Estudante fala sobre intercâmbio nos EUA em meio à pandemia

CORONAVÍRUS

Estudante fala sobre intercâmbio nos EUA em meio à pandemia

Pós-doutoranda da Unesp, Lilian Hernández Alvarez foi para a Universidade Califórnia San Diego em janeiro e acabou surpreendida pela pandemia


Rio Preto
Lilian Hernández Alvarez, estudante do Ibilce em intercâmbio nos EUA
Lilian Hernández Alvarez, estudante do Ibilce em intercâmbio nos EUA - Arquivo Pessoal

Desde o ano passado, a cubana Lilian Hernández Alvarez já sabia que 2020 seria um ano diferente. A aluna da pós-graduação do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), se preparou para começar o ano nos Estados Unidos, para fazer, até novembro, um intercâmbio concedido por uma bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Em janeiro, Lilian chegou a San Diego, na Califórnia, e desde então, tem desempenhado suas atividades de pesquisa no Instituto de Farmácia (Skaggs School of Pharmacy and Parmaceutical Sciences) da Universidade Califórnia San Diego (UCSD), onde realiza e adquire conhecimento sobre novas tecnologias que existem e que são desenvolvidas no local.

Formada em Licenciatura em Bioquímica pela Universidad de La Habana, ela chegou a Rio Preto em 2015, para fazer seu Mestrado na Unesp e desde 2017, desenvolve, junto ao Departamento de Física do campus, um doutorado em Biofísica Molecular sob a supervisão da Profa. Fátima Pereira de Souza.

"Meu trabalho como estudante e pesquisadora está focado principalmente no uso de ferramentas e métodos computacionais para o planejamento de novos fármacos contra doenças tropicais como a doença de Chagas e a malária. Minha pesquisa consiste na busca de novos compostos químicos a serem testados contra alvos moleculares e que posteriormente poderão também ser avaliados em animais infectados com os parasitas causadores dessas doenças", explicou Lilian sobre seu projeto.

Em meados de março, a jovem foi surpreendida pelo início da pandemia no País e com apenas dois meses e meio de intercâmbio, chegou a ficar apreensiva em relação à possibilidade de adiantar seu retorno ao Brasil. Lilian conta que na época chegou a passar o nome e dados para a universidade, mas não chegou a ser questionada por nenhuma das universidades ou órgãos sobre sua permanência ou não na terra do tio Sam.

"Tive total liberdade para decidir se eu queria retornar imediatamente ou não ao Brasil. No momento que essa crise sanitária começou, o governo brasileiro publicou uma portaria restringindo a entrada de estrangeiros no País, mas não sou brasileira, sou cubana", contou Lilian, que confessou ter ficado com medo de não conseguir voltar naquele momento caso fosse necessário, principalmente quando a UCSD suspendeu as atividades.

Com o cancelamento das viagens aéreas pela companhia utilizada por ela, em abril, Lilian decidiu adiar seu retorno ao Brasil e seguir nos Estados Unidos, medida a qual ela conta ter recebido total apoio da parte das instituições brasileiras.

A partir de então, ela entrou em isolamento social nos meses de abril e maio, saindo apenas para ir às compras essenciais, como supermercado e dedicando-se a atividades remotas. O trabalho presencial na universidade voltou apenas na primeira semana de junho e no dia 11 deste mês, Lilian voltou às atividades de pesquisa.

A jovem conta que na universidade foram tomadas várias medidas para tentar afetar o menos possível o trabalho na instituição e, ao mesmo tempo, proteger as pessoas. "Foi implementado um rodízio para o uso dos equipamentos e um número máximo de pessoas por laboratório e demais locais. É obrigatório o uso de máscara em qualquer área dentro do campus e dentro dos prédios da universidade", explicou a cubana, que detalhou também outras medidas adotadas.

"As bancadas de trabalho têm que ficar no mínimo dois metros de distância uma da outra, o que já limita o número de pessoas no laboratório. Os ônibus da cidade só operam para atividades essenciais e todos os passageiros têm que entrar pela porta de desembarque. Em geral, o uso do transporte público em San Diego diminuiu bastante. Por enquanto eu só tento sair para ir ao trabalho e para fazer compras essenciais", disse Lilian, que ainda tem mais um ano de doutorado pela frente no Ibilce, em Rio Preto.

Decisão de Trump poderia afetar estrangeiros

Recentemente, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que poderia suspender os vistos para estudantes estrangeiros, medida que o político decidiu voltar atrás após pressões de universidade, como Harvard, que chegou a acionar a Justiça contra a proposta do chefe do Executivo.

Além disso, Trump estendeu e expandiu as restrições de emigração para limitar a entrada de trabalhadores estrangeiros nos EUA, que deixará de emitir certas categorias de visto de trabalhador estrangeiro até o final do ano, principalmente o H-1B, modalidade concedida a professores estrangeiros contratados em universidades e funcionários contratados por empresas de tecnologia.

A decisão foi classificada pelo governo como um plano para evitar o impacto econômico da pandemia e priorizar empregos para os cidadãos estadunidenses. A medida desencadeou ondas de alarme entre os cientistas e especialistas preocupados com os projetos científicos do País.

De acordo com Lilian, o escritório da UCSD especializado em estudantes estrangeiros mandou vários e-mails explicando a situação em cada um dos casos. "Também recebi convocatórias que organizavam protestos contra essas medidas do governo", contou a estudante, que não seria afetada diretamente pela medida, uma vez que possui o visto J1, categoria para estudantes/pesquisadores aprovados em visitas de intercâmbio.

Para a estudante, que acredita na transformação da sociedade através da educação, a ideia de Trump com os estudantes estrangeiros é algo vergonhoso e inadmissível. "Na minha opinião, isso é apenas uma estratégia para desviar a atenção do real problema que é o aumento no número de casos de Covid-19", comentou Lilian, que disse que no laboratório onde atua, a maioria dos pesquisadores é estrangeira, principalmente aqueles que atuam em no combate ao coronavírus.

"Estudantes estrangeiros têm dado o seu melhor para combater a pandemia", analisou a doutoranda, que avalia que em muitos lugares, a economia virou uma entidade superior à própria vida do ser humano. "É por isso que não somos nós, estudantes estrangeiros, os únicos em sentirmos desamparados no meio desta tragedia, mas sim a maioria das pessoas do mundo", concluiu.