Hospital de Base de Rio Preto suspende transplante de pulmão e rim

ESPERA PROLONGADA

Hospital de Base de Rio Preto suspende transplante de pulmão e rim

Pandemia leva Hospital de Base a suspender transplantes de pulmão, rim e córneas. Riscos aos pacientes e alta ocupação de leitos são fatores que levaram às medidas


Victor Hugo foi para o hospital para receber um pulmão, mas o trasplante não deu certo porque o órgão tinha traços de Covid
Victor Hugo foi para o hospital para receber um pulmão, mas o trasplante não deu certo porque o órgão tinha traços de Covid - Johnny Torres 19/5/2020

Victor Hugo Teixeira Moutinho, 24 anos, vai ser pai da primeira filha, Emanuely Vitória, que nasce entre setembro e outubro. Na última segunda-feira, 20, a esposa dele, Alexa Caroline, foi fazer o ensaio de fotos da gestação. Ele não pôde comparecer, pois estava com um quadro de infecção e, em vez disso, foi para o hospital.

Com bronquiolite e bronquiectasia, o jovem é um dos sete pacientes na fila do transplante de pulmão do Hospital de Base. Na última semana, o serviço foi paralisado pela pandemia - as principais razões que levaram a isso são a dificuldade de encontrar um órgão que seja absolutamente seguro para transplante, a lotação dos leitos do HB e o fato de que os profissionais estão voltados à luta contra a Covid-19, doença que afeta principalmente o sistema respiratório.

Os transplantes de rins e córneas também foram paralisados, sendo realizados apenas os de urgência. Cuidados também foram intensificados nos de fígado e medula, o que fez com que os números caíssem em relação ao ano passado. Antes de qualquer transplante, o doador passa por teste PCR, considerado mais seguro para rastrear o vírus, e por tomografia de tórax para atestar que não está com Covid-19, e a equipe também leva em consideração a epidemiologia - se ele teve sintomas ou contato com alguém infectado, por exemplo. O receptor também passa por exames.

"A gente está na espera que tudo isso vai acabar com a chegada da vacina. A mala está pronta (para o transplante). Espero que eu melhore para correr atrás da Manu, brincar muito com ela, cuidar dela, passear, fazer tudo aquilo que um pai faz", afirma Victor Hugo, que em junho chegou a ir para o hospital, pronto para receber seus dois pulmões, porém uma tomografia mostrou sinais de que eles, ainda no doador, em morte encefálica, estavam comprometidos pelo coronavírus.

Henrique Nietmann, cirurgião cardiotorácico responsável pelo serviço de transplante de pulmão, diz que por alguns meses o serviço foi mantido em funcionamento, porém isso se tornou insustentável. "Com a lotação do HB, a estrutura ficou muito sobrecarregada para que a gente pudesse manter o programa aberto". A Secretaria de Estado da Saúde foi comunicada sobre a decisão. Apenas os procedimentos de extrema urgência serão realizados.

"Esse paciente seria colocado como um dos primeiros da lista e a gente assumiria o risco de fazer apenas nesses casos, onde não haveria chance de postergar porque o risco de morte iminente superaria o de contaminação", pontua o médico. Além de todas as dificuldades para se chegar à cirurgia, há o risco de que o paciente contraia o coronavírus após o transplante.

Conforme o cirurgião, boa parte de sua equipe está diretamente na linha de frente contra a Covid-19. "E a parte cirúrgica está dedicando os esforços em ajudar os colegas na medida do possível, com traqueostomia, drenagens pleurais, uma infinidade de procedimentos", exemplifica.

Do Tocantins a Rio Preto

Mil seiscentos e trinta e sete quilômetros é a distância que Marcelo Lima Soares, de 21 anos, e os pais José Afonso e Maria Zoraide percorreram de Recursolândia, no Tocantins, até Rio Preto. Há alguns anos ele começou a ter problemas pulmonares e, no ano passado, na capital do Estado, o veredicto: só um transplante de pulmão daria jeito. Rio Preto é um dos únicos centros do País capacitados a realizar a cirurgia.

