Pandemia afeta calendário de formação e especialização

EDUCAÇÃO

Pandemia afeta calendário de formação e especialização

Pandemia suspendeu oportunidades de estudos para rio-pretenses, que tentam contornar os obstáculos para garantir formação e especialização


Dandara Sgarbi faz engenharia de alimentos e tenta juntar dinheiro para fazer intercâmbio para a França
Dandara Sgarbi faz engenharia de alimentos e tenta juntar dinheiro para fazer intercâmbio para a França - Johnny Torres 27/6/2020

Uma aluna da Unesp Rio Preto iniciou uma campanha de arrecadação virtual para conseguir realizar o sonho de fazer um intercâmbio. O destino, França. Dandara Luciana Sgarbi tem 22 anos, estudou a vida inteira em escola pública e atualmente cursa o 7º semestre do curso de Engenharia de Alimentos.

Colecionadora de prêmios estudantis, no final de 2019, Dandara se candidatou a um projeto de intercâmbio de dois anos para a universidade Agrocampus Ouest, localizada na cidade francesa de Rennes, onde poderia obter uma dupla diplomação. O programa cobriria as despesas de viagem e concederia ao universitário selecionado uma bolsa de estudos na duração de 18 meses - os outros seis meses de estadia seriam pagos pelo próprio estudante, com dinheiro de estágio. Em março deste ano, Dandara recebeu a informação de que havia sido escolhida para participar da seleção.

"Foi uma vitória. Estava concorrendo com alunos de diversas cidades e, a cada etapa que eu passava, me sentia muito feliz porque era realmente algo desafiador", afirma a estudante.

Pouco tempo depois de descobrir que estava dentro do processo seletivo da instituição francesa, a universitária recebeu a notícia de que a agência financiadora havia suspendido todas as bolsas de mobilidade internacional, devido à pandemia de coronavírus. "Naquele momento, eu fiz o que era possível dentro da minha condição humana e tive muita fé de que tudo iria se encaixar", disse.

No mês de junho, Dandara soube que havia sido aceita, mas a seleção veio acompanhada de outro desafio: conseguir viabilizar o dinheiro necessário para fazer a viagem e poder se manter no país estrangeiro. "Foi então que a faculdade da França, junto com a Unesp de Rio Preto, conseguiu encontrar uma bolsa de estudos parcial e eu fui selecionada para essa bolsa também".

Inspirada por uma prima, a universitária lançou a campanha de arrecadação virtual "Me ajude a estudar na França". A campanha pretende arrecadar R$ 17 mil até o dia 21 de julho, valor necessário para aquisição das passagens aéreas e as primeiras despesas de instalação no país europeu. Como as aulas iniciam no mês de setembro, ela precisa estar na França até o fim de agosto deste ano para conseguir formalizar a matrícula.

Dandara conta que a família sempre a apoiou e não está medindo esforços para conseguir realizar o sonho dela. "Eles sempre me ajudaram para que eu conseguisse cursar a faculdade. Porém nossos recursos financeiros são limitados", conta.

A estudante espera contar com a colaboração das pessoas para que o exemplo dela possa servir de inspiração para outros estudantes. "É uma honra ter a oportunidade de representar a Unesp e todos que sempre me ajudaram. Eu, como aluna, represento o esforço de muita gente que veio antes de mim, não só da universidade, mas também da rede pública", comenta.

Sonhos interrompidos

A pandemia também interrompeu a produção científica nas principais universidades do país. Na Unesp de Rio Preto, são diversos os exemplos de quem foi obrigado a adiar projetos que são frutos de anos de estudos e pesquisas. A doutoranda Jéssica Marostica De Sá, 31 anos, foi aprovada para o doutorado em Biofísica Molecular no dia 16 de março. Ela é a única pesquisadora do Brasil que estuda o Vírus Sincicial Respiratório Humano, doença que ainda não possui vacina e pode ser fatal em crianças.

"Com a pandemia, ficamos sem dar início às pesquisas de laboratório. Nós trabalhamos com a proteína desse vírus e temos que acompanhar seu crescimento", conta. Ainda sem expectativa de voltar aos laboratórios, ela se dedica ao estudo teórico. "Ficamos com medo de perdermos a bolsa. Sem ela, não consigo continuar a pesquisa", afirma.

A docente do curso de Engenharia de Alimentos Ana Carolina Conti Silva estuda a correlação entre análise sensorial, analisador de textura e simulador de mastigação de duas proteínas. Por meio desse projeto, ela conquistou uma bolsa de pesquisa para um pós-doutorado com duração de um ano, no Instituto de Inrae, localizado na cidade de Dijon, na França. No entanto, a docente esbarrou na dificuldade de conseguir autorização para entrar no país europeu, que exige visto para permanência acima de 90 dias. "Minha pesquisa estava programada para iniciar no dia 10 de agosto, mas consegui adiar para 13 de outubro. Nosso receio é termos que adiar novamente e perdermos o financiamento, já que a agência financiadora possui um controle de verba anual", comenta. "Estou na expectativa, mas fiz tudo o que podia fazer", reforça a pesquisadora.