Veja como inserir os pequenos nas tarefas domésticas

CRIANÇAS COLABORATIVAS

Veja como inserir os pequenos nas tarefas domésticas

Com conversa e paciência, pais podem inserir os pequenos nas tarefas domésticas, incentivando a autonomia e a responsabilidade desde a infância. Veja como isso pode ser feito


Enzo Capeli, de 9 anos.
Enzo Capeli, de 9 anos. - Arquivo pessoal

Para muitos pais e mães, a pandemia está sendo um desafio, já que manter as crianças em casa e as entreter durante o dia todo não é uma tarefa nada fácil. Muitos pais estão aproveitando o momento para estabelecer uma rotina colaborativa com as crianças, ensinando os pequenos a desenvolver autonomia e responsabilidade através de pequenas tarefas dentro de casa.

Para a pedagoga Priscilla dos Santos, esse é o momento certo para trabalhar esses pontos. "A criação dessa rotina de organização mostra resultâncias para as crianças, fazendo com que elas consigam ver o resultado positivo de seus esforços. Isso as motiva", afirma.

A pedagoga explica ainda que incentivar a autonomia das crianças não significa dar carta branca para fazer tudo que queiram. "Liberdade sem disciplina é um grave equívoco, cujos efeitos nefastos são sentidos até na fase adulta. Incentivar a autonomia significa conscientizar a criança a respeito da vida, da rotina da casa, do cuidado com o corpo e com a mente, da relação com a natureza e com o mundo que nos cerca. Significa respeitar seu tempo de aprendizado e valorizá-la em suas iniciativas", explica.

A fotógrafa Lívia Capeli, mãe do Enzo, de 9 anos, conta que trabalha com esse sistema de colaboração com o filho há muito tempo e que é necessário sempre conversar para instruir as crianças. "Quando o Enzo tinha uns 5 anos, eu fazia muitas dessas atividades criativas, sempre familiarizei ele com as coisas, deixava ele brincar com as louças que não quebravam, com as roupas etc. Hoje, ele já sabe o que precisa fazer. Se eu pedir para arrumar a mesa do jantar, ele já sabe onde estão os talheres, os pratos, onde se deve colocar cada coisa. Ele já está em uma idade em que se entende melhor a questão da responsabilidade, já sabe que é necessário fazer, que aquilo é a sua tarefa," diz. Ela atribui o êxito no ensino às conversas que mantém com o filho. "Sempre disse a ele coisas como: cada um faz a sua parte em casa, e essa é a sua parte, você precisa ajudar a mamãe e o papai", explica.

Priscilla explica que é necessário entender a personalidade e trejeitos de cada criança, já que cada abordagem deve ser diferenciada para cada uma. "A noção de responsabilidade não é algo simples. Mais do que um comportamento individual, ser responsável envolve o ato de se relacionar com o mundo. Ter um ambiente amoroso e acolhedor, permeado por atitudes positivas é essencial para que elas sintam confiança e segurança. É preciso também entender a personalidade do seu filho. Cada criança reage de forma diferente aos estímulos e compreender qual o melhor jeito de abordar o tema é o primeiro passo. A criança precisa entender que tão importante quanto os cuidados pessoais é a relação com a sociedade, com o consumo consciente e o comprometimento com o outro", explica.

Mãe da Giovanna, de 5 anos, e da Mariana, de 3, Letícia da Silva Câmara Roberto, de 30 anos, diz que sempre trabalha com a responsabilidade com suas filhas, já que esse quesito faz toda a diferença na vida. "Eu não queria que minhas filhas fossem totalmente dependentes no futuro, percebi isso quando comecei a trabalhar em uma empresa grande, havia casos de mães que iam junto aos filhos para entrevistas de emprego, foi aí que me deu um estalo. Sempre explico para as meninas que o papai e a mamãe não vão estar para sempre aqui, que elas precisam aprender as fazer as coisas, sempre ensinando aquilo que elas têm a idade para aprender, um passo de cada vez", afirma.

Um dos exemplos, segundo a mãe, foi quando Giovanna quis ajudá-la a fazer um bolo. Ao invés de dizer: "Isso não é coisa para você me ajudar", Letícia optou por inseri-la aos poucos nos processos, para que, à frente, quando pedisse ajuda, a filha não negasse. Aos 2 anos, Giovanna fazia bolos com a mãe, hoje, aos cinco, ela já é capaz de fazer sozinha.

"Quando ela começou a me ajudar, eu sabia das limitações, não deixava, por exemplo, que ela quebrasse os ovos, porque sei que isso é algo que precisa de mais coordenação motora, mas eu desafiava ela aos poucos e conforme ela respondia positivamente eu seguia com os processos. Quando íamos almoçar, eu a ajudava a por a mesa, ensinando onde se colocava cada coisa e entregando materiais adequados, contudo, sempre incentivando a participar do processo. Hoje em dia, enquanto eu lavo a louça, ela já retira a mesa sozinha, sem que eu peça e sempre pergunta se preciso de ajuda", conta.

(Colaborou Yasmin Lisboa)

A pedagoga Priscilla dos Santos afirma que negociar com os filhos é um dos pilares do desenvolvimento da inteligência socioemocional e dá dica de como realizar essas negociações: uma tabela de pontos. Realizar tarefas domésticas podem ser convertidas em pontos. Quando se chegar a um determinado valor, tem-se uma recompensa. Por exemplo: arrumar o quarto vale dois pontos, aguar as plantas, um ponto; dar banho no cachorro, cinco pontos. No final pode-se conseguir 30 minutos a mais no videogame. (YL)

A psicóloga Beatriz Maldo Galetti explica que é necessário ter uma conversa com as crianças, para as introduzir nos quesitos de responsabilidade e autonomia e que esses conceitos não precisam ser massantes. É possível torna-los atrativos.

"É necessário conversar com a criança sobre a importância daquela atividade e a consequência caso deixe de ser realizada. Por exemplo, em uma casa que existe animal de estimação, explicar que não alimentá-lo pode trazer sofrimento pra ele, assim como traz para nós, seres humanos. É possível trazer uma atração pelas responsabilidades, pode ser criado um quadro, onde exista uma recompensa pelo cumprimento de cada tarefa no dia, lembrando que a recompensa não é financeira, e sim proporcionar experiências e momentos. Dinâmicas e gincanas envolvendo todo o núcleo familiar também podem tornar as atividades mais prazerosas", explica.

Saúde mental

Beatriz afirma que cuidar da saúde mental e emocional das crianças nesse momento é crucial. "Para que a criança não seja afetada emocionalmente a curto e longo prazo, é importante proporcionar um ambiente seguro, com regras, rotinas pré estabelecidas e tempo de qualidade, com brincadeiras, atividades artísticas e criativas, entre outras coisas. Deve-se explicar para criança o real motivo de estarmos em casa, e por que nossa rotina mudou tanto", finaliza. (YL)