"A gente sabe que a pandemia aumenta mais o tempo de espera. Sempre que o telefone toca eu imagino que pode ser o pulmão: meio-dia, à noite, fora de hora", conta ele, que sente falta da liberdade. "Fico 16 horas por dia com o oxigênio. Sinto falta de andar de bicicleta, correr, você acaba ficando meio preso. Duzentos metros eu consigo caminhar sem oxigênio, a partir daí tem que por, qualquer esforço prolongado é necessário, tomar banho cansa bastante."

Rim

Graças à pandemia, o serviço de transplante de rim também foi interrompido para adultos. Somente estão mantidos procedimentos urgentes, quando a diálise não faz mais efeito e o paciente corre risco de morrer, e de crianças, que são um grupo de menor risco para o coronavírus. No início da crise, a restrição era apenas para doadores vivos, receptores idosos e transplantes com critérios estendidos.

"Com a piora da pandemia, os leitos foram sendo ocupados, as UTIs cheias e paramos completamente, por tempo indeterminado, é o vírus que vai dizer", afirma Mário Abbud Filho, responsável pelo serviço. Um paciente transplantado tem mais risco de desenvolver complicações pelo coronavírus caso seja contaminado. Eles fazem uso de imunossupressores, medicamentos que inibem o sistema imunológico para que o órgão não seja rejeitado, mas que, por outro lado, podem deixar o organismo mais lento no combate a infecções. "Os resultados que temos compilados apontam mortalidade maior no grupo de transplante quando comparada com a população em geral", diz Abbud.

Córneas

Os transplantes de córnea também foram reduzidos apenas a casos urgentes, como perfurações oculares ou úlceras de córnea que não estão tendo resultado com tratamento. "As cirurgias eletivas estão suspensas, a lista não está rodando", afirma Thaís Shiota Tanaka Chela, responsável técnica do Banco de Olhos. Só estão sendo aceitos os doadores em morte encefálica, sobre os quais é possível ter mais controle - captações de doadores de coração parado foram suspensas.

Mais doações

De janeiro a 23 de julho de 2019, houve 38 doações de órgãos, de acordo com os registros da Organização de Procura de Órgãos do Hospital de Base. Neste ano, mesmo com menos transplantes, esse número subiu para 41 no mesmo período. "Desde o início da pandemia, muitos serviços de transplante do interior foram paralisados, então os órgãos foram encaminhados para a Capital", afirma João Fernando Picollo, coordenador da OPO.

Segundo ele, todos os possíveis doadores passam pelo teste PCR e por tomografia do tórax. Se o paciente que teve morte encefálica diagnosticada não estiver internado no Hospital de Base, o material respiratório é encaminhado para o HB, que faz o teste PCR, considerado o mais seguro. A taxa de recusa está em 20% - ou seja, 80% das famílias abordadas concordam com a doação. O maior motivo para recusa é não saber qual seria o desejo da pessoa.

Tanto receptores quanto doadores estão passando por exames de coronavírus. É preciso que a tomografia de tórax do doador mostre que o pulmão está limpo, sem infecção por coronavírus.

As mudanças no transplante de cada órgão no Hospital de Base

  • Pulmão - Somente os pacientes que de fato não podem esperar estão sendo transplantados.
  • Córneas - Só estão sendo feitos os transplantes de urgência; os eletivos estão interrompidos.
  • Coração infantil - Não há crianças na fila, mas elas poderão ser incluídas, se necessário.
  • Rim - Só estão mantidos os transplantes urgentes e de crianças.
  • Fígado - A equipe não está buscando o órgão em UTIs onde estejam sendo tratados pacientes com Covid-19 e está evitando receber pacientes de longe cujo caso não seja urgente.
  • Medula óssea - Foram mantidos os transplantes de urgência e foram postergados os que podiam aguardar mais um pouco. O HB recebeu pacientes de vários Estados, pois os serviços haviam sido interrompidos e os casos eram urgentes.

