Estudantes com deficiência enfrentam desafios na pandemia

MAIS UM DESAFIO

Estudantes com deficiência enfrentam desafios na pandemia

Pais e professores se reinventam durante a quarentena para ensinar por videochamada ou WhatsApp crianças e adolescentes com deficiência


Professora Juliana Oliveira da Silva Batista, da Associação Renascer, gravando vídeos em casa
Professora Juliana Oliveira da Silva Batista, da Associação Renascer, gravando vídeos em casa - Arquivo Pessoal

Habituados a já terem que lidar com desafios na sociedade, alunos com deficiência estão tendo que encarar mais dois durante a pandemia: o de acompanhar as aulas online e se proteger do vírus. Pais e professores de instituições que atendem pessoas com deficiência estão se reinventando em Rio Preto. Tudo para não interromper o tratamento e o processo de aprendizado. Além disso, muitos dos alunos com algum tipo de deficiência possuem outras doenças preexistentes, o que os colocam no grupo de risco da Covid-19.

Deficientes visuais, por exemplo, que dependem diretamente do tato no dia a dia estão tendo que redobrar a atenção. Em época de coronavírus, onde qualquer superfície pode estar contaminada com o vírus e transmitir a doença, o cuidado tem que ser maior. "Para todas as deficiências é bem complicada, mas para os deficientes visuais, os olhos 'está' nas mãos e onde o contágio muitas vezes acontece", explica o gerente-executivo do Instituto dos Cegos de Rio Preto, Romiro Pedro da Silva. Para eles - deficientes visuais -, as aulas em vídeo são substituídas pelos áudios.

Já as pessoas com deficiência auditiva, que muitas vezes leem os lábios para entender a comunicação, visto que poucas pessoas sabem libras - a linguagem brasileira de sinais -, estão tendo dificuldades com as máscaras, que cobrem a boca e o nariz. Nas aulas online, é através da comunicação por libras dos professores nos vídeos que eles continuam a aprender.

Tantos desafios, mas que não são barreiras para quem já tem que lidar diariamente com outros muitos, como a falta de acessibilidade e até o preconceito. E para não serem prejudicados ainda mais durante a pandemia, escolas que atendem crianças e adolescentes com deficiência de Rio Preto estão usando recursos digitais e criatividade para não parar os tratamentos e as aulas.

Segundo dados do Censo da Educação Básica 2019, Rio Preto possui 1.294 alunos especiais matriculados nas escolas municipais e estaduais da cidade. Muitos acompanham as aulas na rede de ensino, mas no contraturno fazem aulas em instituições especializadas da cidade. Isso porque, desde 2015, a lei federal 13.146 garante igualdade no processo de aprendizado.

A Associação Renascer é uma das entidades de Rio Preto que estão se reinventando durante a pandemia para não deixar de mãos atadas seus alunos. Impedida de realizar as aulas presenciais como todas as escolas do Estado de São Paulo, a entidade que atende jovens e adultos com deficiência intelectual tem utilizado o WhatsApp para se comunicar com os estudantes. Para isso, a professora Juliana Oliveira da Silva Batista transformou a casa em uma sala de aula durante a pandemia. A lousa improvisada feita com ajuda com ajuda da família é o seu principal mecanismo de trabalho junto com o celular.

"O nosso público são alunos com deficiência intelectual que precisam de um apoio muito grande. Hoje estamos utilizando o aplicativo WhatsApp, que foi o melhor acesso que às famílias têm contato. Enfrentamento, sim, dificuldade de internet em alguns casos, porque nem todos têm em casa, mas estamos conseguindo desenvolver os cadernos de atividades: um para os alunos que têm maior autonomia e o outro fazemos com nossos alunos que têm a dificuldade motora", contou a professora.

Os professores também precisam reinventar os brinquedos educativos das crianças. Na escola, eles já estão prontos para serem utilizados nas aulas, mas com a pandemia os professores tentam criar mecanismos para que os brinquedos sejam feitos em casa durante o processo de aprendizado. "Tem bastante deles que não têm o material para fazer o brinquedo, mas a gente improvisa. A professora de arte ensinou a como fazer tinta em casa com folhas. Improvisamos com areia e feijão alguns brinquedos. Procuramos colocar coisas que não vão fazer falta para eles e que as famílias têm em casa", disse Juliana.

Outro professor que também tem utilizado vídeos para passar as atividades aos alunos da Associação Renascer é Bruno Valejo. Responsável pela disciplina de educação física na entidade, ele conta que tenta fazer exercícios básicos com as crianças pelas limitações impostas pela pandemia. "A educação física, por se tratar de aula prática, acaba sendo mais difícil de ser executada, principalmente, porque na associação trabalhamos muito com a coletividade, porém estamos passando as atividades através de videoaulas. Toda semana enviamos para eles uma, seja um alongamento, exercício para fortalecimento da musculatura, justamente para que eles não tenham tanta perda durante a quarentena", explicou Valejo.

