Com UTI lotada, hospital de Fernandópolis pede socorro

CORONAVÍRUS

Com UTI lotada, hospital de Fernandópolis pede socorro

Lotada, Santa Casa de Fernandópolis não tem como ampliar atendimento


Hospital tem espaço, mas diz que sem dinheiro não pode aumentar número de leitos
Hospital tem espaço, mas diz que sem dinheiro não pode aumentar número de leitos - Reprodução/Facebook

A Santa Casa de Fernandópolis, segundo informe emitido nesta sexta-feira, 19, está com os seis leitos de UTI lotados e chegou ao limite. Apesar de contar com espaço suficiente para expandir a estrutura de atendimento, o hospital, que passa por processo de intervenção judicial, não tem recursos para manter a operação na nova estrutura. E os municípios vizinhos que dependem da unidade de saúde se recusam a ajudar.

A Santa Casa conta com mais 13 pacientes na enfermaria atualmente, também no limite. Segundo dados obtidos pelo Diário, foram internados no local, do dia 1º de junho até hoje pacientes de Fernandópolis (34), Estrela d'Oeste (9), São João das Duas Pontes (2), Macedônia, Ouroeste, São João de Iracema e outro da capital paulista que estava na cidade quando foi diagnosticado com a Covid-19.

O hospital já conta com plano de expansão pronto, mas não teria como executar os serviços por outro motivo: a falta de funcionários. "Capacidade de expansão temos. A questão é que a expansão demanda um capital humano pesado. Na nossa UTI clínica temos espaço pra mais cinco leitos, se necessário, mas que não pretendemos utilizar por conta da separação de equipes", explica o interventor judicial da Santa Casa, Marcus Chaer.

Ainda segundo números da Santa Casa, 60% dos atendimentos feitos pelo hospital são de municípios próximos, que, por determinação da Direção Regional de Saúde (DRS), enviam os pacientes para Fernandópolis. A questão é que até agora, o hospital não recebeu nenhum aporte governamental extra em função da pandemia e abriu até mesmo uma arrecadação virtual para a compra de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual). Foram arrecadados, até este sábado, 21, R$ 100 mil.

Outro lado

O Diário questionou todos os municípios da área que são atendidos por Fernandópolis, mas apenas a Prefeitura de Guarani d'Oeste respondeu. Segundo o Chefe de Gabinete, Marco Antônio Florian, a DRS promoveu alterações e os pacientes passaram a ser encaminhados para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Fernandópolis, administrada pelo município. "A Santa Casa de Fernandópolis ficou com os atendimentos de alta complexidade, que são custeados pelo governo do Estado de São Paulo. Caso haja a necessidade dos pacientes do nosso município que estão com a Covid-19, o Conselho Municipal de Saúde se colocará à disposição da entidade no atendimento dessas pessoas", disse.

Dinheiro

O governo do Estado de São Paulo, em nota, disse dar todo suporte aos municípios para fortalecimento da rede assistencial com foco no atendimento a pacientes com Covid-19. Para as cidades que compõem a rede atendida pela Santa Casa de Fernandópolis os repasses totalizam R$ 465 mil, mas 59,1% dos recursos são relativos somente a Fernandópolis. Questionada, a DRS não respondeu sobre a falta de funcionários na região.

Investigação em curso

A Santa Casa de Fernandópolis está sob intervenção judicial depois de Operação da Polícia Civil que investiga fraudes nas contas da entidade.

RIO PRETO

  • 1.757 casos confirmados
  • 53 mortes
  • 204 internados (incluindo casos positivos e suspeitos)
  • 887 recuperados

Fonte: Secretaria Municipal de Saúde

REGIÃO

  • 5.549 casos confirmados
  • 193 mortes
  • 2.728 recuperados

Fonte: Secretarias de Saúde dos municípios

ESTADO

  • 215.793 casos confirmados
  • 12.494 mortes
  • 37.180 recuperados

Fonte: Governo do Estado

BRASIL

  • 1.043.168 casos confirmados
  • 49.156 mortes
  • 543.186 recuperados

Fonte: Bing até sexta-feira, 19, às 20h

MUNDO

  • 8.546.919 casos confirmados
  • 456.726 mortes
  • 4.195.274 recuperados

Fonte: Bing até sexta-feira, 19, às 20h

Casos confirmados e mortes

  • Estados Unidos: 2.290.837 e 121.301
  • Brasil: 1.043.168 e 49.156
  • Rússia: 576.952 e 8.002
  • Índia: 411.727 e 13.278
  • Reino Unido: 303.110 e 42.589
  • Espanha: 245.938 e 28.322
  • Itália: 238.275 e 34.610
  • Peru: 251.338 e 7.861
  • Irã: 202.584 e 9.507
  • Alemanha: 190.965 e 8.960
Arquivo Pessoal

Há três anos, Agnaldo Paulo de Oliveira veio de Minas Gerais para ficar mais perto dos filhos. No último dia dez, o aposentado completou 73 anos. Dentro de um hospital, de onde não saiu mais. No dia 16, ele faleceu, vítima do coronavírus.

Agnaldo trabalhou em carvoaria e, mesmo separado da ex-mulher, manteve contato com os filhos. "Foi um ótimo pai, a gente tinha uma ótima convivência. Quando nós assávamos carne ele vinha, ficava com nós, era a melhor coisa que tinha", diz o filho, o eletricista Fábio Paulo dos Santos, de 38 anos.

