Rio Preto testará vacina contra a Covid

NA ROTA DA VACINA

Rio Preto testará vacina contra a Covid

Famerp é um dos 12 centros de pesquisas do País que integram a rede de testes com a vacina Coronavac, que visa proteger contra a Covid-19. Nesta fase, serão imunizados nove mil voluntários brasileiros


Virologista da Famerp Maurício Lacerda Nogueira será o coordenador da equipe de testagem em Rio Preto
Virologista da Famerp Maurício Lacerda Nogueira será o coordenador da equipe de testagem em Rio Preto - Johnny Torres 29/1/2019

A Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) será um dos 12 centros de pesquisas do País que testarão a vacina do novo coronavírus. O anúncio foi feito nesta quarta-feira, 1°, pelo governador, João Doria, durante coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.

Em Rio Preto, os testes serão coordenados pelo médico virologista Maurício Nogueira, que guiará os profissionais da Famerp na aplicação das doses nos voluntários. Em seguida, os vacinados serão acompanhados por médicos e pesquisadores da instituição para verificar a eficácia da vacina. A expectativa do governo de São Paulo é que os testes em humanos comecem na semana que vem. O estudo só aguarda aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que, segundo o Instituto Butantan, deve sair até o fim da semana.

"Vacinação é a maneira mais eficaz para evitar doenças, por isso a importância do desenvolvimento da imunização para a Covid-19. Já estamos estudando, em outra pesquisa, os efeitos dessa doença no organismo humano. Agora vamos contribuir para o desenvolvimento da vacina", disse Maurício.

A vacina que será testada em Rio Preto foi desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac Biotech - o mesmo que, em 2009, foi um dos primeiros do mundo a lançar uma vacina eficaz contra a gripe suína. Segundo o laboratório chinês, os testes realizados com cerca de mil pessoas na China, nas fases 1 e 2, indicaram que 90% das pessoas produziram anticorpos contra a doença após duas semanas da aplicação e não foram identificados efeitos colaterais. Resultado positivo que possibilitou a continuação dos estudos para a última fase, que será realizada em 12 centros de pesquisa do Brasil - incluindo Rio Preto.

Não foi divulgado o número de pessoas que serão vacinadas em Rio Preto, apenas que metade dos voluntários será vacinada com a nova imunização e a outra metade com doses placebo - medicamento sem efeito. O objetivo é que nem o pesquisador nem o paciente saibam o que recebeu para que isso não interfira no resultado do estudo. Ao todo, serão nove mil voluntários no País. A partir da próxima semana serão divulgados os critérios para seleção de voluntários e quem poderá ser "cobaia" nos testes.

"Essa fase é o estudo onde se verifica a eficácia dessa vacina. O fato de sermos escolhidos tem a ver com a escolha de fazer o estudo da dengue nesse município, diz. A Famerp conduz pesquisa para desenvolvimento de uma vacina contra o vírus transmitido pelo Aedes. "A expertise que temos adquirido durante os anos para estudos de vacina vai trazer oportunidade para o município de ser pioneiro na análise de uma nova abordagem de defesa do organismo contra o coronavírus", afirmou, durante a coletiva de imprensa da Prefeitura na tarde desta quarta-feira, 1°.

A escolha da Famerp foi feita pelo Instituto Butantan, responsável pelos estudos da vacina chinesa no Brasil. "O Butantan realiza o desenvolvimento final dessa vacina, aí são necessários os centros clínicos que farão o recrutamento dos voluntários. E tudo isso é acompanhando por um organismo internacional", disse o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas.

Atualmente, o Butantan já possui uma parceria com a Famerp em outros estudos, como da vacina da dengue. "O incentivo à pesquisa é um dos pilares da Famerp. Essa escolha demonstra não só a qualidade dos nossos laboratórios, que contam os equipamentos mais modernos, como reforça a alta capacidade de nossos profissionais", disse o diretor geral da Famerp, Dulcimar Donizeti de Souza.

Os testes que serão feitos em Rio Preto fazem parte da última fase exigida por agências regulatórias antes da aprovação de um medicamento ou terapia contra a Covid-19. A vacina que será testada na cidade é uma das mais adiantadas do mundo. O governo do Estado de São Paulo investiu R$ 85 milhões para a realização do estudo e a expectativa é de que a vacina batizada de Coronavac esteja disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) até junho do ano que vem, com a produção de 60 milhões de doses na primeira fase.

