Número de moradores de rua cresceu em Rio Preto

DESAMPARADOS

Número de moradores de rua cresceu em Rio Preto

Sem emprego, casal vai morar em barraco no canteiro de avenida em Rio Preto. Atendimentos a moradores de rua crescem em Rio Preto


João Vicente, 21 anos, e Gabriela, 31, que está no quarto mês de gestação, dentro do barraco. Com a pandemia e a perda de renda, não conseguiram arcar com o aluguel
João Vicente, 21 anos, e Gabriela, 31, que está no quarto mês de gestação, dentro do barraco. Com a pandemia e a perda de renda, não conseguiram arcar com o aluguel - Guilherme Baffi 23/6/2020

Depois de se ver obrigado a morar na rua, um casal de Rio Preto passou a viver num barraco instalado no canteiro central de uma avenida no Distrito Industrial de Rio Preto. Com pedaços de madeira, fios, pedras e algumas camadas de lona e plástico, a casa improvisada foi a maneira encontrada por João Vicente, 21 anos, e Gabriela Gomes Pereira, 31, de se protegerem da chuva e do frio.

Eles foram abrigados por uma terceira pessoa, que vive no espaço há cerca de três meses, e que também não tinha outro lugar para ir. Praticamente invisíveis, eles não integram as estatísticas da Secretaria de Assistência Social de Rio Preto, que atendeu 16.742 pessoas entre os meses de janeiro e maio deste ano - uma média de 3.348 por mês. O número é referente a pessoas que procuram o Centro Pop, Albergue Noturno ou a Associação Lar São Francisco de Assis. No ano passado, foram 8.206 atendimentos feitos no mesmo período.

Entre os meses de janeiro e março de 2020, a Secretaria de Assistência Social mapeou 802 pessoas em situação de rua. Desse número, 70% são considerados migrantes. No primeiro trimestre do ano passado, eram 740. Os dados do segundo trimestre só serão divulgados em julho.

João e Gabriela moravam de aluguel em uma casa no bairro Vila União, zona norte da cidade, até serem despejados por falta do pagamento de aluguel. João conta que trabalhava como servente de pedreiro e ajudante, mas não conseguiu arrumar bicos depois da chegada da pandemia. "Parou tudo, não tem mais serviço. Como não conseguimos pagar a parcela, o dono da casa nos colocou para fora", afirma.

Gabriela está no quarto mês de gestação e ainda não começou a fazer acompanhamento pré-natal. Natural do estado do Maranhão, ela vive em Rio Preto há dez anos e tem outros dois filhos, que vivem atualmente com o pai das crianças. Ela conseguiu ter acesso à segunda parcela do auxílio emergencial. "Uma parte eu entreguei para o pai das crianças e a outra nós usamos para comida", conta. O que sobrou não foi suficiente para que eles conseguissem alugar uma casa temporária.

João é rio-pretense e tem família na cidade. No entanto, ele diz não ter um bom relacionamento com o pai e com a mãe, que são separados.

Durante as manhãs, o casal percorre a cidade em busca de algum material que possa ser útil ou que possa ser revendido. De tarde eles ficam na Praça Carlos Gomes, no bairro Boa Vista, próximo da Escola Municipal Ezequiel Ramos. "Nós ficamos sentados no banco da praça porque muitas pessoas passam por lá entregando doações", diz João. A noite, recebem uma das 180 marmitas distribuídas pelo Albergue Noturno, que aumentou o número de refeições durante a pandemia. O local, no entanto, reduziu a quantidade de leitos de 49 para 20, devido à necessidade de distanciamento entre as camas.

O trio diz que está conseguindo se virar com ajuda de pessoas que se solidarizam com a situação. João diz que não é dependente químico, tem ensino médio completo e curso técnico de eletricista, de pizzaiolo e de informática. "Se conseguisse um trabalho, a gente sairia dessa situação", afirma.

Se estivessem no radar da Prefeitura, o trio poderia ocupar uma das vagas disponíveis na Casa de Cirineu, espaço mantido em uma parceria com a Associação São Francisco de Assis. O local tem 200 leitos, mas atualmente apenas 70 estão sendo ocupados.

Segundo a secretária da Assistência Social, Patrícia Lisboa, isso ocorre porque muitas pessoas não são encontradas pelas equipes de abordagem do Centro Pop. "Nessas situações, os próprios moradores que depararem com casos como esses podem entrar em contato com a gente", explica. "A pessoa pode entrar em contato com a equipe de abordagem e indicar onde estão essas pessoas em situação de vulnerabilidade, que nós enviamos uma equipe".

Durante a quarentena, o Centro Pop estendeu o horário de atendimento até as 20h e funciona todos os dias da semana. O telefone para contato é (17) 3237-3000.

Patrícia reconhece que a situação de rua é uma tendência que pode ocorrer durante momentos de crise. "São pessoas que tinham uma determinada renda, mas com a perda do emprego pode acontecer de ela ir para rua", destaca.

 

Divulgação/Prefeitura de Rio Preto

Quem percorre alguns dos principais pontos utilizados por pessoas em situação de rua tem a impressão de que o número de indivíduos aumentou depois da pandemia. Apesar do número de atendimentos ter crescido neste ano, a secretária de Assistência Social de Rio Preto, Patrícia Lisboa, diz que não houve aumento expressivo. Ela explica que a pandemia e o isolamento social trouxeram algumas mudanças no comportamento das pessoas que vivem na rua. "Observamos uma queda das doações feitas por grupos de voluntários. Isso fez com que eles se aglomerassem nos locais onde as distribuições de doações permanecem", destaca.

Apesar de aceitarem as doações, muitas recusam atendimento. No mês de maio foram 240 pessoas em situação de rua abordadas, desse número 150 recusaram atendimento. "Desde o início da pandemia, nós distribuímos mais de 800 máscaras de tecido. Mas ainda vemos uma recusa muito grande", finaliza.

Em maio, 31 moradores de rua foram infectados pela doença, todos eles com passagem pela Casa de Cirineu. À época, como forma de evitar a contaminação de mais gente, eles foram transferidos para Jaci, em uma propriedade da Associação São Francisco de Assis, e o imóvel em Rio Preto foi desinfectado. (FN)