Professores da região de Rio Preto fazem ‘delivery de tarefas’ na área rural

EDUCAÇÃO

Professores da região de Rio Preto fazem ‘delivery de tarefas’ na área rural

Educadores aproveitam para tirar dúvidas dos alunos e corrigir exercícios


Alunos da rede municipal de Parisi recebem tarefas escolares em casa
Alunos da rede municipal de Parisi recebem tarefas escolares em casa - Fotos: Divulgação/ Prefeitura de Parisi

Acostumados a acordar cinco horas da manhã com o canto do galo para se aprontar e pegar o ônibus para ir para a escola, alunos que moram na zona rural da região estão tendo que se adaptar durante a pandemia para continuar o semestre letivo. Em algumas cidades, são os professores que estão indo até os estudantes para levar as atividades escolares: é a tarefa delivery.

Em Parisi e Indiaporã, professores junto com monitores estão indo de 15 em 15 dias nas casas das crianças. Na visita, os profissionais levam as atividades, tiram dúvidas e ainda pegam as tarefas deixadas na semana anterior para correção. "Nós dividimos de duas formas, para os alunos que moram na cidade separamos as atividades e os pais vão retirar nas unidades escolares. Já no sítio realizamos a visita às crianças a cada 15 dias. Os professores vão nas casas, entregam as atividades e lá tiram dúvidas", disse o secretário interino de Educação de Parisi, Gabriel Fedoce Laranja.

A ideia que tem se espalhado pelos municípios da região foi a forma encontrada pelas secretarias para continuar o semestre letivo em meio à pandemia. Nos bairros rurais, que chegam a ficar até a 30 quilômetros de distância da cidade, alunos também sofrem com um outro problema: a dificuldade de acesso à internet. Em alguns sítios, até o sinal de celular falha. "Nós temos 40 crianças da zona rural na escola e a dificuldade é muito grande. Esse impasse da internet é um dos problemas que enfrentamos, porque os pais muitas vezes passam por dificuldades financeiras. Alguns inclusive têm que sair de casa e ir para um local que pega sinal de internet, conseguindo abrir os vídeos dos professores", contou Aparecida Gonzales de Souza Casagrande, diretora da escola municipal Irene Zanetti Fonseca, em Parisi. "Nessa visita vai um motorista, o professor e os monitores de transporte escolar. Mas todos com máscara e até luva para se protegerem", afirmou Aparecida.

Fedoce Laranja disse que um questionário está sendo aplicado para os responsáveis, com o objetivo de saber sobre a situação de internet de cada estudante. "Fizemos um questionário para os pais, para saber quais têm essa dificuldade de acesso para pensarmos na possibilidade de fazer uma parceria e ceder internet para essas pessoas", destacou.

A filha de Érica Elina Messias dos Santos, de 4 anos, é uma das estudantes que estão recebendo as tarefas em casa. Moradora do bairro rural Tabuleta, em Parisi, que fica a cerca de nove quilômetros da cidade, a mãe diz ter ficado preocupada com o processo de alfabetização da filha e de como seria os estudos durante a pandemia. "Eu fiquei preocupada porque o processo de alfabetização é muito importante. Eu falei: Jesus, como vai ser? Mas tá dando certo com eles trazendo em casa."

Em Indiaporã, monitores escolares estão levando as atividades para as crianças. "A gente estava levando uma vez por semana, mas com o aumento de casos na cidade estamos levando as atividades a cada 15 dias. O monitor leva o novo material e pega os antigos. Fora isso também cada professor criou um grupo da classe no WhatsApp", disse a diretora da escola municipal Othaydes Luiz Arantes, de Indiaporã, Jocelita Navarro Pereira Correia.

Rio Preto

Em Rio Preto, segundo a Secretaria da Educação, até março, 1.380 alunos que vivem em área rural eram transportados para escolas da rede municipal de ensino pela frota da educação. Durante a pandemia, a Prefeitura informou que está disponibilizando as atividades impressas na escola, onde os pais e responsáveis fazem a retirada.

"O conteúdo de apoio está chegando a todos os alunos da rede municipal de ensino, pelos diferentes meios em que é disponibilizado. As escolas que fazem atendimento a estudantes de área rural entraram em contato com as famílias, que estão fazendo retirada do material impresso nas escolas, quando necessário, no momento de entrega dos kits de alimentação. Não foi identificada demanda para que os materiais fossem levados até os alunos, mas a educação já conta com um planejamento para dar início a esta ação, caso ela seja necessária", disse a nota da pasta.

 

Para o professor da faculdade de educação da USP Marcos Garcia Neira, a iniciativa dessas professoras é de extrema importância. "A escola não pode desistir dos estudantes. Todos os recursos e esforços - sempre com segurança - devem ser empreendidos para manter as crianças envolvidas com o processo formativo. Além de tarefas impressas, os veículos de comunicação podem ser requisitados a participar desse projeto de formação das novas gerações. Refiro-me explicitamente ao rádio e à televisão, dada a sua ampla disseminação. Além de vídeos e podcasts, plantões podem ser organizados pelas equipes das secretarias de educação com a finalidade de atender famílias, escolas e professores", opinou.

Neira destaca que será necessário um replanejamento do currículo escolar quando as aulas retornarem - a previsão é de retorno em 8 de setembro. "Não se trata de prosseguir de onde paramos, mas entender que os currículos deverão ser reconstruídos. Será necessário um novo currículo para a pós-pandemia. Quem sabe, as escolas não possam dedicar-se mais à formação de cidadãos e cidadãs mais sensíveis às diferenças, um ensino mais comprometido com a construção de uma sociedade menos desigual", afirma.

Segundo o professor, o retorno às atividades presenciais deve ser precedido de um planejamento detalhado de tudo o que será necessário fazer, adquirir e modificar antes que os estudantes possam ser recebidos.

Para a professora do departamento de educação do Ibilce Cláudia Maria de Lima, toda a matéria deverá ser revista, principalmente, aquela concedida nas aulas virtuais. "A primeira coisa é fazer uma avaliação, não para ganhar nota, mas para ver o que a criança aprendeu nesse período fora da escola. Tudo deve ser recomeçado", disse.

Sobre a possibilidade de um quarto ano no Ensino Médio, para ajudar os estudantes prejudicados durante a pandemia, Cláudia destaca que nem todos os alunos do último ano conseguiriam continuar os estudos.

"Por conta da vulnerabilidade muitos precisam trabalhar. Aqueles que vão prestar Enem vão ter dificuldades, porque não tiveram os conteúdos suficientes", destacou. (RC)