Na pandemia, aeroporto de Rio Preto teve a menor média mensal de passageiros

EFEITO CORONAVÍRUS

Na pandemia, aeroporto de Rio Preto teve a menor média mensal de passageiros

Empresas já pensam no futuro do setor e nas medidas pós-pandemia


Aos poucos, movimento de passageiros começou a crescer novamente
Aos poucos, movimento de passageiros começou a crescer novamente - Johnny Torres/Arquivo

Acostumado a viajar semanalmente de avião, o bancário Rafael Mendes viu pela primeira vez em sua vida, aeroportos se transformando em estacionamentos de aeronaves. Viajando mensalmente para a região de Rio Preto, com a pandemia da Covid-19 e o necessário distanciamento social - que cancelou viagens de negócios e turísticas - o bancário de Florianópolis teve que conviver com uma nova realidade nos voos: aviões de até 180 passageiros com menos de 20 e o uso obrigatório de máscaras durante todo o trajeto.

"Eu trabalho em Florianópolis e venho para a região com frequência. No início da pandemia via um fluxo menor de pessoas, agora está aumentando aos poucos. Fora isso, as empresas limitavam as poltronas e você não conseguia escolher determinados lugares", disse Rafael sobre os protocolos adotados pelas empresas aéreas durantes os voos. "Percebi que coisas do serviço de bordo eles cortaram. Agora tudo que é oferecido é descartável", disse o montador Fabio Amauri de Jesus.

A crise do setor aéreo e o futuro da aviação pós-pandemia é o tema da segunda reportagem da série especial "Como o vírus anda", que está mostrando os desafios do transporte para garantir a saúde dos usuários durante a pandemia da Covid-19 e os riscos de contaminação.

Com o distanciamento obrigatório e viagens canceladas, o setor aéreo foi um dos que mais sentiu o impacto da doença. O Aeroporto de Rio Preto, por exemplo, teve, em abril, a pior média mensal de passageiros da história. Segundo dados do Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo (Daesp), apenas 951 passageiros passaram pelo local no mês. Em janeiro, essa média foi de 66.895 usuários. "A pandemia fez cair o número em todos os aeroportos. Em Rio Preto a queda foi enorme, esse mês de abril foi o pior de todos, porém o aeroporto continuou sobrevivendo com algumas viagens. No Paraná, teve aeroportos que zeraram os voos", disse um dos responsáveis pela navegação aérea do Aeroporto de Rio Preto, José Braz Carvalho da Silva.

Em abril, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), 92% da malha aérea do País ficou no chão, sem operar. O medo de ser contaminado fez com que o avião fosse o primeiro meio de transporte, ainda em março, que os usuários começaram a abandonar com medo de serem infectados. "Na forma mais brutal possível, os passageiros sumiram. Porque foram para casa se cuidar e preservar sua saúde. No mês de abril, voamos 8% do que voamos antes da crise. Nós só não paramos completamente porque o Brasil é muito diverso do ponto de vista da sua infraestrutura e, principalmente, da metade do País para cima, se a gente não levasse de avião uma série de cargas (respiradores, remédios, alimentos, exames), elas não chegariam", afirmou o presidente da Abear, Eduardo Sanovicz.

Apesar de um ligeiro aumento dos voos a partir de junho, o número de viagens aéreas ainda nem se compara com o que era registrado antes da pandemia e a expectativa de voltar ao patamar registrado antes é de mais de um ano para voo domésticos e três ou quatro anos para voos internacionais. "Nós estamos fechando o mês de agosto com praticamente 35% da malha no ar e esperamos chegar até 65% no final do ano. Se imaginar 8% que tínhamos em abril tivemos um crescimento. Pensando na indústria como um todo ela está funcionando a um terço do que ela funcionava antes da crise", acrescentou Sanovicz.

Diante da dificuldade econômica, as empresas aéreas chegaram a fazer acordos para evitar demissões, mas não impediu dispensas no setor. Apenas em Rio Preto, pelo menos 27 profissionais da aviação tiveram seus contratos de trabalho rescindidos até agosto. Desse total, 67% foram de funcionários que aderiram ao Programa de Demissão Voluntária (PDV) e dois outros colaboradores entraram em licença não-remunerada.

