Em cinco meses, 340 crianças são vítimas de violência em Rio Preto

INFÂNCIA ROUBADA

Em cinco meses, 340 crianças são vítimas de violência em Rio Preto

Em cinco meses, Rio Preto registrou 340 casos de violência contra crianças. Isolamento social dificulta a identificação de vítimas e aumenta a subnotificação


Campanha Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes traz canais de denúncia em Rio Preto
Campanha Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes traz canais de denúncia em Rio Preto - Pixabay/Banco de imagens

A infância é violada na maioria das vezes dentro de casa. E a pandemia do novo coronavírus tem sido uma oportunidade para abusadores aproveitarem da quarentena para praticar as atrocidades. Em Rio Preto, dados da Vigilância Epidemiológica de Saúde apontam que entre janeiro e maio 340 crianças foram vítimas de violência. Em 57 casos, as vítimas foram abusadas sexualmente. Contudo, os agressores não são denunciados em todos os casos, principalmente durante a pandemia, quando a subnotificação de violência infantil tem aumentado pela dificuldade das vítimas serem identificadas e denunciarem.

Dados da Ouvidoria Nacional do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos apontam que quase 90% dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil são registrados no ambiente familiar. "A maior parte dos agressores está dentro de casa ou entre aqueles que têm contato com a criança. São criminosos que escolhem suas vítimas pela fraqueza delas, pois não agem assim com quem lhes apresenta igualdade de forças. Na linguagem popular, são covardes", diz o juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto, Evandro Pelarin.

Ana (nome fictício), de 38 anos, é prova disso. Ela foi vítima de violência sexual na infância. Muito mais do que as lembranças do triste fato, ela carrega até hoje traumas ocasionados pelo crime. "Hoje ainda me vem na memória as lembranças dos episódios, de vez em quando tenho pesadelos. Além disso, não consigo ter uma relação amorosa saudável", afirmou a vítima, que foi abusada pelo irmão do padrasto aos 9 anos de idade, enquanto a mãe não estava em casa.

Segundo a coordenadora da Proteção Social Especial da Secretaria Municipal da Assistência de Rio Preto, Luzia Cintra, durante a pandemia aumentaram as denúncias pelo Disque 100. "A gente tem certeza que deve estar acontecendo muita violência dentro da casa, mas muitas vezes não se tem acesso porque a família acaba escondendo, então só conseguimos chegar quando tem alguma denúncia."

O especialista em direitos da infância e juventude Ariel de Castro Alves também aponta outro fator que dificulta as denúncias durante a pandemia: crianças longe da escola. "Na quarentena, ficam mais expostas aos agressores, confinadas com eles. A violência doméstica se torna mais grave e preocupante. Isso porque muitas vezes as denúncias desses casos ocorrem por meio das creches e escolas, quando os profissionais da educação suspeitam de abusos. Com escolas e creches sem funcionamento nesse período, ficam mais difíceis as denúncias, apurações e medidas de proteção para as vítimas, que ficam subjugadas, se tornam reféns dos algozes."

Para quem foi vítima das atrocidades, a intimidação do agressor para não denunciá-lo é o que faz com que os abusos persistam. "Ele me intimidava e eu não tinha coragem de denunciar, aí os abusos voltavam a acontecer", contou Ana. "As crianças são as mais vitimizadas, pois, nessa situação, não têm forças e meios para denunciar", apontou Pelarin.

Além da violência sexual, a violência física também tem preocupado. Neste ano, entre janeiro e maio, foram 85 casos, além de outros 18 registros de violência psicológica em Rio Preto. "Temos notado nessas denúncias que os casos de violência contra criança e adolescente também acontecem fora do lar. Nesses casos, orientamos a família a não ter mais contato com o suposto agressor e também a denunciar", explicou Cintra.

Como forma de denúncia durante a quarentena, a Prefeitura de Rio Preto destacou que os conselhos tutelares e os canais de denúncia continuam funcionando normalmente na cidade. "A gente tem o Disque 100 e temos os conselhos tutelares. É muito importante essa denúncia, principalmente, para a vítima", aconselhou a assistente social da Prefeitura.

Deixar a criança em casa sozinha, sem ninguém para vigiar é uma das denúncias de negligência frequentes recebidas pela Secretaria de Assistência Social de Rio Preto. Neste ano, já foram 82 casos do tipo na cidade.

"Dentre todos os tipos de violência, a que temos mais identificado na cidade é a negligência. E agora, com certeza, na pandemia percebemos que teve um acréscimo, porque a criança não está indo mais para as escolas e está ficando só em casa", apontou a assistente social Luzia Cintra.

Para o advogado e especialista em direitos da infância e juventude Ariel de Castro Alves, as redes comunitárias são fundamentais durante a pandemia para denunciar os agressores. "Os vizinhos e parentes devem estar atentos com as mudanças bruscas de comportamentos das crianças, como choro repentino, sem motivações aparentes; se estão mais inibidas; amedrontadas diante de adultos ou mesmo com hematomas e escoriações no corpo. Diante dessas situações devem denunciar no Disque 100 ou por meio dos conselhos tutelares", afirmou.

Entre os sinais que as crianças podem estar sendo vítimas de violência estão: agressividade, dificuldade de concentração, quebra busca de desempenho escolar, sentimento de culpa, medo de dormir sozinha e até medo de adulto de outro sexo. Veja abaixo os canais para denúncias. (RC)

Reprodução

Sinais de que a criança pode ser vítima de violência:

  • Agressividade
  • Torna-se antissocial
  • Extremamente submissa
  • Tem brincadeiras sexuais
  • Falta de participação nas atividades escolares
  • Dificuldade de concentração
  • Queda brusca no desempenho escolar
  • Medo de adulto do outro sexo
  • Sentimento de culpa
  • Medo de dormir sozinha
  • Alterações no sono
  • Pensamentos suicidas
  • Depressão clínica
  • Automutilação

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