60 DIAS

Rio Preto completa hoje dois meses de quarentena

Regras para evitar aglomerações e tentar conter a disseminação do coronavírus completam dois meses em Rio Preto neste sábado, mexendo com a vida de todos


Depois da pandemia, atendimento é pelo delivery ou drive thru e uso de máscara é obrigatório nas ruas
Depois da pandemia, atendimento é pelo delivery ou drive thru e uso de máscara é obrigatório nas ruas - Guilherme Baffi 22/5/2020

O que você fazia no começo do mês de março? Curtia um barzinho com os amigos, passeava com a família, ia ao cinema ou frequentava as missas ou cultos? Tudo isso mudou desde o dia 23 de março, quando Rio Preto entrou de quarentena por conta do novo coronavírus - neste sábado, 23, a cidade completa dois meses de isolamento social.

Com ruas vazias nas primeiras semanas, aulas suspensas, igrejas com bancos vazios e eventos cancelados, a realidade do rio-pretense se transformou. Quem imaginava ver o Calçadão em pleno sábado, sem ser feriado, vazio? Ou barreiras sanitárias impedindo que turistas entrem em cidades turísticas como Olímpia e Santa Fé do Sul? Teve também a máscara, que passou a ser acessório obrigatório na luta contra o coronavírus no início de maio. O coronavírus que parecia distante, restrito à China, em janeiro, chegou mais rápido do que muita gente imaginou e provocou inúmeras mudanças.

Quem viu de perto a mudança na rotina de vida foi a confeiteira Hellen Matos, mãe de Nicollas Mariano e Pedro Samuel. Com as crianças em casa, ela teve que se desdobrar diante da nova realidade. "No começo a gente tinha aquela esperança que ia passar rápido, agora não. Fica essa em incerteza de quando tudo voltará ao normal", falou.

As mudanças também refletiram no campo econômico e muita gente teve que se reinventar. A queda na venda de bolos de Hellen fez com que ela precisasse recorrer ao auxílio emergencial. "Meu condomínio está atrasado, porque os pais da criança não teve como depositar a pensão. Ele também está com dificuldades", disse.

Depois de 60 dias, Nicollas e Pedro, filhos de Hellen, cansaram do videogame, a saudade agora é de brincar no espaço do prédio que há dois meses virou sonho por conta da doença. "Como ficam só em casa, agora toda vez que eu desço para colocar lixo eles querem ir comigo. Estão até reclamando de jogar videogame, porque até os eletrônicos estão ficando chato", afirma a mãe.

Na casa da professora Maria Franciélia Pinheiro Rocha, a quarentena também provocou mudanças. Acostumada a lidar com as crianças na sala de aula, a professora agora se comunica com os alunos através de um celular. "É extremamente complicado, porque uma coisa é quando você sai de casa e vai trabalhar fora. Dentro de casa é totalmente diferente, você vê um filho precisando de ajuda de um lado, o filho de outro. Aí alguém chama lá fora", destaca.

Ela confessa que teve se reinventar como dona de casa e professora. "Você em casa tem que fechar os olhos pra muita coisa e tenho procurado padronizar alguns horários. Um horário para sentar no computador e atender as demandas da escola, outro para conversar com minha filha e outro só pra mim. Em casa até separei um espaço para cada um. Tem dia que dá certo, agora tem dias que não", afirma.

Quem também teve alteração no modo de vida foi a auxiliar administrativa Fernanda de Matos Giraldelli, 32 anos. Mãe de Elisa, de 3 anos, ela sai para trabalhar todos os dias. Precisou modificar hábitos simples ao chegar em casa. "Agora é uma loucura porque na porta de casa já tem que colocar máscara, aí vamos seguindo os cuidados. Sem contar o uso constante de álcool em gel", pontuou.

Passados 60 dias de quarentena, o sentimento dos rio-pretenses também se modificou. Prova disso, é o índice de isolamento social. Teve grande adesão nos primeiros dias de quarentena, com índices que chegaram perto dos 50% de pessoas em casa. Caiu durante algumas semanas e chegou a 37% no dia 8 de maio. Ficou por duas semanas entre os menores do Estado. Nesta semana, os índices subiram e foram a 44%.

Em meio a incertezas sobre o futuro, Hellen, Maria Franciélia e Fernanda aprenderam uma coisa na quarentena: que o coronavírus e que o isolamento fez com que todo mundo refletisse realmente sobre o que é a vida.

16 de março

  • A Prefeitura de Rio Preto proíbe eventos com mais de cem pessoas no município e anuncia a suspensão das aulas na rede municipal a partir de 23 de março. Cidade tinha um caso confirmado da doença, que ainda aguardava o resultado da contraprova do Instituto Adolfo Lutz.

20 de março

  • Prefeito Edinho Araújo decreta estado de emergência e manda fechar comércio a partir de segunda, 23. Ficam abertos apenas serviços essenciais. Cidade contabilizava 60 casos suspeitos de coronavírus e dois casos confirmados

21 de março

  • Diocese de Rio Preto decreta a suspensão das missas em todas as igrejas católicas da região de Rio Preto; missas começam a ser transmitidas pelas redes sociais

24 de março

  • Prefeitura decreta estado de calamidade pública e amplia restrições para o funcionamento de diversos estabelecimentos, proibindo velórios à noite e limitando a duração para no máximo 4 horas e presença de até 10 pessoas por sala, com rotatividade e sem permanência nos seus espaços de convivência. Cidade tinha oito casos confirmados da doença

26 de março

  • Confirmada a transmissão comunitária em Rio Preto, ou seja, vírus já circulava na cidade e doença não podia ser mais adquirida apenas por quem tinha viajado para países ou cidades com casos confirmados

4 de abril

  • Secretaria da Saúde de Rio Preto confirma primeira morte por Covid-19 em Rio Preto; vítima é uma idosa de 79 anos. Cidade tinha 32 casos confirmados da doença

22 de abril

  • Rio Preto adota o "Projeto Sentinela", que amplia os testes na cidade. Rio Preto tinha 68 casos positivos

27 de abril

  • Representantes de shopping centers de Rio Preto apresentam ao prefeito plano para reabertura dos centros comerciais a partir do dia 11 de maio - o que não vigorou. Cidade tinha 82 casos

7 de maio

  • Governo do Estado determina que uso de máscara passa a ser obrigatório em todo o Estado. Prefeitura diz que cidade vai fiscalizar e terá blitze orientativas, sem multas

22 de maio

  • Rio Preto confirma 518 casos de coronavírus e 18 mortes pela doença

"Com 60 dias, nós podemos afirmar que conseguimos achatar a curva. Na realidade, se nós não tivéssemos achatado a curva, hoje estaríamos em Rio Preto com cerca de 2 mil casos", diz o secretário da Saúde de Rio Preto, Aldenis Borim.

Em entrevista ao Diário, Borim afirma que em questão de saúde, os 60 dias de quarentena foram muito importantes para Rio Preto, tanto para não colapsar o sistema, bem como para evitar que a doença fizesse um número maior de vítimas na cidade. "Da saúde com certeza, o que foi feito até o momento tem funcionando adequadamente, o número, embora continue aumentando, está num ritmo muito aceitável", declarou o secretário.

Até a tarde desta sexta-feira, 22, Rio Preto contabilizava 518 casos confirmados da doença. "Isso é sinal que o plano de contingência está funcionando. Conseguimos cumprir com a demanda da rede por materiais necessários e estamos tendo resultado", declarou o secretário.

Sobre os próximos passos, de abertura ou não do comércio, ele é cauteloso: "tudo depende de como vai ser o isolamento social dessa semana". (RC)