Falta de medicamentos e insumos liga alerta na Saúde de Rio Preto

SAÚDE

Falta de medicamentos e insumos liga alerta na Saúde de Rio Preto

Antibiótico, anestésicos e relaxantes musculares estão com estoques baixos na rede pública e há dificuldade para encontrar fornecedores que tenham os remédios


Estoques de insumos para tratar Covid estão baixos
Estoques de insumos para tratar Covid estão baixos - Pexels

Pacientes da rede básica de saúde de Rio Preto estão enfrentando falta de azitromicina, antibiótico utilizado para tratar infecções respiratórias causadas por bactérias. Tanto a Secretaria de Saúde quanto os hospitais também relatam que permanece baixo o abastecimento de anestésicos e relaxantes musculares, necessários à intubação de pacientes de coronavírus. Está sendo difícil efetuar compras desses fármacos junto aos fornecedores.

Com suspeita de Covid-19, Gustavo Prado Teixeira Silva, de 32 anos, que trabalha fazendo limpeza de imóveis no pós obra, passou por três unidades básicas de saúde nesta terça-feira, 29. Ele não encontrou azitromicina nem oseltamivir em nenhuma delas - na farmácia, encontrou por R$ 80 e R$ 300, respectivamente. "Tentei comprar, mas está muito caro. Estou tomando só o loratadina. Os sintomas permanecem: resfriado, tosse, catarro. Hoje faz nove dias."

O pneumologista Rafael Mussolino, do Hospital de Base, explica que a azitromicina é um antibiótico contra bactérias, utilizado em pacientes com síndrome respiratória aguda grave (SRAG). Eventualmente, tem efeito benéfico na infecção viral também - na Covid-19, essa eficácia ainda não está comprovada, mas há indícios de que funciona contra outras, como a Influenza. Por isso, alguns médicos utilizam no tratamento de coronavírus - e também porque muitos pacientes têm como complicador da infecção a pneumonia bacteriana. "Por ser um antibiótico, precisa de indicação do médico", ressalta o especialista.

A demanda por substâncias que mantenham os pacientes confortáveis durante a intubação aumentou muito durante a pandemia. Se uma pessoa precisa delas por algumas horas para uma cirurgia, por exemplo, faz uso delas 24 horas por dia enquanto está no respirador. A crise é regional e exigiu que hospitais de cidades como Rio Preto, Catanduva, Fernandópolis e Votuporanga suspendessem as cirurgias eletivas para poupar os remédios para os casos de urgência e emergência, que não podem esperar.

Na rede municipal de Rio Preto, esses fármacos também têm sido utilizados, ainda mais desde que a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Jaguaré foi convertida em uma espécie de hospital, agora com 35 leitos. De acordo com a Saúde, nesta quinta-feira, estavam ocupados 29 deles, sendo quatro por pacientes intubados.

Aldenis Borim, secretário de Saúde, diz que a Secretaria de Estado da Saúde e o Ministério da Saúde foram comunicados sobre a falta de medicamentos e também de insumos, como kits de intubação. Ainda conforme o médico, nenhum paciente deixou de ser atendido por falta de relaxantes musculares e anestésicos.

"Estão faltando vários medicamentos de sedação e relaxantes musculares. A situação é crítica, os fornecedores não dão prazo de normalização, e nosso consumo é altíssimo", diz Amália Tieco, diretora administrativa do Hospital de Base, onde o atual estoque é suficiente para mais seis dias, se continuar no nível atual.

"Você pede cinco mil, te entregam mil; pede dez mil, te entregam dois mil", diz Valdir Furlan, administrador da Santa Casa de Rio Preto, sobre o desabastecimento. Segundo ele, está "dando para tocar" com os estoques, e nenhum paciente ficou sem atendimento ainda por falta dos medicamentos. "Está no mínimo dez vezes mais caro do que a gente pagava há quatro meses. Se achasse não teria problema, mas não acha."

Em Rio Preto, se estabeleceu uma espécie de "rede" de solidariedade entre a rede municipal, Santa Casa e Hospital de Base para compartilhamento de remédios. "Numa pandemia tudo muda, as regras mudam, mas graças a Deus estou vendo que a solidariedade e o espírito de cooperação entre todas as entidades está presente", acredita Amália.

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde informou que intensificou o monitoramento dos estoques de medicamentos utilizados em suas unidades hospitalares, principalmente nas que estão à frente do combate à Covid-19. "Em junho, para auxiliar os hospitais, a Coordenadoria de Assistência Farmacêutica fez uma força-tarefa e adquiriu 6,5 milhões desses medicamentos, incluindo remédios utilizados em pacientes entubados", disse a pasta no texto.

Conforme a Saúde, os hospitais têm remédios, mas o esforço federal é necessário para garantir a assistência adequada. "A pasta seguirá empenhada para que as unidades mantenham todos os medicamentos e materiais necessários para atendimento à população", concluiu.

