Passado e presente, as duas margens de um rio unidas pela história

CRÔNICAS DO MARIVAL

Passado e presente, as duas margens de um rio unidas pela história

A contrariar o vaticínio de Visconde de Taunay, Rio Preto avança no tempo; feito só é possível de ser contado graças ao trabalho dos historiadores, a unir passado e presente como as margens de um rio


Represa
Represa - Colaboração: Alexandre Ferrari/Acervo Diário da Região

De acordo com a Fundação Seade, a densidade demográfica do município de Rio Preto mantém uma curva ascendente de crescimento desde quando o estudo passou a ser feito, em 1980, e chega em 2020 com a proporção de 1.037 moradores por quilômetro quadrado - quase vinte vezes a densidade da região administrativa e quase seis vezes a do Estado de São Paulo. Em termos ilustrativos, é como que se, em vez de 22 jogadores, tivéssemos dentro do estádio Benedito Teixeira, o Teixeirão, 100 pessoas dividindo o gramado com dimensões aproximadas de 90 por 120 metros quadrados. Um crescimento que exerce naturalmente uma pressão contínua por moradia e serviços básicos como transporte, educação, saúde e saneamento.

Um cenário que mais que justifica Rio Preto como polo regional do Noroeste paulista, a caminho de se tornar oficialmente região metropolitana a exemplo da capital e Campinas, e que contrasta vertiginosamente com a Rio Preto de um século e meio atrás. A alta densidade, naqueles primórdios, se dava de outra maneira: pela grande concentração de pessoas em um mesmo endereço.

O recenseamento realizado pelo Império em 1872 aponta que Rio Preto tinha 2.639 "fogos" - termo utilizado tanto para domicílios (casas) particulares quanto para instalações coletivas, como nos comércios e propriedades rurais - distribuídos em 207 grupos, que davam uma média de 13 pessoas por domicílio. Segundo este mesmo censo, 10,84% da população rio-pretense era escrava.

Uma época em que o município esforçava-se para imprimir feições mais citadinas a São José do Rio Preto. Isto ficou registrado em 1898, quando os legisladores debateram arduamente o ordenamento do traçado urbano. Consta na Ata da Câmara Municipal de 4 de outubro daquele ano um parecer da "commisão de Obras Publicas", favorável ao "projecto Lei nº 19", que em seu artigo 1º permitia a "construcção de cazas de alturas de quatorze palmos de pé direito fora do quadro e alem da rua Boa Vista". Era uma nítida preocupação em preparar a cidade para uma expansão futura que rompesse com o cenário descrito no "Album Illustrado de Rio Preto", de 1929, de um lugar de "matto intenso, matto convulso, enredando na sua trama a vida insipiente de uma cidade em ensaios". E que fosse além dos dois patrimônios que originaram as terras de Rio Preto: o de São José e de Nossa Senhora do Carmo, que correspondiam ao perímetro central, e o da Boa Vista, de bairro de mesmo nome e que em 1933 seria consagrado à Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

Registros históricos que ajudam a construir a identidade de Rio Preto e que atravessam o tempo graças ao trabalho incansável de pessoas como o da professora Nilce Apparecida Lodi, uma vida dedicada ao ensino de História, doutora em Filosofia, pesquisadora e historiadora do município que nos deixou no domingo passado, dia 26.

Ex-presidente do Comdephact (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Turístico) de 1996 a 2000, época difícil quando a entidade chegou a funcionar por um tempo em um restaurante que havia perto da Represa Municipal, e uma das fundadoras do IHGG (Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Rio Preto), a professora Nilce deixa um legado como um dos guardiões da memória rio-pretense. Legado que une passado e presente em um mesmo tempo, como quem une as margens de um mesmo rio (ou, porquê não, de nossa Represa Municipal).

Integrante da turma de 1960 da Fafi, faculdade que foi o embrião do campus rio-pretense da Unesp, a historiadora dedicou-se à preservação da história local, com objetivo de deixá-la registrada para gerações futuras. Seja nas obras que publicou, seja no tempo em que colaborou com o Diário da Região na coluna dominical "Diário História", no qual discorria seu conhecimento sobre os principais aspectos deste mosaico social que forma o que hoje conhecemos como São José do Rio Preto.

Trecho de A Terceira Margem do Rio*

"Proa da palavra, duro silêncio, nosso pai,

Margem da palavra entre as escuras duas

Margens da palavra, clareira, luz madura

Rosa da palavra, puro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri por entre as árvores da vida

O rio riu, ri por sob a risca da canoa

O rio viu, vi e ninguém jamais ouviu

O rio, ouviu, ouvi a voz das águas"

(*Música de Caetano Veloso e Milton Nascimento inspirada no livro A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa)

Reprodução

A morte da professora Nilce Lodi foi a segunda baixa, este ano, ligada à defesa da memória de Rio Preto. Em março, a cidade já havia perdido Milton Marconi. Bibliófilo, dono de acervo raríssimo, ele também deu grande contribuição para preservação da história local.

Pouco antes de partir, seu Mimi deixou um presente para este cronista, extensivo ao Diário e a todo público leitor: uma versão digitalizada de "Rio Preto de Ontem", obra de 1947 na qual o educador e jornalista Basileu Toledo França aborda a história de Rio Preto no período entre a sua fundação, em 1852, até 1912, ano da chegada do trem. A edição é da Casa de Cultura, então presidida por Olímpio Rodrigues.

A obra digitalizada estava salva em CD com problema técnico, agora resolvido. E, uma vez aberto, descortina toda a história de Rio Preto em minúcias desde os seus primórdios. Focaliza, no final da década de 1890, as noites embaladas por chotes e mazurcas no barracão ao lado da "Ponte da Formiga", na rua Prudente de Moraes, nos bailes à luz de lampiões e da lua. Fala da fartura de traíras próximo da antiga estação da EFA. Lembra que, em 1907, o cinema era ambulante, até o surgimento da primeira sala de projeção, o "Pathé Cinema", de Barbosa e Victor, em 1911. Dos brindes ofertados por algumas lojas, incluindo relógios marca Roskopf de algibeira. Dos engenhos de pinga e de açúcar às margens do Borá, num impensável cenário para a avenida Bady Bassitt. E da produção recorde, em 1898, de 10 mil arrobas de café e de 960 arroubas de toucinho.

Todos os fatos e personagens centrais estão presentes - de João Bernardino de Seixas Ribeiro a Pedro Amaral, de Ugolino Ugolini ao coronel Adolpho Guimarães Correa - , mas a leitura saborosa permite a imersão numa Rio Preto que atravessou o tempo. Num capricho da história, a contrariar o vaticínio do Visconde de Taunay feito em 1867 de que o então arraial ficaria estacionado naquele estado precário ou até mesmo se arruinaria totalmente.