Os vídeos também precisam ser curtos, assim como os atendimentos individualizados. "Cada atendimento dura de 10 a 15 minutos. Nesse atendimento individual, eu vejo em que o aluno está tendo dificuldade e tento ajudar."

Atividades em delivery

A Apae de Rio Preto também tem utilizado os recursos digitais para chegar até os alunos da entidade. É através de grupos nas redes sociais que os professores têm repassado os conteúdos. Contudo, em alguns casos, em que as famílias encontram dificuldade de acesso à internet, a própria entidade leva e busca as tarefas.

"Temos um número de alunos que recebem cestas básicas, nesses casos aproveitamos e assim, que levamos a cesta, também levamos as atividades. Como temos alunos de cidades vizinhas, nossos motoristas também têm levado as atividades para essas famílias. Assim, tem famílias que buscam e outras recebem em casa, por conta da dificuldade", contou a diretora pedagógica da Apae de Rio Preto, Maria Leonice Martins Faidiga.

Doações

A pandemia também fez com que as entidades sentissem um terceiro efeito: a queda de doações. Por isso, todas estão com campanhas para arrecadar fundos. "Nós estamos fazendo doações de cestas básicas, um pouco vem da Prefeitura, mas as demais estamos contando com ajuda da comunidade. Esse mês conseguimos atender, o mês que vem não sabemos como vai ser", disse Romiro, do Instituto dos Cegos de Rio Preto.

No Instituto dos Cegos de Rio Preto, que atende pacientes da cidade e de toda a região, apenas casos excepcionais estão sendo atendidos na unidade. Os demais estão sendo de forma online. "Estamos atendendo algumas crianças, uma de cada vez, porque muitas vezes a família tem bastante dificuldade, mas nesses casos é só com horário agendado e um por vez. O restante e grande maioria está sendo online", disse o gerente-executivo do Instituto dos Cegos de Rio Preto, Romiro Pedro da Silva.

Na entidade, que também oferece projetos sociais para comunidade com deficiência visual, como aulas de artesanato e até música, todos os projetos estão suspensos presencialmente e funcionando apenas de forma remota. Ou seja, com os professores gravando os vídeos de casa ou da instituição e mandando aos alunos e familiares, em caso de crianças. "Nossa função também tem sido de orientá-los para que fiquem o máximo possível em casa. Além da deficiência visual, muitos deles têm outras comorbidades, por isso, fazemos um trabalho de ligar para ver como estão. Alguns vivem sozinhos. E até vamos às casas, usando EPIs, para orientar e entregar as cestas básicas, porque a maioria dos nossos assistidos passam por dificuldades financeiras", afirmou Romiro.

Já na AACD de Rio Preto, os tratamentos continuam sendo agendados, porém, pacientes com doenças preexistentes e que estão no grupo de risco da Covid-19 estão sendo atendidos por meio de teleatendimento. "Realizamos as orientações por vídeo e tem os que preferem por telefone. Nós ficamos até surpreso com o feedback das famílias e dos pacientes", destacou Eder Jacobi, gerente administrativo e financeiro da AACD. (RC)

Arquivo Pessoal

Duas professores de Rio Preto resolveram trabalhar a criatividade e sentimentos das crianças durante a quarentena. Juliana Rodrigues Tomaz de Andrade e Caroline Ferreira Ferraz Batista, da escola municipal Adelício Teodoro, criaram os dedoches dos sentimentos. "A escola inteira está se adaptando para ter acesso aos pais e acompanhar o desenvolvimento das crianças. Foi aí que pensamos em um trabalho de sentimento para as crianças. Ainda mais nesse período de distanciamento", explicou Juliana.

Com materiais que podem ser encontrados facilmente, como EVA, retalhos de tecidos, botão, canetinha e lápis, a brincadeira deu certo: "Fizemos dois dedoches: um feliz e outro triste. Junto a isso, na página do Facebook da escola, fizemos a contação do livro dos sentimentos. Foi muito legal porque os alunos interagem conosco mesmo distantes", disse a professora.

A atividade está ajudando com que mães e filhos se unam durante o processo de aprendizado. É o que tem acontecido na casa de Amanda Severiano da Silva Godoy. A mãe do pequeno Joaquim Godoy da Silva Rodrigues, de 2 anos, além de ajudar o filho a confeccionar o dedoche, também tem aproveitado para brincar com o filho em meio a correria do trabalho remoto.

"A brincadeira ajudou o Joaquim a entender melhor a questão dos sentimentos. Ele é um dos mais novos da sala dele e agora que está desenvolvendo melhor a fala. No começo fui falando do meu sentimento com isso tudo, mostrando o dedoche 'feliz', por poder ter tempo com ele e com o irmão, mas que às vezes eu ficava um pouco triste de preocupação," contou a mãe.

Para Juliana, a criatividade é uma das opções mais vantajosas para ensinar e entreter as crianças nos vídeos. "A proposta é uma brincadeira livre, com a ideia de desenvolver a imaginação e as expressões. E está dando certo." (RC)