A Secretaria de Saúde de Rio Preto foi questionada sobre o tempo de duração dos estoques existentes de medicação (relaxantes, sedativos e azitromicina), mas não respondeu. A reportagem também perguntou ao Ministério da Saúde sobre as medidas que estão sendo tomadas para assistir os municípios durante a crise, mas não obteve retorno até o fechamento da edição.

Internações

De acordo com a Saúde, nesta quarta-feira, 29, havia 299 pacientes rio-pretenses internados com síndrome respiratória aguda grave (SRAG) em hospitais de Rio Preto. Desses, 177 estavam com coronavírus confirmado, sendo 97 em enfermaria e 80 em UTI.

O Hospital de Base está buscando credenciamento para mais leitos de UTI, para trabalhar com mais tranquilidade, visto que a taxa de ocupação não sai de pelo menos 85% e em alguns dias já ultrapassou os 90% das 117 vagas disponíveis. A Santa Casa não possui capacidade de ampliação dos leitos de alta complexidade, mas há algumas semanas liberou mais 14 de enfermaria para Covid-19 - para isso, teve que retirar alguns de outros setores.

Como o Diário já havia adiantado, o Austa está construindo uma unidade dedicada ao atendimento e internação de pacientes com síndromes respiratórias, situada em um prédio ao lado da instituição. Serão 35 leitos, sendo cinco de isolamento e dez de UTI. A obra deve ser concluída na segunda quinzena de agosto.

Departamento Regional de Saúde (DRS) de Rio Preto até 30/7/2020 (inclui 102 cidades)

Ocupação de leitos na DRS

  • Enfermaria: 52,5%
  • UTI: 79,5%
  • 87 novas internações no dia 29/7

Ocupação de leitos no Estado

  • Enfermaria:
  • Enfermaria: 48,4%
  • UTI: 64,0%

Internações de pacientes de Rio Preto em 29/7

  • 299 pacientes com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), sendo 177 deles com Covid-19 confirmada
  • Enfermaria: 182
  • UTI: 117

Hospitais de Rio Preto

Hospital de Base

  • Enfermaria (280 vagas): 108 pacientes (38,5%)
  • UTI (117 vagas): 104 pacientes (88,8%)

Santa Casa

  • Enfermaria (59 vagas): 47 pacientes (79,6%)
  • UTI (38 vagas): 40 pacientes (acima de 100%)

A Secretaria de Saúde de Rio Preto confirmou nesta quinta-feira, 30, mais 273 casos de coronavírus na cidade, totalizando 8.883. Desse total, 236 pessoas morreram - mais dois óbitos foram contabilizados nesta quinta.

A maioria das vítimas fatais da doença apresentava alguma doença de base que prejudicou ainda mais o quadro, como diabetes, cardiopatia, obesidade, imunodepressão e doenças neurológicas.

Cidades da região também registraram mortes. Em Mirassol, foram três. As vítimas eram idosas, de 75, 79 e 90 anos, que estavam internadas no Hospital de Base de Rio Preto. Todas apresentavam comorbidades. Jales confirmou o oitavo óbito, de um idoso de 72 anos.

Barretos registrou mais duas mortes - são 78 no total - de um homem de 59 anos e em uma idosa de 91 anos, ambos com comorbidades.

Outros dois óbitos foram registrados em Potirendaba e Tanabi, chegando a cinco e a 17, respectivamente. Em Potirendaba, as vítimas eram um homem de 85 anos, com cardiopatia, e uma mulher de 57 anos, sobre a qual não foi informado se tinha comorbidades. Em Tanabi, os perfis não foram divulgados.

Em Nova Granada, a quarta vítima era uma idosa de 85 anos com comorbidades. Votuporanga confirmou o 41º óbito por coronavírus, de uma idosa de 78 anos que não tinha comorbidades. Bálsamo registrou a quinta morte e Buritama, a sexta.

Catanduva chegou a 46 mortes com mais uma confirmação nesta quinta - a vítima é um idoso de 61 anos que estava internado no Hospital Unimed São Domingos.

(Colaboraram Millena Grigoleti e Ingrid Bicker)

Arquivo Pessoal

Dentre os 8.883 pacientes com coronavírus confirmado em Rio Preto, 6.235 (70%) são considerados curados. Uma dessas pessoas é a professora Sandra Mariza Desidério, de 59 anos. Ela teve alta da Santa Casa em 14 de julho, após uma semana internada. Não foi necessário ir para a UTI. "Fiquei com oxigênio porque estava com muita falta de ar. Fui medicada, tomei muito antibiótico, fui muito bem tratada", lembra.

Foram momentos difíceis, conta Sandra, que é asmática e ainda se sente um pouco cansada. "Foi horrível, mas eu tenho muita fé, me apeguei e fiquei tranquila para superar. O desespero não adianta nada. Confiei na doutora, que é minha médica há muito tempo".

Um paciente é considerado curado quando seu corpo já desenvolveu anticorpos suficientes. Pode ser liberado da quarentena 14 dias após o início dos primeiros sintomas, desde que todos os sinais tenham desaparecido - caso contrário, terá de ficar em isolamento por mais tempo.