Além da Famerp, no Estado de São Paulo as doses serão testadas pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Instituto de Infectologia Emílio Ribas, Hospital Israelita Albert Einstein, Universidade Municipal de São Caetano do Sul, Hospital das Clínicas da Unicamp e Centro de Saúde da USP de Ribeirão Preto. Outros cinco estados também testarão a vacina: Núcleo de Medicina Tropical da Universidade de Brasília (DF); Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz (RJ); Centro de Pesquisa de Desenvolvimento de Fármacos (UFMG); Hospital São Lucas da (PUC-RS) e Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

 

As fases de desenvolvimento:

1- Exploratória ou laboratorial: restrita aos laboratórios. São avaliadas dezenas e até centenas de moléculas para se definir a melhor composição da vacina.

2- Pré-clínica ou não clínica: são realizados testes em animais para comprovação dos dados obtidos em experimentações in vitro.

3- Clínica: É a testagem em seres humanos. Esta fase do processo se divide em três:

  • Fase 1 - teste de segurança. São testados poucos voluntários, de 20 a 80, geralmente adultos saudáveis.
  • Fase 2 - analisa mais detalhadamente a segurança do novo produto e também sua eficácia. Em geral, é usado um grupo um pouco maior, que pode chegar a centenas de pessoas.
  • Fase 3 (a vacina a ser testada no Estado se encaixa aqui) - testa a segurança e eficácia do produto especificamente no público-alvo a que se destina. Nesta etapa, o número de participantes pode chegar a milhares.

Vacinas em testes

  • Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há 136 vacinas em desenvolvimento
  • Dez estão na fase de estudos clínico - a mais avançada. Entre elas, as duas que estão em fase de testes no Brasil: a Coronavac, da farmacêutica chinesa Sinovac, e a Astrazeneca, da Universidade de Oxford, da Inglaterra
  • A AstraZenenca começou a ser testada em voluntários no Brasil na última semana, em estudo liderado no país pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com o Ministério da Saúde.
  • A Coronavac será aplicada em nove mil voluntários do Estado de São Paulo. A produção ficará a cargo do Instituto Butantan.
  • R$ 85 milhões é o valor que o governo do Estado desembolsou para a parceria com a empresa chinesa. O acordo prevê a transferência de tecnologia para produção da vacina e distribuição pelo SUS.

A Coronavac

  • Doses já foram administradas com sucesso em cerca de mil pessoas na China nas fases clínicas um e dois - antes, já havia sido aprovada em testes de laboratório e em macacos
  • A vacina da Sinovac é baseada na manipulação em laboratório de células humanas infectadas com o coronavírus
  • São utilizados fragmentos "desativados" do coronavírus para inoculação em humanos. Com a aplicação da dose, o sistema imunológico passaria a produzir anticorpos contra o agente causador da COVID-19.
  • É o mesmo princípio usado em outras vacinas globalmente bem-sucedidas, como as do sarampo e poliomielite.
  • A empresa chinesa aponta 90% de eficácia, sem efeitos colaterais.
  • Para início da produção e dos testes, falta apenas a aprovação da Anvisa, o que deve ocorrer ainda nesta semana.

Os testes

  • 12 centros de pesquisas farão os estudos clínicos, entre eles o Laboratório de Virologia da Famerp.
  • Os outros centros ficam em São Paulo (três pontos), Campinas, Ribeirão Preto e São Caetano do Sul, além de Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (RJ) e Curitiba (PR).
  • Metade dos voluntários será vacinada com a nova imunização e a outra metade com doses placebo (medicamento sem efeito).
  • O objetivo é que nem o pesquisador nem o paciente saibam o que recebeu para que isso não interfira no resultado do estudo.
  • Não foram divulgados por enquanto os critérios para escolha dos voluntários que receberão as doses nem a quantidade de voluntários por cada centro de pesquisa

Além da vacina chinesa que será testada em Rio Preto, um imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford, da Inglaterra, também será testado no Brasil. A responsável pela seleção dos voluntários é a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), através de seu Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (Crie). A universidade, no mês passado, deu início à seleção dos voluntários interessados a passar por teste de sorologia, seguindo os protocolos exigidos pelos autores do estudo.

Segundo a Unifesp, os participantes precisam ter sorologia negativa para o vírus, ou seja, não podem ter contraído a infecção.

Para os testes, estão sendo recrutados profissionais de saúde de 18 a 55 anos que atuam prioritariamente dentro do Hospital São Paulo da Unifesp. São profissionais que atuam na linha de frente do combate, entre médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem, além de trabalhadores do hospital que desempenham funções em ambientes com alto risco de exposição ao novo coronavírus, como motoristas de ambulância, seguranças e agentes de limpeza.

O estudo com a vacina também está na fase 3. Entre os principais motivos pelo qual grandes farmacêuticas e universidades estrangeiras estão procurando o Brasil para a realização dos testes é que o vírus ainda circula com força pelo País. (RC)