  • Estudo intitulado "Comportamentos, movimentos e transmissão de doenças respiratórias mediadas por gotículas durante voos transcontinentais" feito na Universidade Emory, dos Estados Unidos, revela os lugares do avião que aumentam as chances de contaminação. Feito em 2018, ajuda a dimensionar os riscos de transmissão de doenças respiratórias, como a Covid-19, no transporte aéreo
  • Uma equipe de pesquisadores acompanhou 1.540 passageiros e 41 comissários de bordo em 10 voos transcontinentais que decolaram dos Estados Unidos
  • As viagens com duração entre 3 e 5 horas foram feitas em aviões com um único corredor que separava duas fileiras de três assentos
  • Os estudos apontaram que os passageiros sentados em até um metro do infectado apresentam maior risco de ser contaminado por doenças respiratórias
  • Passageiros sentados nas poltronas do corredor do avião apresentam maior possibilidade de serem contaminados enquanto passageiros sentados ao lado das janelas apresentam menores chances, isso se eles não tiverem próximos de pessoas infectadas nas poltronas da frente ou de trás
  • A pesquisa também apontou que as aglomerações de pessoas nos corredores esperando a porta do avião se abrir para o desembarque também aumentam o risco, assim como filas desorganizadas no ato de embarcar do avião

Fonte: Revista Fapesp; National Geographic. Estudo "Behaviors, movements, and transmission of droplet-mediated respiratory diseases during transcontinental airline flights" da Universidade Emory (EUA).

Média de passageiros no aeroporto de Rio Preto

JANEIRO - 66.895

FEVEREIRO - 61.075

MARÇO - 44.197

ABRIL - 951

MAIO - 2.820

JUNHO -  4.601

Número de pousos e decolagens no aeroporto de Rio Preto

Janeiro

  • Pouso 786
  • Decolagem 786

Fevereiro

  • Pouso 907
  • Decolagem 908

Março

  • Pouso 739
  • Decolagem 747

Abril

  • Pouso 289
  • Decolagem 296

Maio

  • Pouso 489
  • Decolagem 490

Junho

  • Pouso 507
  • Decolagem 509

Fonte: Daesp

Durante o voo

  • Companhias aéreas tiveram que simplificar seu serviço de bordo e suspender as vendas de produtos nos voos. A medida visa evitar a circulação de pessoas dentro do avião
  • Faça o check-in online no site ou no aplicativo da companhia aérea
  • O passageiro que quiser água pode pedir aos comissários e receberá água mineral em copo descartável lacrado Em viagens mais longas, é oferecida comida em embalagem individual fechada e previamente higienizada, geralmente entregue no embarque
  • Durante o voo, o uso de máscara é obrigatório

Depois do voo

  • Não fique de pé assim que o avião pousar. Aguarde sentado, pois os comissários vão avisar quando chegar sua vez de se levantar para sair da aeronave
  • Para retirada das bagagens, os usuários devem respeitar o distanciamento social

Fontes: ABEAR, Anac, Anvisa, Airbus, Boeing e companhias aéreas

Reprodução

Com a disseminação da Covid-19 pelo mundo, o setor aéreo já começou a repensar o modelo da aviação pós-pandemia. Além do já existente filtro HEPA, que segundo especialistas consegue capturar e eliminar mais de 99% dos vírus e bactérias, tendo o ar do avião sendo renovado completamente a cada dois ou três minutos, empresas já pensam em assentos com tecidos capazes de eliminar vírus e bactérias, banheiros com portas que abrem e fecham automaticamente e luz ultravioleta para desinfecção do ambiente.

Aeronaves com maior distanciamento de poltronas também começam a ser pensadas. Isso porque mesmo com os filtros HEPA, um estudo feito em 2018, apontou que as chances de infecção aumentam quando passageiros sentam ao lado de uma pessoa infectada por alguma doença respiratória. "Os aviões de uma forma geral são vulneráveis porque você não pode abrir a janela, não pode haver circulação de ar natural, de fora, então tudo é baseado em recirculação. Com isso, durante uma viagem, que tem um passageiro sentado do seu lado, o seu risco fica maximizado. Mesmo que exista os filtros HEPA que são altamente eficientes", destacou o médico virologista da UFMG, Flávio da Fonseca.

Segundo o virologista, doenças respiratórias, como a Covid-19 são transmitidas através de gotículas de saliva: ao falar, tossir ou espirrar. "A gente elimina gotículas e essas gotículas que são a principal forma de infecção. No avião, as pessoas que estão compartilhando aquela cabine ficam vulneráveis, porque está preso naquele ambiente com baixa circulação de ar, apenas com circulação artificial, e ao lado de uma pessoa que você não sabe se está infectada ou não", destacou.

Para a professora da Faceres e do Programa de pós-graduação em Microbiologia da Unesp, Carolina Pacca Mazaro, outro fator que pode contribuir para contaminação é o não respeito aos protocolos de sanitização. "O aéreo é fechado e dependendo do percurso, caso seja muito longo, o que pode acontecer é que uma pessoa que estiver infectada e não tiver de máscara, a chance de dispersão é muito grande. Porque se ela tossir, ou falar muito o vírus vai ficar disperso no ar. Vamos ter mais tempo de dispersão. (RC)