Ministério Público vai apurar falta de medicamentos em Rio Preto

PREOCUPAÇÃO

Ministério Público vai apurar falta de medicamentos em Rio Preto

Hospital de Base informou a promotor que estoque dá para apenas seis dias


Governo zera tarifas de 34 medicamentos usados no combate à covid-19
Governo zera tarifas de 34 medicamentos usados no combate à covid-19 -

A Funfarme, que administra o Hospital de Base, procurou o Ministério Público nesta sexta-feira, 31, para relatar que só tem estoque de sedativos e relaxantes musculares para mais seis dias. A informação já havia sido adiantada pelo Diário da Região na edição publicada nesta sexta. Os medicamentos são essenciais para intubação de pacientes com coronavírus que estão na UTI, em estado grave. Eles também são usados por quem precisa fazer cirurgias. A demanda por esses fármacos aumentou muito durante a pandemia, já que um paciente intubado precisa deles o tempo inteiro - diferentemente de quem faz uma operação simples, por exemplo, que necessita apenas por algumas horas.

De acordo com o promotor Sérgio Clementino, o contato inicial da Funfarme foi feito por telefone, mas ele orientou que a fundação enviasse um documento, o que ocorreu ainda na sexta. O caso foi encaminhado ao promotor Carlos Romani, responsável pelos trabalhos relativos à Covid-19 na região.

No documento enviado ao MP, o HB informa que não há no momento disponibilidade para compra das substâncias no mercado em quantidade suficiente. São listadas 21 delas, entre anestésico, ansiolítico, bloqueador neuromuscular (manutenção de intubação e sequência rápida), fármaco antídoto, para sedação contínua e controle de delírio, para analgesia, vasoativos e para sequência rápida de intubação.

A crise não atinge apenas o HB, mas também a Santa Casa de Rio Preto e hospitais de Catanduva, Fernandópolis e Votuporanga.

Segundo Romani, existe um procedimento semelhante em andamento na Capital, e ele solicitará informações sobre ele. "Mas a questão é mundial, existe a escassez de insumos para sua produção diante do aumento da demanda. A importação da matéria prima está dificultosa para as empresas nacionais, além do aumento dos preços que também estão sendo objeto de investigação", afirma. "Também o MP federal está no circuito. Existe uma câmara de conciliação instalada para junto ao Ministério da Saúde tentar uma solução. A questão é intrincada e delicada e a regulação do mercado depende de vários fatores, que vai da produção, distribuição e aquisição dos medicamentos que estão com sua produção restrita diante da alta procura deles pelos hospitais", diz.

A Secretaria de Saúde de Rio Preto também enfrenta problemas, sobretudo com a transformação da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Jaguaré em um hospital. Nesta sexta-feira, dos 25 pacientes, sete estavam intubados. Além dos itens para sedação, na rede municipal falta também o antibiótico azitromicina. "Nós já comunicamos oficialmente o Estado da falta de medicamento não só da nossa rede, como também dos hospitais que nos cercam. É uma preocupação grande. Você abre leitos, mas não tem medicação para tratar o paciente", diz o secretário de Saúde, Aldenis Borim.

Ele pontua problemas que levam ao desabastecimento, como as empresas que não entregam os produtos, a falta de retorno por parte dos fornecedores e os preços elevados. "Você tem que justificar perante o Tribunal de Contas porque você vai pagar R$ 70 numa medicação que custava R$ 10. É uma exploração, tem que ter a intervenção do Estado", considera.

"Estão faltando vários medicamentos de sedação e relaxantes musculares. A situação é crítica, os fornecedores não dão prazo de normalização, e nosso consumo é altíssimo", disse nesta quinta-feira, 30, Amália Tieco, diretora administrativa do Hospital de Base. Nesta sexta-feira, 31, o hospital tinha 235 pacientes hospitalizados.

"Você pede cinco mil, te entregam mil; pede dez mil, te entregam dois mil", afirmou Valdir Furlan, administrador da Santa Casa de Rio Preto, também na quinta, sobre o desabastecimento. Segundo ele, está "dando para tocar" com os estoques, e nenhum paciente ficou sem atendimento ainda por falta dos medicamentos. "Está no mínimo dez vezes mais caro do que a gente pagava há quatro meses. E não acha." A Santa Casa estava com a UTI acima de sua capacidade nesta sexta - há 38 vagas, mas haviam 43 pacientes.

O Hospital de Base de Rio Preto informou que o diretor-executivo da Funfarme, Jorge Fares, teve alta hospitalar na manhã desta sexta-feira, 31. Segundo orientação da equipe médica do HB, Fares permanecerá em casa, onde vai continuar o programa de reabilitação física. Não há previsão para ele retomar as atividades profissionais.

Na manhã do último dia 23, Fares chegou a ter alta hospitalar, mas voltou ao hospital após sentir desconforto respiratório em sua casa. O médico foi diagnosticado com Covid-19 no dia 18 de junho e internado na UTI no dia 20 de junho. Ele tem 65 anos e foi encaminhado para a UTI devido à sua idade e porque apresentou níveis baixos de oxigenação no sangue.

O médico comanda o complexo hospitalar que inclui o Hospital de Base e o Hospital da Criança e Maternidade, além do Instituto Lucy Montoro e o Hemocentro.

Quem também teve alta após internação por Covid foi a aposentada Elza da Graça Souza Barbosa, 74 anos, com hipertensão arterial, diabetes e obesidade. Dona Elza emocionou médicos e funcionários da UPA Jaguaré, onde estava. A recuperação foi comemorada com balões, aplausos e muitos sorrisos e os profissionais da saúde fizeram questão de homenageá-la.

A Secretaria de Estado da Saúde disse que não foi notificada até o momento sobre o documento enviado ao MP pela Funfarme, mas que está à disposição do Ministério Público para esclarecimentos. "A pasta intensificou o monitoramento dos estoques de medicamentos utilizados em suas unidades hospitalares - principalmente naquelas que estão à frente do combate à Covid-19. Tanto é que hoje os serviços possuem estoques, incluindo o Hospital de Base de Rio Preto, referência fundamental para a assistência regional. Com o esforço já realizado pela Secretaria, a unidade possui cerca de sete diferentes apresentações desses remédios com autonomia para período superior a 15 dias", afirmou a Secretaria. "Segue em contato com o governo federal para garantir assistência adequada aos pacientes do SUS em SP", alegou.

Em nota enviada ao Diário, o Ministério da Saúde disse que tem auxiliado Estados e municípios a realizarem suas compras de relaxantes musculares e sedativos para pacientes internados com Covid-19. "De forma imediata, adquiriu e entregou 992.200 unidades de medicamentos da indústria nacional e 54.867 unidades de produtos de laboratórios uruguaios. Além disso, ocorreu, nesta segunda-feira, 27, licitação via Sistema de Registro de Preços (SRP) para compra dos medicamentos anestésicos. Já foram oferecidas pelas empresas concorrentes propostas para 20 itens que estão sendo adquiridos pelo Ministério da Saúde", garantiu. (MG)