A tecnologia ajuda vovôs e vovós a matar a saudade dos netos

AMOR QUE NÃO SE MEDE

A tecnologia ajuda vovôs e vovós a matar a saudade dos netos

Pandemia de coronavírus acabou mexendo com a vida de muitos avós, que agora não podem se encontrar com frequência com seus netos: saudade faz aumentar vontade de abraçar e beijar


Vânia Regina Caldeira tem cuidado do neto Henrique para a filha trabalhar
Vânia Regina Caldeira tem cuidado do neto Henrique para a filha trabalhar - Guilherme Baffi - 24/7/2020

Neste domingo, 26 de julho, é comemorado o Dia dos Avós. Neste ano, a data em homenagem aos anjos eternos da vida de netos e netas é celebrada em meio à pandemia de coronavírus, com vovós e vovôs distantes fisicamente de seus amores ou mais juntos do que nunca ainda em razão do fechamento das creches e escolas. Um momento em que cada um expressa do seu jeito, mas todos eles com uma única certeza: com muito amor pelas crias das crias.

"Neto é um amor que não dá para explicar. Parece que voltei aos 40 anos para poder cuidar do meu neto. Estou revivendo o que eu já vivi, mas agora de uma forma mais leve, mais à vontade", afirma Vânia Regina Caldeira, 59, avó do Henrique, de nove meses. A avó está com o neto desde o início da pandemia, para a filha Fernanda trabalhar.

No caso de Vânia, a pandemia uniu o neto à família. "A chegada do Henrique foi inesquecível. Hoje eu não sou mais a mãe da Fernanda, sou a avó do Henrique", disse. "É um amor incondicional. Ele trouxe paz, ele é uma criança muito do bem. Se a gente morre por um filho, por um neto morre duas vezes", brinca.

Saudades

Para outros avós, o sentimento de amor pelos netos se transformou em saudade sem fim. Avó de cinco netos, a voluntária Teresinha Logarouto, 65, sente a dor do distanciamento, principalmente pela mais novinha, a pequena Laura, que nasceu no último dia 7. "Tínhamos toda programação de estar com ela, mas com a pandemia não podemos acompanhar", afirma a avó. "Tem neto que não vejo há cem dias. Eu não aguento mais ficar longe deles".

Saudade e solidão que transbordam emoção quando as lembranças vêm na memória. "Eles eram de vir todo fim de semana e a gente dormia tudo embolado", recorda. Com o distanciamento social, a salvação é a tecnologia. "Eu falo com eles por vídeo. Vejo minha netinha bebê também por vídeo, é uma alegria", conta Teresinha.

Convivência virtual que também faz a alegria dos dias de José Ribamar de Jesus de Souza, 95. Viúvo, ele teme os riscos da Covid-19 e mantém os contatos diários por meio de ligações por vídeo. Entre os dez netos e 11 bisnetos, está a advogada Lívia Cardoso e Souza, 34, que já usou o ao vivo até para ensinar o avô como assistir filme pela Netflix. "É uma neta que me dá muita atenção e apoio. A gente troca muita ideia. Não posso ficar sem esse contato porque senão fico mais isolado".

Sem a adesão aos aplicativos, a aposentada Edna Janini Fernandes, 72, fica feliz de ouvir a voz das netas Luana, 13, e Luíza, 19. "A saudade é imensa. Ouço a voz e fico contente. Vamos rezando para acabar e nos encontrar logo. Quando elas chegavam era beijo dali e beijo daqui", lembra. "A gente não vê a hora de acabar para as meninas voltarem a vê-los", afirma a filha Fabiana Janine Fernandes dos Santos.

Para os netos, a necessidade de diminuir os beijos e abraços e até deixá-los de lado por conta da pandemia também não é tarefa fácil. "A única vez que eu vi meus avós eu estava do lado de fora e meu avô dizia que queria um abraço porque eu não estava doente, mas optamos por protegê-los; tivemos casos de Covid na família", contou a confeiteira Larissa Canzela, 27.

A convivência com os netos e o distanciamento social das crianças nesse momento precisa ser cauteloso e equilibrado. A afirmação é do médico da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia João de Castilho Cação. "A gente tem uma situação real, que é o fato de as crianças serem vetores biológicos do vírus que manifestam poucos sintomas ou serem assintomáticas", afirma o médico.

Por outro lado, o médico afirma que o medo do coronavírus não deve imobilizar a vida dos avós. "A gente tem que lembrar que para todo mundo que é jovem há mais coisas a serem feitas pela primeira vez e os idosos têm mais coisas para fazerem pela última vez", pontua. "Um último aniversário junto, uma comemoração em família, a gente tem que dosar tudo isso. Evitar o contato presencial, mas criar boas oportunidade por meio virtual, por exemplo", orienta.

Já para aqueles avós que tomaram o lugar das mães e dos pais por conta das creches e escolas fechadas, Cação alerta para os cuidados necessários para que eles não percam a rotina de alimentação, atividade física e até medicamentos. "Antes da pandemia, os avós que são saudáveis (não são idosinhos), já assumiam papeis dos pais. Eles precisam ajudar, mas também precisam ser ajudados", afirma o médico.

Ter tempo estabelecido para refeições, para atividade física, para tomar os remédios e vitaminas, segundo Cação, são coisas sagradas para o envelhecimento saudável dos avós. "Uma das coisas mais importantes para o envelhecimento é ter uma rotina. Não tem que deixar a vida para cuidar apenas da vida da família. Os filhos precisam respeitar o limite", finaliza. (FP)

Cuidados diários, afeto e amor são ingredientes indispensáveis nesse momento para manter a saúde mental das vovós e dos vovôs. A psicóloga Mara Madureira afirma que os filhos são quem mais pode ajudar os avós nesse quesito. "Se estiverem mantendo o distanciamento social, que mantenham a proximidade afetiva. Podem ajudar fazendo contatos frequentes, mesmo que online, com chamadas de vídeo."

Para os filhos e netos que estiverem vivendo juntos ou encontrando com os avós, o conselho da psicóloga é para os programas recreativos. "Como passeios de carro ou caminhadas juntos". O diálogo também é importante, segundo Mara. "Estabeleçam diálogos, perguntem e ouçam como eles estão se sentindo, do que precisam, e como você pode ajudá-los. É melhor saber do que supor. Às vezes damos o que eles não precisam, e deixamos de oferecer o necessário", alerta.

A psicóloga sistêmica familiar Marcia Regina Orsi complementa com orientações para que os filhos criem alternativas de contatos, "como visitas mascaradas na calçada, escrever cartas, mandar fotos impressas, flores, fazer serenatas e desenvolver toda forma de expressão de afeto que não necessariamente o toque", afirma. "Isso sempre traz alegria ao coração". ressalta.

Para as vovós e os vovôs, o primeiro recado é pensar que o futuro será melhor. "É preciso ter em mente que esse modo de vida será temporário, embora esteja durando muito", afirma. Enquanto isso, a terapeuta afirma que uma das formas de ajudar a saúde da mente nesse momento é encher a casa de alegria. "Com música, flores, se existe a possibilidade, fazer coisas para dar para netos, bisnetos e sobrinhos, como máscaras, bolos, planilhas, coisinhas que façam feliz." Outra dica é escrever histórias antigas da família e levar para os netos e relembrar momentos juntos e felizes. (FP)