Em oito horas, 500 voluntários se inscreveram para testar vacina da Covid em Rio Preto

À ESPERA DAS DOSES

Em oito horas, 500 voluntários se inscreveram para testar vacina da Covid em Rio Preto

Famerp divulgou nesta terça, 28, e-mail para receber a inscrição de profissionais de saúde que querem ser voluntários nos testes da vacina contra coronavírus. Em oito horas, 500 pessoas fizeram cadastro


Coletiva de imprensa realizada na manhã desta terça-feira, 28, na Famerp para anunciar detalhes da vacina: distanciamento respeitado
Coletiva de imprensa realizada na manhã desta terça-feira, 28, na Famerp para anunciar detalhes da vacina: distanciamento respeitado - Francela Pinheiro 28/7/2020

Em oito horas da divulgação do e-mail da Famerp para o cadastro de voluntários para os testes da vacina CoronaVac em Rio Preto, cerca de 500 profissionais de saúde se inscreveram. Eles querem fazer parte do grupo de até 700 pessoas que participarão da pesquisa. Os participantes passarão por uma seleção de acordo com os requisitos e devem começar a receber os testes em meados de agosto, segundo o virologista Maurício Lacerda Nogueira - a data exata ainda não foi definida. Os recrutados receberão as doses no Centro de Pesquisa da Vila Toninho, onde a Famerp pesquisa também a vacina contra a dengue.

A CoronaVac é o imunizante produzido pelo laboratório chinês Sinovac Biotech em parceria com o Instituto Butantan. Profissionais da saúde da linha de frente no tratamento da Covid-19, que não tiveram a doença e se enquadram dentro dos requisitos, podem se inscrever pelo site do governo do Estado e pelo e-mail [email protected].

Os voluntários não podem ter doenças ou estar em tratamentos que comprometem o sistema imunológico, não podem ter feito uso abusivo de álcool ou droga nos últimos 12 meses, como também não podem participar de outro estudo. As mulheres não podem estar grávidas ou com plano de engravidar nos próximos três meses. "E em todos os selecionados faremos testes rápidos", afirmou Lacerda.

Os voluntários farão um contrato com a Saúde do Estado para serem acompanhados por um ano, ou seja, precisam ficar na cidade e na região neste período. "Eles terão que fazer visitas no centro para avaliação. Serão sete visitas, e serão monitorados por 12 meses", disse o médico. A previsão é de que a equipe da Famerp com até 15 profissionais comecem a aplicar os testes no próximo mês. "Meados de agosto. Se é dia dez, se é dia 20, eu não sei", afirmou o virologista.

Metade dos recrutados receberão duas doses da vacina num intervalo de 14 dias e a outra metade receberá as doses de placebo. "Como é um estudo de eficácia, preciso que parte contraia o vírus. Os casos da doença em placebos precisam ser maior do que da vacina (voluntários que tomaram o imunizante)", explicou Lacerda.

Diferentemente da previsão do governador, João Doria, sobre resultados já em novembro deste ano e início das primeiras aplicações da vacina em janeiro de 2021, o virologista da Famerp afirmou que não há previsão. "Pode ser novembro deste ano ou pode ser novembro do ano que vem".

As doses da CoronaVac estão no Instituto Butantan desde a segunda-feira, 20. Segundo o virologista, os imunizantes devem vir para a Famerp apenas dias antes do início das aplicações. "Não tem por que vir antes do início dos testes", afirmou.

A vacina em teste em Rio Preto e em outros 11 centros de pesquisas no Estado de São Paulo, e em Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, já foi aplicada em 744 voluntários chineses. Eles receberam o imunizante durante testes preliminares e a etapa sobre segurança detalhada da vacina e resposta imune.

As duas etapas anteriores foram validadas por órgãos responsáveis. A vacina também passou por teste experimental aplicado em macacos com resultados positivos em termos de resposta imune contra o coronavírus. A expectativa agora é de que o imunizante funcione como prevenção em humanos. "É preciso ter uma vacina rápida que diminua, principalmente, os casos graves", disse Lacerda.

Sobre um possível "escape" da vacina lá na frente por mutações do vírus, Lacerda afirmou que há uma preocupação, mas nada diferente da vacina da gripe (influenza) que precisa ser atualizada ano a ano. "Me preocupa daqui três, quatro anos. Mas isso não vai dar esse impacto agora", disse.

Interessados

Mais de 1 milhão de pessoas se candidataram para serem voluntárias nos testes da Coronavac. A informação foi dada pelo secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn. A vacina começou a ser testada na terça-feira passada em voluntários no Hospital da Clínicas de São Paulo. E a partir desta quinta e sexta-feira, dias 30 e 31, a vacina passará a ser testada em outros quatro centros: Instituto Emílio Ribas, na Capital, Hospital das Clínicas da Faculdade de Ribeirão Preto da USP, Universidade Municipal de São Caetano do Sul e Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Fármacos da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte.

As fases de desenvolvimento

1- Exploratória ou laboratorial: restrita aos laboratórios. São avaliadas dezenas e até centenas de moléculas para se definir a melhor composição da vacina.

2- Pré-clínica ou não clínica: são realizados testes em animais para comprovação dos dados obtidos em experimentações in vitro.