Número de transplantes

2019

De janeiro até junho

  • Córnea - 26
  • Medula - 76
  • Fígado - 30
  • Coração - 4
  • Rim - 56
  • Pulmão - 3

2020

De janeiro até junho

  • Córnea - 22 (até março)
  • Medula - 73
  • Fígado - 32
  • Coração - 1*
  • Rim - 51
  • Pulmão - 3

*O serviço de transplante de coração está interrompido para reestruturação, a pausa não tem relação com a pandemia.

Renato Silva, responsável pelo serviço de transplante de fígado, pontua que uma situação como essa da pandemia nunca foi vivenciada pela equipe desde a implantação do setor, em 1996. "A H1N1, em 2009, não chegou a essa proporção, não tinha esse contágio, essa rapidez, essa imprevisibilidade. É uma doença que estamos conhecendo agora, quantas pessoas não são população de risco e estão morrendo. A evolução e o tratamento não se conhecem bem", explica.

Os transplantes de fígado não chegaram a ser paralisados, mas diminuíram bastante. Em julho, até o momento, nenhum foi realizado. Além do exame PCR, considerado o mais seguro para saber se o doador tem coronavírus, é considerado o histórico epidemiológico. É arriscado pegar Covid-19 estando com problema hepático, até porque o organismo de um paciente do tipo não responde normalmente, e pode não apresentar sintomas, dificultando a detecção. "O fígado é um dos órgãos mais importantes na defesa, no sistema imunológico. Quando ele adoece, é como se metade do exército do organismo estivesse doente."

Atualmente, são cerca de 50 pessoas na fila por um fígado. "Estamos com vários doentes nos procurando de outros Estados. Estamos evitando que ele venha agora, a não ser que seja uma emergência", diz Silva.

Também é levada em conta a segurança da equipe, que não vai fazer captações onde houver doentes com coronavírus. Um dos desafios enfrentados pelos hospitais atualmente é o baixo estoque de sedativos e relaxantes musculares, imprescindíveis para os pacientes intubados com coronavírus, mas também para quem vai passar por uma cirurgia que demande sedação. Por isso, todas as operações eletivas - incluindo os transplantes - foram suspensas.

O serviço de transplante de medula também foi reduzido, mas não interrompido. Pelo menos 20 pacientes eletivos - aqueles para os quais o procedimento é necessário, mas pode aguardar mais um pouco - terão de esperar. Por outro lado, pessoas de São Paulo e de vários Estados, como Espírito Santo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Mato Grosso e Rio Grande do Sul foram encaminhados para cá porque onde moravam os serviços foram interrompidos ou freados, e os casos eram urgentes.

"Diminuímos os leitos de 18 para 12 por conta de logística e segurança dos colaboradores. A gente está resolvendo os casos mais urgentes e as doenças estão mais complexas, o processo é mais intenso do ponto de vista de imunossupressão e quimioterapia. O aumento da complexidade faz com que essas pessoas fiquem internadas mais tempo e sujeitas a complicações", explica João Victor Piccolo Feliciano, chefe do setor.

No momento não há crianças aguardando coração no Hospital da Criança e Maternidade (HCM), mas o serviço não foi interrompido durante a pandemia. Em junho, a pequena Maria Fernanda, de 11 anos, recebeu um novo coração. De acordo com Alexandra Siscar Barufi, cardiologista da equipe de transplante de coração infantil, se houver necessidade de inclusão de um novo paciente, isso será feito. "Não dá para esperar, entra em insuficiência cardíaca", pontua. Antes de realizar a internação na UTI, a criança e sua família passam por exames de coronavírus. O mesmo ocorre com o doador. (MG)