Com isolamento social, solteiros migram para a paquera online

NA 'SECA'

Com isolamento social, solteiros migram para a paquera online

Período de quarentena dificulta a vida amorosa dos solteiros: sem encontros presenciais e festas, o jeito agora é migrar para a paquera online


Douglas Falchi, 19 anos, instalou o Tinder para conhecer pessoas novas
Douglas Falchi, 19 anos, instalou o Tinder para conhecer pessoas novas - Arquivo pessoal

A quarentena pode ter ajudado alguns casais a aprimorarem seus relacionamentos, mas, por outro lado, tem deixado a maioria dos solteiros em um período de 'seca', termo utilizado quando uma pessoa não se relaciona com outra por bastante tempo.

Com a necessidade de ficar em casa em isolamento social, quem ainda não tem um parceiro fixo precisou arrumar outros meios para se relacionar. Os mais procurados, nos tempos de pandemia, são os famosos aplicativos para namoro, que proporcionam um catálogo virtual de pessoas para conversar e marcar encontros.

Essa realidade já faz parte da rotina do universitário Douglas Falchi, 19 anos, que desde o início da pandemia, há mais de quatro meses, não se envolve pessoalmente com alguém. Segundo ele, é melhor não colocar em risco a sua saúde e a de sua família: o contato físico e os beijos na boca podem esperar.

O jovem era acostumado a frequentar festas e a sair com amigos, além de paquerar na faculdade. Com as aulas presenciais suspensas e o cancelamento dos eventos, Douglas teve que descobrir uma nova alternativa para se relacionar, mesmo que à distância. Foi então que decidiu instalar o aplicativo Tinder em seu celular, mas os encontros não passaram dos virtuais. Ele afirma que ainda não marcou nada presencial, nem para depois que a pandemia acabar. "Faz muita falta ter esse contato, a carência chega às vezes, mas vou levando dessa forma, conhecendo pessoas pelos aplicativos e também conversando com quem eu já paquerava na faculdade ou conheci em alguma festa."

Douglas ainda conta que o maior problema é manter os assuntos sem que fiquem repetitivos. "Por conta da quarentena, estou indo só do trabalho para casa, não faço nada de especial. A maioria das pessoas também está assim, então, as conversas não se prolongam tanto", diz.

Espontaneidade

Tem gente, no entanto, que ainda não se rendeu aos aplicativos para namoro. É o caso da jornalista Cris Oliveira, 44 anos, que prefere que as paqueras aconteçam de maneira espontânea, por isso, nunca teve vontade de procurar parceiros pela internet, mesmo durante a pandemia. "Eu tenho mantido contato com pessoas que eu já conhecia, mas apenas pelo WhatsApp, desde o dia 17 de março. Sem as interações 'reais', o mundo agora virou o WhatsApp para mim", afirma.

Cris não nega que precisou lidar com tentações durante o isolamento em algumas propostas de encontro com pessoas que ela se sente atraída fisicamente, mas conta que resistiu e disse não para todas. "Por eu não estar envolvida emocionalmente com essas pessoas, foi mais fácil resistir. É melhor assim, ter consciência, já que não quero arriscar a minha saúde e, principalmente, a de outras pessoas."

Uma jovem que preferiu não ser identificada não aguentou esperar o fim do isolamento para encontrar um de seus paqueras. Ela conta que terminou um relacionamento durante a pandemia e decidiu entrar em aplicativos para conhecer pessoas novas, com o propósito de se distrair. Contudo, foi apenas um dos paqueras que conseguiu convencê-la a marcar um encontro e sair de casa. Os dois começaram a conversar há um mês pelo Instagram, mas ele já era conhecido por alguns amigos dela. "Eu resisti a várias propostas anteriores, mas, depois de ter certeza de que ele estava se cuidando, decidi ir ao encontro. O nosso papo era muito legal."

De acordo com a psicóloga especialista em sexualidade Ana Monachesi, o período de quarentena vem causando problemas de ansiedade e tensão na vida da maioria da população e isso reflete diretamente na sexualidade. A tendência é de que as pessoas sejam atingidas por um dos extremos: não sentem nenhum tipo de desejo e atração sexual ou ficam extremamente sexualizados e acabam se colocando em perigo, arriscando a saúde por impulso. "Além de quebrar o isolamento, que é essencial para evitar a contaminação pelo coronavírus, as pessoas deixam de se proteger também na hora da relação sexual, com a exposição ao vírus e às doenças sexualmente transmissíveis", afirma.

Ainda segundo a especialista, isso acontece devido às limitações impostas pela pandemia, nessa nova realidade do mundo. "É possível perceber respostas momentâneas diferentes na vida sexual das pessoas. Respostas que não são identificadas durante toda a vida, mas que agora podem ser apresentadas. A busca pelos aplicativos de namoro é um exemplo."

Entre os aplicativos para paquera online mais utilizados estão o Tinder, o Badoo, o Happn e o Grindr, que é exclusivo para o público LGBT. O Facebook também criou uma área para relacionamentos, conhecida como Dating.

(colaborou Ingrid Bicker)