desde o início da pandemia. A sensação que fica é a de impotência. “O que a gente tem visto na beira do leito, que tem incomodado bastante e que a população não tem muita ideia, é que apesar de idade e comorbidades serem fatores de risco para o paciente desenvolver doença grave, a gente tem visto muito paciente sem comorbidade evoluir para a forma grave e óbito. A gente já perdeu muito paciente jovem sem nenhuma doença de base.” A especialista ressalta ainda que, embora a mortalidade no geral seja baixa – em torno de 2,5% em Rio Preto – esse índice pode chegar a 50% dos que vão para UTI.

Para Carlos, o maior bônus é o vínculo que se formou entre as pessoas que estão atuando diretamente no enfrentamento. “De uma certa maneira selecionou as pessoas que não tinham medo disso e foram para a frente. Deu para ver que ainda tem muita gente que tem coragem.”

Mais de cem dias depois do início da pandemia, o médico Carlos Eduardo Braga, de 39 anos, da Santa Casa, se transformou em paciente, junto com a esposa e o filho, que também foram diagnosticados com coronavírus. Ninguém teve a forma grave da doença. Todos os cuidados que ele tomava não foram suficientes para evitar a contaminação dele e da família - Carlos se mantém afastado do resto dos familiares que não moram com ele, conversando só por telefone.

"É complicado ficar trancado dentro de casa, principalmente para quem é ativo, e criou-se um terror em cima da doença, foi muito complicado controlar a parte psicológica de todos dentro da minha casa. Apesar de eu saber que pode ter as complicações, como não tive sintoma grave a gente vai controlando, mas é mais difícil a parte psicológica, ficar trancado, saber que tem a doença e que não tem nenhum remédio específico", afirma ele, contando que tenta não levar todas as situações que vivencia para casa e que muitas vezes as informações são mal repassadas, o que gera pânico.

A enfermeira intensivista Milena Cristina da Silva Juliane, 37 anos, toma banho todos os dias antes de sair do hospital Austa e outro ao chegar em casa. A roupa com que sai de casa não é a mesma do trabalho e nem a mesma da volta. O cabelo é lavado todos os dias. O medo era algo que todos tinham, afirma ela, mas garante que os profissionais receberam o suporte de equipamentos de proteção individual e puderam ter certeza de que estavam protegidos. "Vi colegas ficarem doentes, colegas internarem, médico internar e a gente ter que cuidar dele na UTI, colegas de trabalho de muitos anos", relata. Ela diz que o hospital montou uma rede de apoio psicológico para os profissionais. "É uma rotina mais estressante, uma sobrecarga de trabalho. Meu maior desejo é que isso acabe logo."

Alessandra Soler Bastos Hulsen, 31 anos, enfermeira do Hospital de Jaci, comenta que é preciso que os profissionais estejam atentos o tempo todo a qualquer sinal de melhora ou piora do paciente numa UTI. Quando se trata de Covid, é preciso ter habilidade e força física para colocá-lo nas posições que estimulem a respiração sem tirar nenhum dispositivo do lugar. "E também entra a parte da paramentação. O capote (avental), duas luvas, a máscara, o óculos de proteção, a viseira. Fazem com que a gente tenha dificuldade de respirar, machuca o rosto, a luva incomoda, a roupa esquenta demais, então é uma situação totalmente desconfortável", enumera. Além disso, é preciso ter o cuidado com a higiene das mãos, com lavagem e aplicação de álcool em gel. "É uma rotina muito tensa. A gente tem que cuidar dos pacientes e da gente. Nosso sentimento é de medo também", confessa Alessandra.

Luana Fernandes Machado, de 34 anos, médica intensivista do Hospital de Base, não vê os pais nem os avós há cinco meses. Morando com o marido, o farmacêutico paulo César, ela comprou alguns pares de roupa exclusivamente para fazer o trajeto de casa para o trabalho. São dois banhos: um ao sair do hospital e outro ao chegar em casa - e ela já coloca a roupa para lavar. "Não tenho contato com ninguém da minha família fora o meu marido, nem de ver de longe. Eu falo com eles por telefone, por computador."