Diabético e hipertenso, o hipertenso estava se cuidando para evitar a Covid-19 e só saía de casa quando necessário de máscara. "Vai ser muito doloroso entrar na casa dele. Ele foi andando de casa até a UPA e arrumou a máscara no espelho, era meio vaidoso", lembra Fábio.

Ele conta que o idoso morava sozinho, mas ele e a irmã Luciana Paula dos Santos, cozinheira de 39 anos, sempre o visitavam. No fim de maio, Agnaldo começou a apresentar um resfriado com febre, que evoluiu com perda de apetite, fraqueza e falta de ar.

Agnaldo levou o pai até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Norte. Foi a última vez que o viu. "Nós chegamos lá e não podia ficar. Umas 21h30 ligaram dizendo que o estado tinha se agravado, que tinha sido entubado e que tinha encaminhado para a Santa Casa."

Durante o período em que ficou hospitalizado, Agnaldo chegou a melhorar e a ter a respiração mecânica removida. "Começou a se alimentar sozinho. Consegui falar com ele na terça-feira, estava respirando meio fraco, mas não preciso por oxigênio. Aí ligamos nos outros dias, teve que por oxigênio, sonda para alimentar e urinar, aí a gente ligava e falou que estava grave", conta Fábio.

Nesse meio tempo, dona Trindade de Lourdes dos Santos, de 65 anos, ex-esposa de Agnaldo e mãe de Fábio e Luciana, sofreu um infarto e faleceu no dia 8 de junho. Agnaldo foi sepultado no dia 16 de junho, no cemitério São João Batista, em Rio Preto.

(Millena Grigoleti)

 

Reprodução

"Nenhum médico com menos de cem anos enfrentou ou imaginava viver uma situação tão grave como a pandemia do coronavírus". A frase é do médico Carlos Henrique de Lima Rodrigues, de 35 anos, que é um dos profissionais que atuam na linha de frente da Covid-19 em Rio Preto. Natural de Passos, em Minas Gerais, mas morando em Rio Preto desde 2005, ele atua, hoje, no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), no Hospital de Base (HB) e no Ambulatório Médico de Especialidades (AME).

Especialista em clínica médica e gastroenterologia, ele atua no Samu há quatros anos, onde é diretor clínico, e, no início da pandemia, em março, estava substituindo o coordenador geral do Samu, que estava de férias. "Encarei a doença desde muito cedo." Depois de cerca de 90 dias da pandemia, com tanta informação nova e o aumento de casos, ele faz um alerta. "Todos têm que se cuidar, inclusive a classe médica e a população jovem. Fiz o teste esta semana e está tudo bem. Mas outros colegas já testaram positivo. Atendi, recentemente, um paciente que saturava 50% e estava roxo da cabeça aos pés, um menino novo de 30 e poucos anos."

Os casos em jovens também são preocupantes. "Sou a favor de manter um isolamento mais restrito. Mas está na hora de começar uma flexibilização por causa da economia. O rio-pretense, no entanto, está abusando da sorte. Pode abrir o comércio, mas tem que ser algo mais organizado. Abriu um pouco e Rio Preto está com um trânsito de São Paulo. Com a Covid-19, não importa fator de risco ou idade. Todo mundo está sujeito a pegar e desenvolver um quadro mais grave. Eu já vi estatística de paciente de 30 anos, que pela ficha não tinha comorbidades e precisou ir para o tubo (respirador). Eu também já vi idoso, que quando intubaram, já veio sangue do pulmão. É preciso se proteger e proteger quem a gente ama", afirma o médico, que está longe da mãe e do irmão desde março deste ano.

(Francine Moreno)

 

Arquivo Pessoal

Adilson Gomes de Lima, metalúrgico de 39 anos, é um dos curados de coronavírus em Rio Preto. "Sou abençoado por Deus porque eu entrei (na Santa Casa) e saí e tem gente que está lá ainda. Tem gente que não acredita, só acredita a hora que acontece com alguém da família", afirma.

Tudo começou com dores no corpo e cansaço. Os médicos achavam até que era dengue, mas após alguns dias começaram enjoo e fraqueza. Em 8 de junho, apareceram tosse e ardência no peito. "Fui ao UPA e a saturação não estava mais do jeito que tinha que ser, estava faltando ar, cansava rápido", lembra. "Fui encaminhado para a Santa Casa já precisando de máscara para respirar e muita dor no corpo", conta.

Depois de três dias, os medicamentos começaram a fazer efeito e o corpo começou a se recuperar, voltando a andar sozinho. A alta médica aconteceu em 17 de junho e ele foi para a casa da sogra, que mora sozinha e deixou o imóvel para o genro por alguns dias, para que ele evitasse o contato com a família. "Só via eles no portão. Hoje (sábado) vou retornar para casa", celebra ele, que é casado com Samantha dos Santos e pai de Maria Flor e Leonardo.

O metalúrgico ainda sente um pouco de cansaço e não consegue andar muito, mas acredita que logo o desconforto vai embora. "Ontem liguei para a médica, ela tirou bastante dúvida."

Depois de voltar para casa, ele contou ao Diário da Região a sensação do reencontro foi maravilhosa. A família foi tomar um sorvete. "Agora daqui para frente voltar a trabalhar e continuar planejando. A gente crê que Deus tem o melhor para nós, continuar planejando com a família, que é nosso maior tesouro, e cuidar para que meus filhos tenham o melhor, e o que eu puder fazer para que eles estejam livres desse mal que me pegou."

(Millena Grigoleti)