3- Clínica: É a testagem em seres humanos. Esta fase do processo se divide em três:

  • Fase 1 - teste de segurança. São testados poucos voluntários, de 20 a 80, geralmente adultos saudáveis.
  • Fase 2 - analisa mais detalhadamente a segurança do novo produto e também sua eficácia. Em geral, é usado um grupo um pouco maior, que pode chegar a centenas de pessoas.
  • Fase 3 (a vacina a ser testada pela Famerp se encaixa aqui) - testa a segurança e eficácia do produto especificamente no público-alvo a que se destina. Nesta etapa, o número de participantes pode chegar a milhares.

Vacinas em testes

  • Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há cerca de 150 vacinas em desenvolvimento
  • Cinco estão na fase de testes em humanos - a mais avançada. Entre elas, as duas que estão em fase de testes no Brasil: a Coronavac, da farmacêutica chinesa Sinovac, e a Astrazeneca, da Universidade de Oxford, da Inglaterra
  • A AstraZenenca começou a ser testada em voluntários no Brasil no fim de junho, em estudo liderado no país pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com o Ministério da Saúde.
  • A Coronavac será aplicada em nove mil voluntários - entre 500 e 700 pela Famerp, em Rio Preto.
  • R$ 85 milhões é o valor que o governo do Estado desembolsou para a parceria com a empresa chinesa. O acordo prevê a transferência de tecnologia para produção da vacina, pelo Butantan, e distribuição pelo SUS.
  • 12 centros de pesquisas farão os estudos clínicos, entre eles o Laboratório de Virologia da Famerp.
  • Os outros centros ficam em São Paulo (quatro pontos), Campinas, Ribeirão Preto e São Caetano do Sul, além de Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (RJ) e Curitiba (PR).

A Coronavac

  • Doses já foram administradas com sucesso em cerca de mil pessoas na China nas fases clínicas um e dois - antes, já havia sido aprovada em testes de laboratório e em macacos
  • A vacina da Sinovac é baseada na manipulação em laboratório de células humanas infectadas com o coronavírus
  • São utilizados fragmentos "desativados" do coronavírus para inoculação em humanos. Com a aplicação da dose, o sistema imunológico passaria a produzir anticorpos contra o agente causador da Covid-19.
  • É o mesmo princípio usado em outras vacinas globalmente bem-sucedidas, como as do sarampo e poliomielite.
  • A empresa chinesa aponta 90% de eficácia, sem efeitos colaterais.

Voluntários

  • Serão profissionais de saúde da rede pública ou privada, que trabalham na linha de frente de combate à Covid.
  • Não podem ter testado positivo para Covid-19, não pode ter doenças instáveis - que afetem a resposta imune - ou distúrbios de coagulação;
  • Mulheres grávidas não poderão participar dos testes

Como se inscrever:

  • É possível responder a um questionário no site www.saopaulo.sp.gov.br/coronavirus/vacina para saber se é apto a receber as doses
  • Para oficializar o desejo de participação, é preciso enviar e-mail para [email protected]
  • No e-mail, o candidato deve se apresentar (nome, idade, profissão, entre outros) e dizer que é um voluntário em potencial pelos critérios do site e que pretende participar

Os testes em Rio Preto

  • A aplicação de doses em Rio Preto deve começar apenas em meados de agosto. A vacina ainda não chegou à cidade
  • Metade dos voluntários será vacinada com a nova imunização e a outra metade com doses placebo (medicamento sem efeito).
  • Nem o pesquisador nem o paciente vão saber o que foi aplicado (se a vacina ou o placebo), para que isso não interfira no resultado do estudo.
  • Apenas o Hospital das Clínicas, em São Paulo, já iniciou a aplicação das doses em voluntários.
  • Outros quatro centros iniciam os testes entre os dias 30 e 31 de julho: o Instituto Emílio Ribas (São Paulo), a equipe de Medicina da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, o Centro de Saúde Escola da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Fármacos da UFMG (Belo Horizonte)
  • Todos os participantes do estudo serão acompanhados durante um ano por uma equipe multidisciplinar que envolve médicos, enfermeiros e farmacêuticos.

O Ministério da Saúde espera que a vacina que está sendo testada no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Universidade de Oxford e o laboratório AstraZeneca, seja aprovada até dezembro deste ano para início da vacinação na população no mesmo mês. A afirmação foi feita nesta terça-feira, 28, pelo secretário de Vigilância em Saúde do Ministério, Arnaldo Correia de Medeiros, em entrevista à emissora CNN Brasil.

Segundo o secretário, o MS fechou um acordo para o envio de cem milhões de doses. "O primeiro lote deve chegar na primeira quinzena de dezembro, com 15,2 milhões de doses, e o segundo terá o mesmo número de aplicações e chega entre dezembro em janeiro", afirmou.

Já o terceiro lote, com 70 milhões de doses, tem previsão de chegada entre março e abril. "Se todos os estudos derem certo, nós iremos iniciar a campanha de vacinação em dezembro", ressaltou. O plano, segundo ele, é iniciar a vacinação em idosos, pessoas com comorbidades e profissionais da saúde da linha de frente. (FP)