Apesar de todos os desafios que vem enfrentando, em nenhum momento Luana chegou a pensar em abandonar o atendimento aos pacientes de Covid. "Eu sabia que ser intensivista exigia de mim abrir mão de algumas coisas na minha vida. Eu nunca pensei em desistir, pelo contrário. Por um lado foi um desafio grande cuidar desses pacientes, mas por outro é gratificante fazer parte da história da medicina, fazer com que as pessoas conheçam a importância da especialidade que é a terapia intensiva. É muito gratificante estar fazendo o bem para a população, usando do que a gente tem de melhor recurso para salvar algumas vidas."(MG)

A médica intensivista Bethina Canaroli Sbardellini, da Beneficência Portuguesa, foi contaminada pelo coronavírus e precisou ficar em isolamento. Foram dias de muito estresse físico e emocional". Ela, que atendia em consultório, resolveu se dedicar aos pacientes da unidade respiratória do hospital. "Estamos vivendo uma escassez de mão de obra médica e, por fazer parte da escala de plantonistas das UTI, precisei aumentar a minha carga horária."

Ela pontua que os pacientes de coronavírus apresentam manifestações clínicas de diversas intensidades, então a equipe deve estar preparada para qualquer evolução clínica. "Isso leva a situações de ansiedade e, em muitos casos, sofrimento para todos as pessoas envolvidas, desde a equipe intensivista até os familiares. Como médica, tenho preparo para enfrentar as dificuldades que possam surgir. No entanto, não imaginava que passaria por uma pandemia dessa dimensão".

Luana Fernandes Machado, 34 anos, médica intensivista do Hospital de Base, conta que quando tudo começou a ser preparado foi bastante desafiador. "A gente estava lidando com o desconhecido. A gente tinha medo de se contaminar, além do fato de estar tratando doentes graves com uma desconhecida, que a gente não tinha experiência nenhuma, então foi bem angustiante." Acreditando que o isolamento é a melhor forma de prevenção e apostando na vacina como forma de controlar a pandemia, a médica percebeu que ainda há muito para se aprender na medicina. "Não existe milagre, nenhuma medicação é milagrosa, nenhuma medicação cura Covid e evita que o paciente morra. O segredo do tratamento é o suporte adequado às disfunções orgânicas."

O desgaste dos profissionais foi maior com o passar do tempo, que trouxe mais casos de coronavírus e mais internações, que levaram à abertura de mais leitos. "A grande maioria das pessoas aumentou muito a sua carga de trabalho, então isso foi bem cansativo, além de mudar toda a estrutura da unidade para organizar o fluxo. A gente precisou criar novos protocolos, estudar muito sobre a doença", conta a médica, que atua em UTI há 12 anos e nunca pensou em vivenciar uma situação como essa - mesmo após meses e com mais conhecimento, não se sabe muito sobre o coronavírus. "Eu nunca imaginei que eu fosse ter medo de cuidar de algum paciente."

Carlos Eduardo Braga, de 39 anos, é médico intensivista na Santa Casa de Rio Preto. "A partir do momento que o hospital definiu que ia atender Covid, a preparação foi uma loucura, dividiu o hospital inteiro em área de pacientes respiratórios e não respiratórios para da melhor maneira possível evitar o contato de um e outro. Não sei se teve algum lugar do País que ficou perfeito isso, que é muito difícil de isolar perfeitamente."

Alessandra Soler Bastos Hulsen, 31 anos, enfermeira intensivista do Hospital de Jaci, trabalhava oito horas por dia de segunda a sexta-feira quando estava atuando na UTI do Hospital João Paulo II. Quando foi para o setor de cuidados intensivos do Hospital de Jaci, viu a carga horária saltar para 16 horas por dia - não porque era obrigada, mas porque era necessário, tanto para cuidar dos pacientes como para formar a equipe (em épocas de pandemia, formar equipes de UTI capacitadas tem sido um dos principais desafios dos hospitais, pois faltam profissionais na área). Nos finais de semana de folga, ela já precisou ir para o hospital, que mantém um convênio com a Prefeitura de Rio Preto para atender pacientes rio-pretenses. "É bem desgastante. Minha família está cansada dessa situação, mas a gente sabe que é um período temporário, uma pandemia. Eles entendem parcialmente, mas tentam me puxar para a realidade o tempo todo", conta.

Mesmo assim, tem dias que o celular fica na mão o tempo todo. "Às vezes o Samu me liga de madrugada e eu preciso atender, ou eles me ligam que aconteceu alguma intercorrência que eu preciso resolver. Estou totalmente ligada na minha equipe o tempo todo." Depois de pouco mais de um mês de funcionamento do setor, ela acredita que a tendência é melhorar. "Estão conseguindo caminhar com as próprias pernas, estão mais confiantes, não têm tanto medo mais do cuidado com o paciente." (MG)