Rio Preto tem o trânsito mais letal do Estado, diz pesquisa

VIDAS PERDIDAS NO ASFALTO

Rio Preto tem o trânsito mais letal do Estado, diz pesquisa

Estudo da USP em parceria com Ufscar e Fatec, com dados dos últimos três anos, aponta o trânsito de Rio Preto como o mais letal entre as maiores cidades do Estado


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Eleito um dos melhores lugares para se viver no Brasil, Rio Preto também se destaca em um cenário trágico: a cidade é campeã estadual em número de mortes provocadas por acidentes de trânsito nas vias municipais.

Paradoxalmente, as qualidades apresentadas pela maior cidade do noroeste paulista são apontadas como parte da causa do problema que dá ao trânsito rio-pretense a condição de o menos seguro do Estado. Isso porque as ruas e avenidas pavimentadas facilitam a mobilidade, mas também proporcionam o excesso de velocidade, que só no primeiro trimestre deste ano representou 54% do total de infrações registradas no município.

A alta renda per capita (a 56ª maior do País) é apontada como uma das razões para Rio Preto ser a capital estadual dos carros, com 86 veículos para cada cem habitantes, segundo o levantamento com base em dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran).

Esses fatores, somado à imprudência e à direção agressiva seriam os principais motivos que levaram a cidade a ter a maior taxa de mortalidade a cada 100 mil habitantes na média dos últimos três anos. Os números são de um levantamento divulgado pelo Núcleo de Estudos de Segurança no Trânsito (NEST) do Departamento de Engenharia de Transportes (STT) da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP. O levantamento foi publicado neste ano e contou com colaboração de alunos e professores da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatec), unidade São Carlos.

A publicação "Mortalidade no trânsito nos municípios paulistas com mais de 200 mil habitantes", apresenta o desempenho da segurança viária em 26 municípios com a utilização de taxas de acidentalidade ou mortalidade em relação a população, frota ou quilometragem percorrida.

Foram apresentadas as taxas de mortes por 100 mil habitantes nos anos de 2017, 2018 e 2019. "Nós consideramos a região metropolitana de São Paulo como um único município, já que as cidades estão conurbadas", explicou o professor de Engenharia de Tráfego da USP São Carlos, Antônio Clóvis Pinto Ferraz, um dos responsáveis pelo levantamento.

O pesquisador esclarece que os valores foram determinados mediante a relação entre os números de mortes no trânsito, disponíveis no site do Movimento Paulista de Segurança no Trânsito do Governo do Estado de São Paulo, e os dados sobre as populações de cada município, consultados no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A publicação não contempla mortes registradas nas rodovias estaduais ou federais, sob responsabilidade dos governos estadual e federal.

De acordo com o levantamento, Rio Preto ocupa a pior colocação na média dos últimos três anos com a taxa de 9,75 mortes a cada 100 mil habitantes. A cidade é seguida por Franca (9,24) e Praia Grande (9,17). As cidades com melhores índices são: São Carlos (4,42); Bauru (4,63) e Marília (4,93).

Em 2017, Rio Preto ocupou a última posição do ranking com índice de 13,7 mortes provocadas por acidentes de trânsito a cada 100 mil habitantes. No ano seguinte, o município teve uma recuperação e subiu para a 11ª posição com a taxa de 6,3. Já em 2019, o município voltou a cair e passou a ocupar a 24ª posição com 9,12, ficando atrás apenas de Araraquara (9,47) e Guarujá (11,23).

"O estudo é feito para apresentar um panorama e acompanhar as cidades que melhoraram ou pioraram no ranking, mas não é nosso objetivo apontar as políticas públicas necessárias para cada município", destacou Ferraz. No entanto, o pesquisador aponta algumas ações que podem ser adotadas pelas cidades. "Algo essencial, é o que os norte-americanos chamam de três 'es', que são Engineering, Enforcement e Education (respectivamente Engenharia, Fiscalização e Educação na tradução em português). É preciso atuar nessas três áreas", afirma.

Além de fatal, proporcionalmente, o trânsito rio-pretense é o que deixa mais gente ferida entre as 15 maiores cidades do Estado, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP). A cada cem mil habitantes, 443 tiveram lesão corporal em acidente de trânsito no ano de 2019. Rio Preto aparece bem à frente da segunda colocada, Ribeirão, que teve 188 feridos em cada grupo de cem mil habitantes.

O atendimento às vítimas de acidente no Instituto de Reabilitação Lucy Montoro, em Rio Preto, corresponde a 30% do número de pacientes que passam pelo local, afirma a fisiatra Regina Helena Morganti Fornari Chueire, diretora da unidade.

"Em Rio Preto, a característica do Lucy Montoro são os atendimentos automobilísticos ou de motos, diferente do que ocorre em outras regiões do estado. Em São Paulo, é mais comum pessoas vítimas de bala de fogo ou de acidentes domésticos".

Ela ressalta que além dos casos de problemas motores, pessoas com sequelas enfrentam problemas psicológicos como quadros depressivos. "Voltar ao normal, sabemos que nem todos irão totalmente. E, muitos pacientes têm dificuldade em aceitar", pontua Regina.

Desafios

Proporcionar um trânsito seguro para a cidade com a maior frota de veículos automotores do Estado é uma tarefa difícil, mas conscientizar os motoristas sobre a direção consciente é o grande desafio.

O coordenador regional do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), o cirurgião André Luciano Baitello, aponta a imprudência como sendo o principal problema. "Os acidentes sempre aumentam entre a noite de sexta-feira e madrugada de sábado e estão relacionados ao consumo de bebida alcoólica e ao excesso de velocidade", afirma.

De acordo com o Infosiga-SP, do total de acidentes fatais nas vias municipais no ano passado, 85% foram registrados entre a noite de sexta e a tarde de domingo.

Nos casos de lesões, as principais vítimas são o motociclistas - cerca de 80% dos atendidos pelo Samu. As principais lesões são traumas nos membros inferiores, tórax e abdômen. O perfil do acidentado é homem, com idade entre 20 e 40 anos.

"Hoje, no País, ter carro ainda é uma questão de status. Se a pessoa anda de ônibus ou bicicleta, acaba sendo motivo de gozação", afirma o Secretário Municipal de Trânsito de Rio Preto, Amaury Hernandes. Ele defende que o trânsito inflado somada aos desrespeitos às leis de trânsito são fatores que maximizam a chance de acidentes.

Hernandes afirma que a cidade adotou diferentes medidas para diminuir os acidentes de trânsito e, assim, o número de óbitos e lesionados. "Nós reduzimos o limite de velocidade em diversas avenidas e aumentamos a fiscalização eletrônica, além disso investimos em ações educativas", diz.

Apesar das ações do poder público, o responsável pela pasta reforça a necessidade de uma conscientização e de uma mudança cultural. O Secretário avalia que pode chegar um momento em que as vidas municipais não consigam comportar o número de veículos, por isso o município investe em alternativas. "Essa é a tendência das grandes cidades, aumentar a quantidade de ciclistas, pessoas andando a pé e que usam o transporte público também".

Rio Preto conta com uma frota de 250 ônibus em atuação, todos com wi-fi. Desse total, 15% possui ar-condicionado. "A cidade também investiu em corredores de ônibus, estamos construindo mini-terminais e futuramente será mudada a logística do transporte. Tudo isso é para oferecer um transporte melhor para os usuários para diminuir o uso do carro particular", finaliza Hernandes.

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